Bloomberg Línea — O BTG Pactual (BPAC11) espera que sua operação bancária nos Estados Unidos ganhe robustez ao fim de 2027, e não tem prazo para listar suas ações em bolsa estrangeira, embora estude a hipótese.
Sobre um eventual programa de ADR (American Depositary Receipt, recibo que permite negociar ações de empresas estrangeiras em bolsas americanas), o CFO Renato Cohn não descartou a hipótese, mas disse que o banco não vê necessidade agora.
“A gente avalia sempre todo tipo de oportunidade e possibilidade. Mas até agora a gente está bem confortável com a listagem aqui na B3”, afirmou o CFO Renato Cohn em coletiva após a divulgação dos resultados.
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A resposta veio à pergunta da Bloomberg Línea sobre se listar em Nova York é algo que o banco estuda, e se haveria obstáculos como a perda do benefício fiscal dos juros sobre capital próprio ou a necessidade de reorganização societária, caminho que Nubank (NU) e XP (XP) percorreram. O executivo afastou o argumento tributário.
“Uma eventual listagem lá fora não exigiria nenhuma necessária mudança tributária porque você pode fazer isso via ADR”, explicou o executivo.
O banco obteve licença bancária americana em janeiro, com a conclusão da compra do M.Y. Safra, e já capta depósitos em dólar e concede crédito para pessoa física, empresas e financiamento imobiliário no país.
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A operação depende, porém, de plataforma, tecnologia e infraestrutura ainda em construção, num ciclo que atravessa 2026 e 2027. O público-alvo são clientes latino-americanos com investimentos globais e residentes americanos ligados à região.
“O banco já recebe depósitos, vai continuar a receber depósitos”, disse Cohn, ao projetar aumento de volume conforme a plataforma amadurece.
O balanço registra a presença americana sob uma controlada chamada BTG Pactual Bancorp, que contribuiu com R$ 115,4 milhões no primeiro semestre. O patrimônio líquido, porém, encolheu de R$ 4,126 bilhões em dezembro para R$ 3,997 bilhões em junho, porque a variação cambial negativa de R$ 243,6 milhões superou o resultado gerado no período.
O CFO fez uma ressalva sobre a leitura desses números. Segundo ele, a estrutura reúne negócios antigos, como a corretora que atende estrangeiros com investimentos no Brasil, a gestora de recursos e o aconselhamento a clientes de alta renda. O banco propriamente dito entrou depois e ainda pesa pouco no resultado.
“Esse resultado é referente muito mais aos negócios que já existiam há bastante tempo”, afirmou.
Listagem fora segue sem data
Como listar no exterior não exigiria mudança na estrutura tributária, o que sustenta a permanência exclusiva na B3, segundo o executivo, é o perfil de quem compra o papel. Os grandes investidores em ativos brasileiros e de mercados emergentes são institucionais, e não o varejo americano, e esse público já opera por meio de veículos na bolsa brasileira.
“A gente acha que o foco e a concentração da liquidez desse investidor aqui na B3 é bastante boa”, disse Cohn.
A ausência coloca o BTG fora de um grupo que reúne quase todos os seus pares de porte. Itaú (ITUB4) e Bradesco (BBDC4) mantêm ADRs na Bolsa de Valores de Nova York há anos, estrutura que preserva a listagem local e permite ao investidor americano comprar o papel em dólar, no próprio fuso, sem abrir conta no Brasil.
Plataformas de investimento e fintechs seguiram caminho mais radical. Nubank, XP, Inter, StoneCo (STNE) e PagBank (PAGS) constituíram holdings no exterior, em geral em Cayman, e listaram ações ordinárias diretamente na NYSE ou na Nasdaq, o que exigiu reorganização societária.
O BTG negocia apenas na B3, por meio das units BPAC11, BPAC3 e BPAC5, embora já publique demonstrações consolidadas em padrão contábil internacional, conforme a Resolução CMN 4.818, requisito que costuma anteceder uma listagem lá fora.
