Wall Street revisa apostas para o Brasil e tenta calcular até onde vai a correção

JPMorgan reduziu sua exposição à dívida soberana, ao passo que o Morgan Stanley e o UBS alertam sobre a deterioração fiscal e as dificuldades para recuperar a confiança

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Bloomberg Línea — A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais do Brasil provocou uma forte correção nos mercados financeiros e revelou o risco que os investidores já haviam precificado antes do segundo turno.

O dólar subiu 8,63% em relação ao real, enquanto o Ibovespa caiu 13,88% na segunda-feira (26), depois que as expectativas do mercado de uma vitória de Flávio Bolsonaro e de uma mudança de rumo na política econômica foram frustradas.

Lula obteve 51,8% dos votos válidos contra 48,2% de Flávio Bolsonaro. O resultado surpreendeu os operadores, que haviam atribuído uma probabilidade próxima a 75% a uma vitória do candidato da oposição, segundo o JPMorgan (JPM).

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Para a equipe do banco norte-americano, “o desempenho superior do Brasil dependia de uma mudança de política, mas acarretava um risco que os mercados já haviam descontado”, apesar de as pesquisas anteciparem uma disputa acirrada.

Ibovespa

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JPMorgan e Citi alertam sobre riscos

O JPMorgan considera que a permanência de Lula no poder reduz as perspectivas de uma transformação na política econômica, uma expectativa que havia sustentado sua decisão de elevar a recomendação sobre o Brasil para overweight em 5 de outubro.

O banco estima que as valorizações no mercado de ações possam recuar de um múltiplo de 9,7 vezes os lucros projetados para os próximos 12 meses para 8,3 vezes, podendo chegar até 7 vezes caso a deterioração das expectativas persista.

A pressão afetaria especialmente as empresas ligadas ao consumo interno, as pequenas empresas e aquelas com maior endividamento. Os exportadores, por outro lado, poderiam mostrar maior resistência diante da desvalorização do real.

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O JPMorgan também alerta que “o ponto de partida fiscal se deteriorou acentuadamente durante a campanha”, tanto pelas medidas já adotadas quanto pelos novos compromissos eleitorais, o que representa uma dificuldade adicional para o próximo mandato de Lula.

Em relação à dívida soberana, os analistas do banco reduziram sua recomendação para o Brasil de overweight para underweight. A instituição considera que os spreads de crédito ainda oferecem margem para uma correção em relação a outros emissores com classificação BB.

Em moedas e taxas locais, o JPMorgan reduziu de overweight para “neutro” sua recomendação sobre o Brasil. Para os rendimentos da dívida local, prevê um cenário de queda de 15,5%, embora prefira aguardar antes de adotar uma posição mais defensiva.

Câmbio dólar/real

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No setor de crédito corporativo, o banco mantém sua recomendação de overweight dos títulos brasileiros com classificação de investimento, mas rebaixou a recomendação para underweight dos títulos de alto rendimento, diante de seu desempenho relativo recente e da deterioração das condições do mercado

André Mazini, analista do Citi (C), afirmou que “a vitória de Lula no segundo turno deve ser recebida negativamente pelo mercado, em nossa opinião, já que o resultado foi contrário às expectativas dos investidores”.

O banco identificou uma reação assimétrica entre os investidores: as perdas esperadas em caso de vitória de Lula superavam amplamente os ganhos previstos em caso de eventual vitória de Bolsonaro.

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Para o UBS, a alta anterior dos ativos brasileiros baseava-se na expectativa de um governo favorável ao mercado e de um programa de consolidação fiscal rápido e contundente.

No entanto, o banco considera que ainda não há medidas concretas suficientes para justificar as valorizações alcançadas após o primeiro turno.

A instituição financeira prevê que as valorizações do Ibovespa retornem aos níveis anteriores ao primeiro turno eleitoral. O banco destaca que a bolsa estava sendo negociada a 9,6 vezes os lucros esperados, sem refletir plenamente os riscos fiscais.

