Bloomberg — O aumento das importações brasileiras de veículos parcialmente montados na China pode, futuramente, colocar em risco milhares de empregos na indústria automotiva da maior economia da América Latina, segundo o principal executivo da Stellantis na América do Sul.
As montadoras chinesas, como BYD e Great Wall Motor, ganharam força no mercado brasileiro com a importação de kits de montagem, chamados em inglês de knocked-down, termo usado na indústria automotiva para descrever veículos parcialmente construídos em um país e enviados para outro para a montagem final e venda.
Esses veículos exigem muito menos mão de obra para serem finalizados nos países de destino em comparação com as linhas de montagem tradicionais, que produzem carros do zero.
A Stellantis precisaria de apenas 10% de seus cerca de 35.000 funcionários na América do Sul caso a montadora adotasse uma estratégia de kits de montagem, que podem ser totalmente ou parcialmente desmontrados, conhecidos como CKD e SKD nas siglas em inglês, disse Herlander Zola, presidente da Stellantis para a América do Sul, a jornalistas em São Paulo na terça-feira (7).
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“Definitivamente, se esse modelo começa a migrar realmente para o CKD e para o SKD, essa é a cadeia que está em risco nesse negócio”, disse Zola.
As marcas chinesas de automóveis representaram cerca de 17% das vendas de carros novos no Brasil nos primeiros nove meses de 2026, incluindo uma fatia de 25% somente em setembro, segundo Zola. Isso representa um rápido crescimento em relação aos aproximadamente 9% registrados durante todo o ano passado.
“Essa aceleração ninguém conseguia prever desse jeito”, disse Zola.
As chinesas BYD, Geely e outras empresas mantém negócios no país, com alguma prometendo produção local. A BYD, por exemplo, planeja começar a fabricar por completo alguns de seus modelos até o final deste ano na fábrica que está construindo na área da antiga fábrica da Ford na Bahia.
Zola afirmou que a Stellantis poderia importar veículos desmontados por conta própria, se fosse necessário para manter a competitividade, possivelmente aproveitando suas parcerias com as montadoras chinesas Leapmotor e Dongfeng.
“Temos um leque absolutamente aberto para podermos nos adaptar àquilo que for mais adequado, aquilo que for mais competitivo, diante daquilo que vai acontecer tanto no Brasil quanto na Argentina e nos outros mercados”, afirmou.
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A expansão global das montadoras chinesas gerou debates nos países produtores de automóveis sobre a necessidade de medidas para proteger os fabricantes locais.
Flávio Bolsonaro não apresentou uma política detalhada para o setor automotivo durante sua campanha. Ele conseguiu uma vantagem estreita sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o primeiro turno das eleições, com o segundo turno marcado para 25 de outubro.
Em 2024, Lula implementou um programa de mobilidade verde e inovação que incluía requisitos de sustentabilidade e incentivos fiscais para empresas que investirem em descarbonização e na produção de novas tecnologias.
A alíquota de 35% do imposto de importação de 35% aplicada pelo governo federal sobre veículos eletrificados feitos no exterior não é suficiente para garantir que as montadoras invistam na produção nacional, afirmou Zola. Ele também disse que a ausência de medidas que estimulem a compra de matérias-primas e componentes de fornecedores locais pode colocar a cadeia de suprimentos automotivos brasileira em desvantagem em relação aos importadores.
“Qual marca chinesa usa o parque industrial, o parque de fornecedores, a cadeia automotiva no Brasil?”, disse ele. “Hoje, nenhuma das chinesas que estão estabelecidas aqui, inclusive aquelas que já começaram a produzir.”
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Zola afirmou que o governo brasileiro deveria definir um modelo industrial claro para apoiar a indústria nacional, o que poderia envolver novas barreiras à importação e incentivos à produção local.
“A cadeia automotiva como todo vai precisar se adaptar a essa lógica de previsibilidade que virá em breve, a partir de uma clareza maior em relação ao governo que vai se estabelecer, porque seja ele de direita ou de esquerda, é um tema que precisa ser debatido”, disse ele.
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