Uruguai e o papel regional
Indagado sobre o peso da operação internacional, Cohn afirmou na coletiva que cerca de 20% da receita vem de fora do Brasil, proporção próxima à da carteira de crédito, cuja exposição externa se aproxima de 25%, acima dos 20% do ano passado. O banco não abre esses percentuais em suas demonstrações financeiras.
O BTG comprou a operação uruguaia do HSBC por US$ 175 milhões, concluída em julho, e adquiriu a Julius Baer no Brasil por R$ 615 milhões. Perguntado se o banco se posiciona como consolidador do que as instituições globais deixam na América Latina, o CFO devolveu a premissa.
“A gente já se posicionou como um player de América Latina”, afirmou.
Os primeiros investimentos no Chile, na Colômbia e no Peru foram feitos há cerca de 15 anos, e o que muda agora é a infraestrutura física, com pedido de licença bancária em análise no Peru.
A operação uruguaia inclui varejo de alta renda, e Cohn sinalizou disposição para novas aquisições em praças que considere estáveis. Ele descartou, porém, que a parcela internacional chegue a metade do negócio, porque as receitas brasileiras seguem crescendo em ritmo acelerado.
O que dizem os analistas
Os relatórios sobre o balanço trataram a expansão internacional como vetor de lucro. O Citi, em nota assinada por Gustavo Schroden, Brian Flores e Arnon Shirazi, listou entre os fatores capazes de impulsionar os resultados do segundo semestre “a integração do HSBC Uruguai e a monetização contínua de aquisições recentes”, ao lado da recuperação do mercado de emissão de dívida.
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A leitura vinha se formando desde o anúncio da compra uruguaia. Em relatório de julho de 2025, o Goldman Sachs registrou que “a expansão fora do Brasil segue como um dos caminhos possíveis para o BTG” e enquadrou a transação na sequência das aquisições de bancos nos EUA e na Europa.
Os analistas Tito Labarta, Tiago Binsfeld e Lindsey Shema dimensionaram o negócio: os US$ 175 milhões equivaliam a 0,7% do valor de mercado do banco, e a carteira adquirida, de US$ 1,1 bilhão, a 2,7% da carteira consolidada.
Do outro lado, o Brasil
Durante a coletiva, o contrapeso doméstico apareceu nas perguntas sobre Consumer Finance, vertical que cresceu 37,4% no trimestre e responde por 13% da receita, num ciclo em que Itaú e Bradesco já sinalizaram aperto na concessão.
A provisão consolidada do BTG subiu 19,4% no semestre, para R$ 13,970 bilhões, três vezes o ritmo da carteira, que avançou 6,4%.
Cohn defendeu a composição da carteira do Banco Pan como diferencial e disse que a inadimplência tem vindo abaixo do modelado.
“Basicamente 95% da carteira do Banco Pan é ou veículos, que tem o próprio automóvel em garantia, ou crédito consignado”, afirmou.
Sobre o consignado privado, produto com cerca de um ano e mais de R$ 100 bilhões em volume no mercado, o executivo admitiu que o desempenho pode piorar, mas disse não ver sinal disso na base atendida.
Ele citou desemprego próximo da mínima e massa salarial na máxima como indicadores ainda favoráveis, e ponderou que o cenário está pior do que se projetava seis meses atrás. O banco não divulga o índice de inadimplência do Pan.
No mercado de dívida, a queda de 46,1% na receita de Investment Banking foi atribuída à abertura de spreads no primeiro trimestre, que provocou resgates em fundos de renda fixa e travou colocações.
Cohn indicou pipeline melhor para o terceiro trimestre e explicou que o Value at Risk (VaR), medida de perda potencial diária, recuou para 0,22% do patrimônio por postura mais cautelosa diante das incertezas geopolíticas.
Sobre a participação no IPO da SpaceX, a maior oferta de ações da história, o CFO quantificou o efeito de forma modesta. “A contribuição de receita é muito parecida com a contribuição de ser um coordenador de um IPO local”, disse.
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