No mercado de renda fixa, o UBS prevê que o rendimento real do título brasileiro indexado à inflação com vencimento em 2050 suba de 6,74% para pelo menos 7,10%. O banco também antecipa uma redução mais lenta da Selic caso o ajuste fiscal seja adiado.

Dívida e ajuste fiscal

O principal desafio para Lula será a situação das contas públicas. O UBS calcula que a dívida brasileira ultrapassa 80% do PIB, enquanto o déficit fiscal gira em torno de 10%, impulsionado em parte pelo elevado custo dos juros.

O banco estima que os compromissos de gastos anunciados durante a campanha somem cerca de R$ 300 bilhões, um fardo adicional para um governo que precisará recuperar a credibilidade orçamentária.

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Para o UBS, a recuperação da confiança exige “um pacote concreto com medidas quantificadas, não apenas declarações de intenções”, além de compensar os compromissos de gastos eleitorais e obter a aprovação do Congresso antes do final do ano.

O Morgan Stanley (MS) também identifica riscos fiscais. Sua previsão aponta para um déficit primário de 0,7% do PIB em 2027 e uma dívida bruta equivalente a 86,9%, embora alerte que ambos os indicadores possam se deteriorar.

A instituição estima que mais de 91% dos gastos públicos brasileiros sejam obrigatórios, uma rigidez orçamentária que limita a capacidade do governo de conter as pressões fiscais sem reformas estruturais.

Entre os compromissos identificados estão R$ 22,7 bilhões adicionais para o Bolsa Família, R$ 5,2 bilhões em receitas menores devido à proibição das apostas digitais e R$ 5 bilhões para o Desenrola 3.0 ao longo de 2027.

O Morgan Stanley alerta que, em caso de um ajuste tardio e superficial, “a dívida bruta como porcentagem do PIB poderia atingir 106% em 2035”, de acordo com as simulações de seus economistas Thiago Machado e Ana Madeira.

Os estrategistas de mercado Nikolaj Lippmann, Julia Nogueira e Marcos Rios estimam seu cenário pessimista para o Ibovespa em 130.000 pontos em meados de 2027, o equivalente a 6,2 vezes os lucros esperados, “em um cenário de deterioração contínua da política fiscal”.

No mercado de taxas, Ioana Zamfir e Sofía Palacios prevêem “uma correção de pelo menos 300 pontos-base nas taxas DI, que deve ocorrer de forma escalonada”. Uma maior deterioração fiscal poderia levar o mercado a precificar novos aumentos da Selic.

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Até onde chega a correção?

Benito Berber, analista do Natixis, identificou a responsabilidade fiscal como a principal preocupação dos investidores. Em uma pesquisa realizada antes das eleições, 76% de seus clientes apontaram esse fator como sua maior preocupação.

A composição do Congresso também será determinante. Os partidos de centro-direita e direita ampliaram sua representação, o que pode dificultar a aprovação de iniciativas do Executivo.

A Natixis considera que as perspectivas do real dependerão das intervenções do Banco Central, das condições financeiras internacionais e dos anúncios fiscais do novo governo.

A Bloomberg Economics, no entanto, apresenta uma visão menos pessimista sobre as consequências econômicas da vitória de Lula.

Adriana Dupita e Jimena Zúñiga consideram que “há boas razões para esperar que a queda dos ativos brasileiros seja significativa, mas temporária”.

As economistas destacam que o Brasil mantém fundamentos capazes de limitar a deterioração: crescimento econômico positivo, inflação dentro da margem de tolerância, uma balança de pagamentos resistente e taxas de juros atraentes.

Elas também questionam se o resultado eleitoral, por si só, justifica uma mudança radical nas expectativas fiscais, já que ambos os candidatos fizeram promessas onerosas sem detalhar um caminho suficiente para o superávit.

A Bloomberg Economics prevê uma consolidação fiscal gradual e moderada, independentemente de quem tivesse vencido as eleições.

A atenção dos bancos se voltará agora para a nomeação do ministro da Fazenda, as primeiras medidas orçamentárias, a resposta do Congresso e as decisões do Banco Central, cuja próxima reunião está marcada para 4 de novembro.

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