Bloomberg — A Deutsche Telekom avalia uma combinação completa com seu braço americano, a T-Mobile US, um movimento que criaria um grupo multinacional de telecomunicações e se classificaria como o maior negócio de fusões e aquisições de empresas de capital aberto de todos os tempos, disseram pessoas com conhecimento do assunto ouvidas pela Bloomberg News.
A Deutsche Telekom já é a maior acionista da T-Mobile, com uma participação de cerca de 53%. A operadora alemã tem discutido a ideia de criar uma nova holding que faria uma oferta de compra de ações da Deutsche Telekom e da T-Mobile, disseram as pessoas, pedindo para não serem identificadas porque a informação é privada.
O possível acordo criaria um grupo corporativo único e simplificado que controlaria as operações da Deutsche Telekom e da T-Mobile e seria de propriedade conjunta dos atuais investidores das duas empresas.
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A transação reuniria empresas com uma capitalização de mercado combinada de cerca de US$ 380 bilhões sob o mesmo teto - estabelecendo uma entidade resultante da fusão com maior peso para potencialmente buscar aquisições.
Isso resultaria no maior negócio de fusões e aquisições de empresas de capital aberto todos os tempos, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.
O negócio superaria a aquisição da Time Warner pela America Online por cerca de US$ 186 bilhões, incluindo dívidas, e a aquisição da Mannesmann pela Vodafone AirTouch por um valor semelhante - ambas concluídas na virada do milênio.
A entidade combinada poderá, então, buscar uma listagem nos Estados Unidos e em uma grande bolsa de valores europeia, embora os detalhes ainda estejam sendo elaborados, disseram algumas das pessoas.
As ações da Deutsche Telekom estavam 2% mais baixas no início do pregão de quarta-feira em Frankfurt, dando à empresa um valor de mercado de cerca de 138 bilhões de euros. A T-Mobile caiu 1,5% para US$ 195,39 em Nova York na terça-feira, com uma capitalização de mercado de cerca de US$ 215 bilhões.
As discussões estão em um estágio preliminar, e qualquer transação precisaria de apoio político para avançar, disseram as pessoas ouvidas.
Os detalhes do possível acordo também podem mudar. As empresas têm considerado uma união mais estreita há anos e não há certeza de que decidirão prosseguir desta vez, disseram as pessoas.
“De acordo com sua prática habitual, a DT e a TMUS não comentam especulações a respeito de suas atividades corporativas, nem há detalhes específicos para comentarmos em relação à sua consulta”, disse um porta-voz da Deutsche Telekom em um comunicado enviado por e-mail.
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As ações da Deutsche Telekom são negociadas bem abaixo do múltiplo de ganhos da T-Mobile, que contribui com a maior parte de seus lucros. A combinação das duas empresas poderia reduzir esse desconto de avaliação e dar ao grupo resultante da fusão maior peso para potencialmente buscar aquisições. Também criaria a maior operadora sem fio do mundo em termos de capitalização de mercado, superando a China Mobile que está avaliada em cerca de US$ 234 bilhões.
A Deutsche Telekom entrou no mercado norte-americano em 2001, quando o então CEO Ron Sommer comprou a antecessora da T-Mobile, a VoiceStream Wireless, em um negócio que foi criticado na época por ser muito caro. Mais tarde, a VoiceStream foi rebatizada de T-Mobile USA.
Obstáculos à transação
Qualquer transação poderá enfrentar obstáculos significativos, incluindo a necessidade de apoio político em Berlim e Washington.
O governo alemão e o credor estatal KfW possuem uma participação combinada de cerca de 28% na Deutsche Telekom, o que lhes dá grande influência em qualquer negócio.
Para obter a aprovação, as empresas talvez precisem considerar compromissos para manter uma base importante na Alemanha e fazer investimentos significativos nos EUA, disseram algumas das pessoas.
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Não está claro se o governo alemão apoiaria um acordo, pois isso lhe daria uma participação menor na empresa combinada. Eles também precisariam convencer os investidores de que os méritos da criação de um grupo multinacional de telecomunicações maior superam os benefícios de ter duas empresas separadas e mais focadas que possam atrair investidores interessados em seu mercado específico.
A nova holding provavelmente seria incorporada em uma jurisdição europeia fora da Alemanha, disseram as pessoas. As empresas já usaram anteriormente uma estrutura semelhante para megadeals intercontinentais, incluindo a combinação de aproximadamente US$ 35 bilhões da gigante americana de gás industrial Praxair com a rival alemã Linde.
Para efetuar essa transação, elas criaram uma holding incorporada na Irlanda - vista como um meio-termo neutro - que fez ofertas de ações separadas para a Praxair e a Linde. O grupo resultante da fusão foi então listado na Bolsa de Valores de Nova York e na Bolsa de Frankfurt.
Advertência do CEO
Em um podcast de fevereiro, o CEO da Deutsche Telekom, Tim Hoettges, alertou que a regulamentação europeia é um grande obstáculo que está impedindo o progresso na construção da infraestrutura digital do continente.
Ele disse que, embora a Deutsche Telekom tenha se tornado um peso pesado global, seu valor de mercado é quase que exclusivamente impulsionado por seus negócios nos EUA, destacando as dificuldades do mercado europeu.
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A possível mudança também ocorre em um momento de crescente tensão entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e os líderes europeus, como o chanceler alemão Friedrich Merz, que têm se desentendido em questões que vão desde tarifas até a aliança da OTAN.
A União Europeia tem trabalhado em novas diretrizes para fusões que potencialmente facilitariam o caminho para a criação de campeões europeus grandes o suficiente para competir com rivais americanos e chineses. Ao mesmo tempo, muitas empresas europeias têm buscado aquisições nos EUA para aproveitar o crescimento mais rápido desse mercado.
Roger Entner, fundador da Recon Analytics, disse que a T-Mobile é a razão pela qual a Deutsche Telekom é a empresa de telecomunicações europeia com melhor desempenho. “Eles sempre quiseram trazer isso para dentro da empresa”, disse Entner.
‘Fusão sem prêmio’
Os analistas da NewStreet Research disseram em uma nota que um acordo daria às empresas “mais opções” para buscar aquisições potencialmente grandes sem diluir a Deutsche Telekom.
“Só por isso, achamos que esse é um acordo que vale muito a pena ser considerado pela DT, pois daria a ela mais opções futuras em um mercado em consolidação, no qual a convergência pode assumir qualquer forma nos próximos 5 a 10 anos”.
Eles acrescentaram que acreditam que um acordo provavelmente seria uma “fusão sem prêmio”.
Os analistas do Citigroup disseram que não veem imediatamente benefícios óbvios para os acionistas da T-Mobile, a menos que a Deutsche Telekom ofereça um prêmio significativo.
“A possibilidade de um cenário de fusão também levanta a questão de saber se a DT estaria ou não disposta a pagar um prêmio significativo para consolidar a propriedade, especialmente porque a DT poderia argumentar que suas operações fora dos EUA já estão subvalorizadas dentro do preço das ações da DT”, escreveram os analistas.
A Deutsche Telekom tem preparado o terreno há anos para exercer ainda mais controle sobre a T-Mobile.
O ex-executivo da Deutsche Telekom Srini Gopalan assumiu o cargo de CEO da T-Mobile em novembro. Gopalan havia sido CEO da Deutsche Telekom Germany antes de ingressar na T-Mobile como diretor de operações em março do ano passado.
A empresa expressou seu desejo de aumentar sua participação na T-Mobile, com Hoettges, da Deutsche Telekom, dizendo no início deste ano que a empresa estava avaliando maneiras de aumentar ainda mais sua participação.
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