Como a Hapvida foi de preferida de gestores à perda de R$ 80 bi em valor de mercado

A ação da operadora de saúde caiu 95% desde o pico em 2021, lidera as perdas do Ibovespa nos últimos 12 meses e teve seu valor de mercado reduzido de R$ 88,2 bilhões para R$ 6,2 bilhões

Ponto de inflexão para a companhia foram os desafios da Covid-19, somados a uma fusão que não trouxe os resultados esperados
Por Leda Alvim - Barbara Nascimento

Bloomberg News — As ações da Hapvida (HAPV3) enfrentam uma longa trajetória de queda. Os papéis da operadora de saúde afundaram 95% em relação à máxima de 2021, eliminando mais de R$ 80 bilhões em valor de mercado.

O papel da empresa é o que apresenta o pior desempenho do Ibovespa nos últimos 12 meses. O índice opera em alta de 23% ao ano.

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Os principais acionistas parecem ter atingido o limite. A família por trás da Hapvida tem reforçado o controle, e, enquanto o chefe da empresa — membro do clã fundador — se prepara para trocar o cargo de CEO por um assento no conselho, um grande investidor está pedindo uma nova composição de diretores.

O impulso por mudanças vem na esteira de aumento de custos, crescimento fraco e uma fusão lida como mal sucedida, o que levou a uma série de resultados decepcionantes para investidores e analistas.

A Hapvida tinha mais de 15 recomendações de compra em 2023 — agora tem apenas uma.

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O plano de recuperação depende da venda de ativos comprados há quatro anos para acelerar sua expansão no Sudeste. Embora as ações tenham subido 25% na semana passada após a empresa anunciar a venda de parte desses ativos, uma transação não resolverá todos os seus problemas.

Mesmo que uma transação ocorra, isso não representa uma “solução estrutural para os desafios operacionais subjacentes da empresa”, escreveram na semana passada os analistas Flavio Yoshida e Mirela Oliveira, do Bank of America.

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Ainda assim, a nomeação do CFO — que não é membro da família — para liderar a empresa indica reconhecimento de que algo precisava mudar.

Na semana passada, o CEO que está de saída, Jorge Pinheiro, reconheceu em uma carta que os resultados ficaram “aquém do que somos capazes de entregar”.

A Hapvida não respondeu a um pedido de comentário.

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Hapvida Sheds Nearly $17 Billion in Market Value | The stock has fallen more than 95% from its all-time high

Leia também: Hapvida busca até R$ 2 bilhões com venda de operação no Sul, dizem fontes

O ponto de virada

Antes queridinha entre os maiores gestores de fundos do país, a Hapvida viu seu valor de mercado despencar de R$ 88,2 bilhões no pico para apenas R$ 6,2 bilhões.

O ponto de inflexão foi a Covid-19. Antes da pandemia, a Hapvida se expandia rapidamente a partir de sua base em Fortaleza, no Nordeste. Ganhava participação de mercado ao oferecer planos para pacientes de baixa renda em hospitais próprios, como alternativa privada ao sistema público de saúde.

Os investidores se interessaram pelas perspectivas de crescimento e a ação subiu 23% na estreia na bolsa em 2018.

“Era uma das teses vistas como de mais crescimento da bolsa”, disse Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, em São Paulo. Mas, em 2021, houve “uma deterioração de resultados”.

A inflação no Brasil atingiu dois dígitos e a empresa teve dificuldades para lidar com isso. Um indicador-chave que mede os custos médicos como percentual das receitas de prêmios disparou, pressionando as margens.

“O mercado achava que a empresa teria pricing power para repassar”, disse Murilo Arruda, gestor da Morada Capital. Mas isso não foi fácil, já que a Hapvida compete com o SUS.

No mesmo ano, a empresa acertou a fusão com a NotreDame Intermédica, movimento que criaria uma companhia avaliada em mais de R$ 110 bilhões e estabeleceria forte presença no Sudeste.

O ambicioso plano de expansão acabou pesando nos lucros. A Hapvida teve dificuldades para se adaptar à região e ao público de maior renda, perdendo mais de 200 mil clientes no Sul e Sudeste no ano passado. As ações despencavam após cada resultado fraco.

Com os papéis próximos das mínimas históricas, a família controladora aumentou recentemente sua participação, segundo um documento divulgado na semana passada. Agora, detém 48,5% das ações da Hapvida, ante cerca de 41% em novembro.

A Squadra Investimentos, um dos principais acionistas, criticou Pinheiro e o conselho por uma “sequência de decisões equivocadas”, chamando a queda das ações de “uma das maiores destruições de valor da história do mercado de capitais brasileiro”.

Quanto à fusão com a Intermédica, os efeitos negativos de uma integração “mal executada” desses ativos persistem até hoje e não mostram “perspectiva de reversão”, afirmou a gestora em carta no início deste mês.

One Bull Left | Hapvida only has one buy rating from analysts

Para recolocar a empresa nos trilhos, a Squadra recomendou reduzir o endividamento, reequilibrar a estrutura de capital e focar as operações em regiões onde a empresa tem vantagem competitiva mais clara.

“A Hapvida possui ativos que, nas mãos de operadores com foco e habilidades específicas para cada segmento e região, apresentam oportunidade concreta de recuperação”, escreveu.

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