Bloomberg — O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pressiona especificamente CEOs e líderes empresariais estrangeiros para que façam com que seus governos se alinhem às exigências da Casa Branca, afirmou a ex-vice-primeira-ministra do Canadá em um novo livro autobiográfico.
“A equipe de Trump é arrogante, grosseiramente agressiva, mesmo a portas fechadas”, escreve Chrystia Freeland, que também atuou como ministra das Finanças, ministra das Relações Exteriores e ministra do Comércio durante os nove anos de governo de Justin Trudeau. “Os secretários de gabinete de Trump não perdem nenhuma oportunidade de alertar os CEOs estrangeiros sobre as graves consequências caso seus líderes não se alinhem.”
O livro intitula-se Unreliable Boyfriend: An Insider’s View of Dealing with a Chaotic Superpower, Plutocrats, and Other Complicated People (“Namorado não confiável: uma visão privilegiada sobre como lidar com uma superpotência caótica, plutocratas e outras pessoas complicadas”, em tradução livre).
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O livro combina relatos dos bastidores de suas negociações com Trump e outras autoridades americanas com uma narrativa de sua dramática ruptura com Justin Trudeau em dezembro de 2024.
O argumento central do livro é que os aliados dos Estados Unidos têm, com demasiada frequência, recompensado a intimidação de Trump com concessões que não produzem resultados.
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Freeland deixa claro que se sentia frustrada com pessoas que reclamavam em particular, mas capitulavam perante Trump publicamente — e alerta que a China está ganhando maior poder como resultado das políticas dos EUA.
“Hoje em dia, com demasiada frequência, os aliados dos Estados Unidos praticam o equivalente, na era Trump, a uma ostentação de virtude politicamente correta — muitos de nós falamos duramente sobre os Estados Unidos, mas agimos com pouca firmeza. Há muito em jogo para esse tipo de comportamento colaboracionista”, escreve Freeland.
Ela elogia o primeiro-ministro Mark Carney, seu amigo de longa data, em cujo gabinete atuou por vários meses antes de se afastar da política. Mas critica a decisão do governo, em junho de 2025, de abandonar um imposto sobre serviços digitais que teria afetado empresas de tecnologia dos EUA, apenas para que Trump, semanas depois, aumentasse as tarifas sobre produtos canadenses de qualquer maneira.
Embora a disputa mais visível entre os EUA e seus aliados seja sobre tarifas, “a batalha mais decisiva talvez seja a insistência de Washington em permitir que as grandes empresas de tecnologia operem livremente em todo o mundo sem serem tributadas ou fiscalizadas de forma significativa”, escreve ela.
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O governo apresenta suas exigências diretamente aos líderes empresariais estrangeiros. Após o famoso discurso de Carney sobre as “potências intermediárias” no Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, organizou um jantar com executivos do mundo dos negócios. Um convidado daquele evento posteriormente transmitiu uma mensagem contundente a Freeland, segundo ela.
“Eles estão furiosos”, disse a pessoa a Freeland. “Eles vão descontar em nós. Acham que precisamos ser colocados no nosso lugar. Eles odeiam o Canadá.”
Uma das anedotas mais surpreendentes do livro de Freeland envolve a decisão do primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, de impor temporariamente uma sobretaxa sobre as exportações de eletricidade para os EUA como retaliação às tarifas no início de 2025.
Segundo Freeland, um líder empresarial canadense lhe contou que o secretário de Comércio, Howard Lutnick, havia ameaçado em particular enviar tropas americanas através da fronteira, a menos que Ford recuasse. (Freeland observa no livro que Lutnick não possui autoridade militar.)
“Foi oferecido ao Canadá o acordo comercial mais generoso entre todos os parceiros comerciais dos Estados Unidos, apesar de o país depender de forma esmagadora do acesso à economia americana, que é mais de 12 vezes maior do que a economia canadense.
O Canadá rejeitou esse acordo para exigir acesso unilateral contínuo ao mercado americano, sem reciprocidade”, afirmou Taylor Rogers, porta-voz da Casa Branca, em comunicado enviado por e-mail. “O presidente Trump comprometeu-se a sempre colocar os trabalhadores, agricultores e empresas americanas em primeiro lugar e cumpriu sua promessa ao garantir condições equitativas para os americanos.”
