Ex-diretor do BC vê maior parte dos cortes da Selic pós-eleição e taxa a 11% em 2027

Bruno Serra, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e gestor da família de fundos Itaú Janeiro, afirma que choque do petróleo deve levar o Copom a um ritmo mais lento de flexibilização, com a maior parte dos cortes da Selic após as eleições

Bruno Serra, ex-diretor de política monetária do Banco Central
Por Felipe Saturnino - Fernando Travaglini

Bloomberg Línea — O ex-diretor do Banco Central e gestor da família de fundos Itaú Janeiro, da Itaú Asset Management, Bruno Serra, disse que a maior parte dos cortes da Selic deve vir após as eleições, dado que o choque do petróleo provavelmente fará com que o Copom adote um ritmo “mais devagar” neste começo de ciclo.

Ainda assim, há espaço para reduzir a Selic ao patamar de 11% até meados de 2027.

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“Acho que vai discutir 11%, 10%, isso não vai mudar”, disse Serra, em entrevista, que já esperava uma Selic final nesses patamares ao fim do processo de flexibilização monetária antes da guerra. “O choque vai fazer você postergar” o ciclo de cortes, disse Serra.

Para ele, o movimento do petróleo, que tem caído nas últimas sessões por perspectivas mais construtivas com o fim da guerra, mas se manteve acima de US$ 100 por vários dias, “vai gerar uma atividade mais fraca ainda, porque vai se carregar aquela Selic que as empresas já estavam vendo”.


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Nesse cenário, o “grosso do ciclo” de cortes deve acontecer após a eleição, disse em entrevista na sede da asset, na segunda-feira. A ata do Copom, divulgada nesta terça-feira, não trouxe nada adicional ao cenário, disse ele.

O Banco Central cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,50%, na semana passada, quando sinalizou “serenidade e cautela” para a calibração dos juros à luz novas informações.

Na ata, BC reafirmou o compromisso em combater efeitos de segunda ordem do choque do petróleo decorrente da guerra no Oriente Médio e disse que “ficou evidente” a desancoragem adicional das expectativas, em particular para 2028.

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Serra, que foi diretor de política monetária do BC entre 2019 a 2023, afirmou que o Copom tem espaço para reduzir os juros ao menos por mais duas reuniões ao ritmo de 0,25pp.

Leia também: Goldman eleva projeção da Selic para 13,25% em 2026 diante do choque do petróleo

A autoridade monetária, no entanto, pode ser forçada a pausar o processo de cortes, caso o petróleo em alta siga pressionando expectativas de inflação para 2028, e, eventualmente, retomar o processo de redução da taxa básica.

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“Se essa expectativa continuar subindo, ele vai ter que parar, no 14,5%, 14,25% ou 14%, nem que seja para dar recado”, disse Serra. “E aí, é torcer para evoluir bem” o cenário, afirmou o gestor.

Na pesquisa Focus desta semana, a projeção dos economistas para a inflação em 2028 teve nova elevação, de 3,61% para 3,64%.

Eleições

Para ele, o BC teria o viés de voltar a cortar juros caso promovesse uma pausa no processo, dado o atual nível de juros. Segundo ele, o elevado patamar da Selic deve evitar que um debate sobre novas altas da Selic venham à mesa.

Para Serra, se houver sinalização de encaminhamento da questão fiscal pós-eleição, a discussão no mercado se transforma em uma Selic final de 8% ou 9%. “Abre uma avenida adicional para cortar juros”, disse ele.

O Itaú Janeiro reduziu o risco na posição aplicada em juros futuros — aquela que lucra quando as taxas nominais negociadas na B3 caem — para cerca de um terço do tamanho da posição que detinha imediatamente antes do choque do petróleo.

A aposta foi ganhadora ao longo de 2025, conforme o mercado apostava que o BC ganhava espaço para cortar juros.

O fundo detém uma posição vendida no dólar contra o real. Para Serra, no entanto, a possibilidade de apreciação da moeda brasileira após o rali recente é limitada.

A família de fundos Itaú Janeiro, liderada por Bruno Serra, detém cerca de R$ 25 bilhões em ativos sob gestão, de acordo com a assessoria de imprensa da Itaú Asset.

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