Brasil promete caneta emagrecedora no SUS, sem data de incorporação nem orçamento

Ministério da Saúde anuncia oferta gratuita de canetas emagrecedoras no SUS, mas não define data de incorporação nem atualiza estimativa de R$ 8 bi em impacto orçamentário; EMS, fabricante do Ozivy e de um genérico de semaglutida, diz que fornecimento depende de definições do poder público

Caneta emagrecedora
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Bloomberg Línea — O Ministério da Saúde anunciou na quinta-feira (17) que medicamentos análogos de GLP-1, as canetas emagrecedoras, serão oferecidos gratuitamente pelo SUS, sem detalhar o cronograma de compra pública em escala nacional.

O ministro Alexandre Padilha chamou a medida de “um direito”, mas o governo não informou data de incorporação nem valor atualizado de impacto orçamentário.

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Em conversa com jornalistas, o ministro rebateu críticos que apontam pressa eleitoral no anúncio e reafirmou que o fomento à produção nacional “não é uma coisa de ontem”, tendo começado no fim de 2025, após recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde).

“Está sendo eleitoreiro quem ignora o planejamento que já vem sendo feito”, disse Padilha, em referência sem nomear a um parlamentar que classificou o anúncio como decisão de última hora.

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Padilha usou a mesma lógica para justificar a viabilidade financeira da promessa. “Já temos 16 registros aqui no Brasil, isso é que vai dando sustentabilidade para o SUS, defesa para o SUS”, disse o ministro, ao citar a diversificação de fabricantes como resposta indireta à pergunta sobre custo.

Ele não informou, contudo, se esse ganho de escala já foi convertido em nova estimativa de impacto orçamentário pela pasta. Padilha atribuiu ao trabalho da pasta uma queda de 70% no preço da medicação, sem mencionar a expiração da patente da semaglutida em março, apontada por fabricantes como fator concorrencial da baixa.

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“Não tem que ser visto como um milagre estético”, disse o ministro, ao defender que o uso siga restrito a perfis de pacientes com benefício comprovado.

Ele não respondeu, porém, sobre cronograma de incorporação, valor atualizado de impacto orçamentário ou dados de farmacovigilância do Real-Bari.

Investimento da indústria

O anúncio chega num momento em que governo, indústria farmacêutica e até o setor de alimentos se movimentam em torno da mesma classe de medicamentos.

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Enquanto a pasta promete acesso universal pelo sistema público, fabricantes nacionais ampliam capacidade de produção e disputam espaço num mercado privado que cresce com a queda de preços.

No mesmo dia, Padilha visitou a fábrica da Eurofarma, parceira da Novo Nordisk na produção local do Poviztra e do Extensior, canetas de semaglutida licenciadas pela farmacêutica dinamarquesa.

As duas lacunas (prazo e custo) remetem à mesma instância: a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), responsável por avaliar evidência científica antes de qualquer decisão de incorporação.

Em avaliação anterior, a comissão estimou que incorporar semaglutida e liraglutida ao SUS custaria mais de R$ 8 bilhões, valor que motivou a negativa de dois pedidos e que o ministério não atualizou à luz dos preços mais baixos hoje praticados no varejo.

Pela mesma razão, a entrada em vigor “não está definida”, segundo comunicação anterior do próprio governo sobre o início do Real-Bari, estudo que embasa o anúncio e acompanha, desde junho, 250 pacientes no GHC (Grupo Hospitalar Conceição), em Porto Alegre.

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Parte da capacidade industrial que sustenta o discurso de acesso já está instalada, mas sem destino público confirmado.

O ministro esteve em Manaus em 10 de setembro, uma semana antes do anúncio, feito em Montes Claros (MG), para inaugurar uma ampliação de R$ 300 milhões na fábrica da Novamed, do Grupo EMS, que passa a produzir até 2,5 bilhões de comprimidos por mês.

A companhia mantém desde 2024 uma planta de peptídeos sintéticos em Hortolândia (SP), com capacidade projetada para até 40 milhões de canetas por ano, sem fornecimento ao SUS mencionado pelo ministério.

Procurada pela reportagem, a EMS, fabricante do Ozivy e de um genérico de semaglutida ainda sem data de lançamento, respondeu por nota que “acompanha as discussões relacionadas à ampliação do acesso aos medicamentos da classe dos análogos de GLP-1 no sistema público de saúde e está preparada para contribuir com esse processo, respeitando as definições e os trâmites estabelecidos pelo Ministério da Saúde e pelos demais órgãos competentes”.

A empresa disse ainda que “eventuais volumes, valores, prazos e condições de fornecimento ao SUS dependem das definições e dos processos conduzidos pelo poder público”.

Por se tratar de medicamento genérico da semaglutida, o produto da EMS não terá nome comercial e será identificado pelo princípio ativo. A companhia ainda não divulgou a data de início da comercialização.

A Novo Nordisk (fabricante do Ozempic e do Wegovy, e parceira da Eurofarma na produção local do Poviztra e do Extensior), a Eli Lilly (fabricante do Mounjaro) e a Hypera (fabricante do Semavy) foram procurados e não responderam até a publicação da reportagem sobre capacidade de fornecimento e eventual participação em contrato de abastecimento ao SUS.

Disputa no varejo

No varejo, a corrida por preço menor já começou. A Hypera (HYPE3) lançou em 4 de setembro o Semavy, sua versão de semaglutida, com desconto de até 67% sobre o medicamento de referência e preço de R$ 333 por caneta de 1 mg para tratamento de três meses.

A bula registra indicação para diabetes tipo 2, não para obesidade, diferença que o ministério não fez ao citar 16 produtos registrados no país como parte do mesmo movimento de acesso à população.

Dois desses 16 produtos são genéricos de semaglutida registrados pela Anvisa em 17 de agosto, um da EMS e outro da Germed, comercializado como Semaclique, também restritos ao diabetes tipo 2.

A mesma agência precisou conter o outro extremo do mercado: em 16 de setembro, a Anvisa proibiu a caneta T36, sem registro sanitário, além da venda de tirzepatida e retatrutida pelo site Go Pharma, substância ainda sem aprovação em nenhum país.

A importação de canetas sem registro brasileiro do Paraguai virou um problema de saúde pública no país com apreensões em rodovias e aeroportos, ligadas ao mercado clandestino.

Ozempic, Ozivy e Semavy, canetas emagrecedoras

Impacto no setor de alimentos

O apetite do consumidor por essa categoria já mobiliza até o setor de alimentos. Um em cada quatro brasileiros das classes A, B e C que cuidam da alimentação usa medicamentos GLP-1, e outros 18% já usaram, segundo pesquisa encomendada pela Nestlé com 320 entrevistados, sem metodologia de amostragem ou margem de erro divulgada. A empresa usou o dado para lançar um selo de “apoio nutricional” em sua linha Nutren Control.

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