Venezuela avalia deixar Opep e amplia dúvidas sobre grupo

Possível saída de país que é membro fundador, após decisão dos Emirados Árabes Unidos, amplia dúvidas sobre a coesão do cartel do petróleo e sua capacidade de influenciar os preços

Eventual fragmentação do grupo aumentaria as chances de integrantes da aliança competirem entre si por clientes e participação de mercado (Foto: Pedro Mattey/AFP/Getty Images)
Por Ben Bartenstein - Mie Dahl - Fabiola Zerpa
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Bloomberg — O domínio de décadas da Opep sobre o mercado global de petróleo volta a se enfraquecer enquanto a Venezuela, membro fundador, tornando-se o segundo país em questão de meses a considerar uma saída.

As discussões em Caracas sobre deixar ou não a organização que o país ajudou a criar há mais de seis décadas, em meio a uma aproximação cada vez maior com os EUA, podem ter impacto imediato insignificante sobre a oferta global de petróleo, segundo operadores de petróleo.

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Mas, por ocorrerem pouco após a saída dos Emirados Árabes Unidos e em meio a sinais de insatisfação de outro integrante, o Iraque, as discussões inevitavelmente levantarão dúvidas sobre a capacidade do grupo liderado pela Arábia Saudita de continuar unido e influenciar os preços do petróleo.

Uma eventual fragmentação, caso se concretize, aumentaria as chances de integrantes da aliança competirem entre si por clientes e participação de mercado — uma possível repetição da breve, mas destrutiva, guerra de preços que eclodiu no início da pandemia de 2020.


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Mesmo que uma guerra de preços pudesse ser evitada, uma fragmentação adicional da Organização dos Países Exportadores de Petróleo teria amplas repercussões. O mercado perderia um gestor global da oferta que intervém quando surgem excedentes, deixando os preços mais sujeitos a quedas e a indústria petrolífera mundial mais exposta a choques.

“A própria coesão e a credibilidade da Opep podem estar em jogo”, afirmou Ali Al Riyami, ex-diretor-geral de comercialização de petróleo e gás do Ministério da Energia de Omã, país que integra a aliança mais ampla Opep+. “A questão crucial é saber se isso marca o início de uma onda mais ampla de saídas.”

A Opep e os países parceiros viram o domínio do grupo diminuir nos últimos anos com a ascensão de concorrentes como os produtores de xisto dos EUA, Brasil e Guiana.

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Mais recentemente, a guerra no Irã relegou os sauditas e outros países do Golfo a uma posição de espectadores, obrigando-os a reduzir a produção, e transferiu maior controle à China, como agente que equilibra o mercado de petróleo, e aos EUA, que ampliaram as exportações. A influência da Rússia também diminuiu porque as exportações foram afetadas pela guerra contra a Ucrânia.

“Para a Opep, é mais um sinal de que a influência do grupo sobre o mercado de petróleo está diminuindo, o que pode resultar em maior volatilidade dos preços”, afirmou Hamad Hussain, economista de clima e commodities da Capital Economics, sobre as discussões da Venezuela.

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No curto prazo, a saída do país não teria impacto significativo porque a produção venezuelana despencou nos últimos anos devido a sanções e crises econômicas, deixando a Venezuela isenta dos acordos da Opep para redução da produção e do sistema de cotas. Apesar dos planos para possíveis acordos com os EUA, há pouca perspectiva de qualquer aumento expressivo da produção no futuro próximo.

O golpe para o prestígio da Opep e o simbolismo de uma saída desse tipo, porém, seriam significativos.

Se Caracas seguisse os Emirados Árabes Unidos e deixasse o grupo, as duas saídas retirariam mais de 5 milhões de barris por dia da capacidade de produção da Opep, ou cerca de 17% do volume detido pelos principais integrantes no início do ano. A Venezuela também possui reservas que estão entre as maiores do mundo e que poderiam ser exploradas nas próximas décadas com a ajuda das gigantes petrolíferas americanas.

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A Venezuela também é amplamente vista como o país que desempenhou o papel mais importante entre as cinco nações que criaram a Opep em 1960, devido aos incansáveis esforços diplomáticos do então ministro do Petróleo, Juan Pablo Perez Alfonzo.

“Seria um grande golpe para a Opep”, afirmou Jorge Leon, chefe de análise geopolítica da Rystad Energy e ex-funcionário do secretariado da Opep. “A Venezuela é um membro fundador.”

O secretariado da Opep, sediado em Viena, e o Ministério da Energia da Arábia Saudita não responderam a pedidos de comentário.

A saída dos Emirados Árabes Unidos não é a primeira ocorrida nos últimos anos.

Abu Dhabi anunciou a saída no fim de abril, após anos de frustração com limites de produção que impediam o país de utilizar a capacidade produtiva recém-ampliada. Antes dos Emirados Árabes Unidos, quatro países haviam deixado a organização na década anterior, incluindo Angola, que saiu em meio a desentendimentos em 2024.

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O Iraque, que há muito tempo também resiste às restrições da Opep, começou a dar sinais de insatisfação pouco após a decisão dos Emirados Árabes Unidos. Bagdá advertiu em junho que poderia considerar deixar a organização caso não obtivesse um limite maior em uma auditoria das capacidades produtivas dos integrantes. A avaliação deve ser concluída no fim do próximo mês.

Com o conflito no Irã obrigando Arábia Saudita, Iraque e Kuwait a manter grandes volumes de produção paralisados, há pouco que a Opep possa fazer por enquanto.

Isso pode mudar caso o conflito seja resolvido. Instituições de referência, entre elas a Agência Internacional de Energia, projetam que o mercado global de petróleo entrará em situação de excesso de oferta se os fluxos do Golfo Pérsico forem plenamente retomados, podendo até enfrentar uma potencial saturação em 2027.

“A Opep trava uma batalha que começa a parecer perdida diante de mudanças significativas na geopolítica do petróleo”, afirmou Henning Gloystein, diretor-gerente de energia e recursos da consultoria Eurasia Group.

“A redução do número de integrantes e dos volumes significa naturalmente que o domínio do grupo sobre os mercados globais está diminuindo, sobretudo porque os EUA estão ganhando capacidade de atuação no lado da oferta”, afirmou. “Enquanto isso, a China surgiu como um importante agente de ajuste no lado da demanda.”

Se a Opep+, grupo mais amplo que também inclui a Rússia, sofrer pressão para restabelecer o equilíbrio por meio de cortes na produção, aumentará a responsabilidade da Arábia Saudita, líder de fato do grupo, de arcar com esse ônus. Não está claro se o reino tem disposição para desempenhar esse papel.

“O que vem pela frente provavelmente será um período de volatilidade sem precedentes, no qual o futuro papel e a relevância da Opep podem ser fundamentalmente redefinidos”, afirmou Al Riyami, que atualmente trabalha como consultor independente.

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