Bloomberg Línea — Bancos, gestoras e investidores avaliam que o vencedor da eleição presidencial terá de mostrar, antes de tomar posse em janeiro, como vai conciliar promessas de campanha com cortes de despesas para conter a dívida pública.
Para o mercado financeiro, sem um novo ajuste fiscal o endividamento avança, e o juro não cai. O crédito caro desafia famílias e empresas. O aperto, porém, pode atingir benefícios ampliados no ano eleitoral, defendidos pelo governo como políticas de renda e emprego.
“A falta de controle de gastos minou seriamente a credibilidade das metas fiscais e contribuiu para uma economia superaquecida e superendividada”, observou Alberto Ramos, diretor de pesquisa para América Latina do Goldman Sachs, em relatório de quarta-feira (30).
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A dívida bruta do governo chegou a 82,9% do PIB em agosto e deve fechar o ano em 83,1%, segundo o relatório. O banco prevê que a proporção siga em alta nos próximos anos.
Para a Kinea Investimentos, gestora do grupo Itaú Unibanco (ITUB4), o maior banco privado do país, quem vencer herdará um dos maiores ajustes fiscais desde a redemocratização.
“Para o mercado, a eleição não se encerra em outubro: encerra-se quando o vencedor disser, com números, como pretende fechar essa conta”, afirma a carta de setembro.
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Se nenhum candidato obtiver mais da metade dos votos válidos no domingo (4), haverá segundo turno no dia 25. Pesquisas indicam disputa apertada, e a abstenção pode influir no resultado, segundo a Tendências Consultoria.
O Citi não descarta definição já no domingo. Com rejeição de 45% para cada candidato, o cenário apertado e polarizado “pode levar a um voto estratégico no primeiro turno”, que as pesquisas não captam, segundo relatório recente do banco.
“As chances de resolução no primeiro turno não são desprezíveis”, alerta o documento.
A Faria Lima, coração financeiro do país, acompanha com cautela a disputa entre o presidente Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). No Datafolha de quinta-feira (1º), o petista tem 48% no segundo turno, e o candidato da direita, 45%.
O Citi lembra que 34% dos eleitores avaliam o governo como bom ou excelente. No mesmo período da campanha, Dilma Rousseff tinha 37% em 2014, quando se reelegeu, e Jair Bolsonaro, 31% em 2022, quando foi derrotado.
“Não há gordura eleitoral suficiente para o mercado abandonar o hedge”, afirma Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, escritório ligado à XP.
Diante do risco fiscal, parte dos investidores mantém aplicações que ganham valor se o real perder força, como opções de câmbio atreladas à alta do dólar.
“A urna ainda não abriu, mas a curva de juros já está votando. Pesquisa mede intenção de voto; preço de ativo mede intenção de fuga”, diz a executiva.
Com a Selic em 13,75% ao ano, o crédito segue caro. “Essa mesma taxa de juros começa a produzir evidências concretas fora da Faria Lima”, afirma Brás, ao citar famílias que desistem de imóveis comprados na planta e produtores rurais sem condições de pagar dívidas.
Promessas com preço
Medidas de alívio ao consumidor têm custo para o Tesouro Nacional. A Petrobras (PETR4) já recebeu R$ 13,3 bilhões em subvenções federais a combustíveis, segundo o Daycoval (DAYC4). O governo defende suas iniciativas como políticas de renda, emprego e preços, em meio ao impacto do barril de petróleo mais caro devido à guerra entre EUA e Irã.
Novas promessas teriam efeito imediato nos preços dos ativos. Para a Kinea, uma “guinada populista” após a eleição provocaria choque de expectativas e, com alta probabilidade, interromperia o ciclo de cortes da Selic.
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Os programas dos candidatos tratam das contas públicas por caminhos diferentes, observa Sara Paixão, analista de macroeconomia da InvestSmart XP. Lula propõe manter o arcabouço fiscal, com o crescimento econômico como parte do resultado. Flávio propõe reformular as regras, com superávits e limites às despesas dos três Poderes.
A divergência entre esquerda e direita se repete no tema dos impostos. Flávio defende reestruturar a reforma tributária para reduzir o IVA, imposto sobre o consumo, enquanto Lula defende sua implementação e medidas de justiça tributária. Segundo a analista, nenhum dos dois apresenta metas quantitativas para as contas públicas.
O tamanho do aperto
O Orçamento de 2027 enviado ao Congresso projeta superávit primário apenas simbólico, segundo a Kinea. Pelas simulações da gestora, seria preciso um saldo próximo de 2% do PIB para estabilizar a dívida.
Ramos, do Goldman Sachs, chega a número semelhante e duvida que ele seja alcançado. “Esse resultado é muito improvável no curto prazo, em nossa avaliação”, escreve.
Nos 12 meses até agosto, os juros pagos sobre a dívida equivaleram a 8,9% do PIB.
Parte da pressão já está contratada. Sara Paixão lembra que os precatórios, dívidas da União reconhecidas pela Justiça, foram colocados fora da regra de gastos e voltarão a ser incluídos aos poucos a partir de 2027.
Há ainda um limite político. A Kinea observa que um Congresso fragmentado já retém parcela relevante do orçamento discricionário. “O Executivo herda a responsabilidade pelo resultado sem herdar o controle sobre a despesa”, resume a carta.
A alta dos juros nos EUA também limita o espaço para cortes no Brasil. O Fed (Federal Reserve) aprovou em setembro sua primeira alta desde 2023, e o título de 10 anos do Tesouro americano superou 5%, nível inédito em duas décadas.
Com o papel americano rendendo mais, o dólar se fortalece e o capital tende a deixar países emergentes. Para o Daycoval, os juros brasileiros devem seguir pressionados pelos títulos americanos e pelo risco fiscal.
O plano esperado na transição
O calendário legislativo encurta o prazo. Para valer em 2027, as medidas precisam ser aprovadas no primeiro semestre, e o debate com o Congresso terá de começar antes da posse. “Se atacar o fiscal primeiro, o próximo governo navegará melhor o restante do mandato”, afirma a Kinea.
Com esse ajuste, o cenário-base da gestora prevê para 2027 crescimento de 1%, inflação de 4,7% e Selic em 12,5% ao fim do ano. A projeção pressupõe corte de cerca de 1,5% do PIB, anunciado logo no início do mandato.
A agenda do vencedor inclui negociação com Washington. Na reunião do G20 em Milwaukee, o Brasil pediu a antecipação da revisão das tarifas americanas, que somam até 37,5% para alguns produtos. “Uma escalada pode produzir custos para os dois lados”, afirma Daniel Toledo, advogado especializado em direito internacional.
As contas públicas, porém, seguem no centro do debate. Para o Daycoval, a condução fiscal a partir de 2027 é o principal ponto de atenção. Segundo o banco, o prêmio embutido nos juros futuros de prazo mais longo pode mudar de forma relevante à medida que os investidores precificarem esse cenário macroeconômico para o ano que vem.
Parte da Faria Lima já se posicionou. A Kinea comprou ações brasileiras, principalmente via EWZ, fundo de índice negociado em Nova York, por ver maior chance de vitória de uma proposta mais comprometida com o controle de gastos.
Para os demais, a definição virá com nomes e números. “A falta de detalhes sobre como as medidas de ambos serão implementadas e a composição da equipe econômica são um ponto de atenção e podem gerar mudança de expectativa no mercado conforme a divulgação”, afirma Sara Paixão.
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