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“Não diga que eu nunca lhe dou nada”
As memórias de Freeland também revisitam alguns episódios memoráveis do primeiro mandato de Trump.
Freeland relata a cúpula do Grupo dos Sete de 2018, em Quebec, durante a qual os líderes convenceram Trump a assinar um comunicado conjunto, mas ele retirou seu apoio horas depois, após ficar irritado com comentários de Trudeau.
Perto do fim da cúpula, escreve ela, Trump tirou balas do bolso, jogou-as sobre uma mesa na frente da chanceler alemã Angela Merkel e disse: “Aqui, Angela, não diga que eu nunca lhe dou nada.” Freeland descreve o gesto como “surpreendentemente desdenhoso”.
No entanto, o retrato que ela faz de Trump é complexo. Embora o presidente tenha se referido repetidamente a Freeland como uma “mulher desagradável” enquanto ela liderava a delegação canadense nas negociações comerciais, ela afirma que ele também podia ser encantadormente simpático em particular — chamando-a de “a matadora” como um elogio.
Freeland atribui o sucesso final do Canadá na conclusão do Acordo EUA-México-Canadá a uma estratégia à qual muitos líderes empresariais se opunham: retaliar contra as tarifas americanas em vez de aceitá-las.
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Rompimento com Trudeau
Embora o “namorado não confiável” do título do livro se refira aos EUA, Freeland intitula o capítulo sobre o colapso de sua relação política com Trudeau de “É difícil terminar um relacionamento”.
Trudeau recrutou Freeland para a política e acabou por torná-la a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra das Finanças na história do Canadá. Embora ela escreva que a história será benevolente com ele por suas ações no combate às mudanças climáticas e à desigualdade social, ela traça um retrato menos lisonjeiro de seu estilo de governar.
“Chorar era rotina nas reuniões do gabinete. Havia sempre caixas de lenços de papel à mão, e colegas realmente tristes às vezes recebiam um abraço do primeiro-ministro”, afirma ela.
Ela afirma que as reprimendas de Trudeau, às vezes, beiravam o assédio moral. Depois que uma colega descreveu casualmente algo como “loucura”, Trudeau a repreendeu porque o termo era ofensivo para pessoas com problemas de saúde mental. Os ministros eram incentivados a usar a palavra “bananas” em vez disso, escreve ela.
Apesar de sua imagem de líder empático, Freeland descreve Trudeau como um chefe distante que raramente conversava com seus ministros a sós.
A relação entre ambos finalmente se desintegrou em dezembro de 2024 — e Carney estava no centro disso tudo.
Durante meses, circularam rumores de que Trudeau planejava substituir Freeland por Carney no cargo de ministra da Fazenda. Durante uma chamada pelo Zoom, ele a informou que ela perderia a pasta, mas permaneceria como vice-primeira-ministra, em uma função voltada para as relações entre o Canadá e os EUA, enquanto Trump se preparava para retornar ao poder.
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Freeland escreve que aquele foi o “terceiro pior” dia de sua vida, depois da morte de sua mãe e do divórcio de seus pais.
Semanas antes dessa chamada, Freeland recebeu um conselho sobre Trudeau do ex-primeiro-ministro Jean Chrétien. “Enquanto você o apoiar, ele permanecerá como primeiro-ministro. E perderá a próxima eleição”, disse Chrétien a ela. “Se isso acontecer, será em parte culpa sua.”
Essas palavras ficaram na sua cabeça. Em 16 de dezembro de 2024, horas antes de ela apresentar uma importante atualização fiscal no Parlamento, ela renunciou, em vez disso, por meio de uma carta pública contundente.
A atitude abalou o governo de Trudeau. Ele renunciou semanas depois, desencadeando uma disputa pela liderança do partido na qual Freeland ficou em segundo lugar, bem atrás de Carney.
“A dolorosa ironia pessoal é que, embora minha renúncia tenha, em última instância, forçado Trudeau a deixar o cargo, minha estreita ligação com ele prejudicou minhas próprias perspectivas políticas”, afirma ela.
Freeland atua atualmente como consultora de desenvolvimento econômico para a Ucrânia e é colaboradora da Bloomberg News.
“Mark Carney é um excelente primeiro-ministro”, conclui ela. “Tenho orgulho de que minha decisão tenha ajudado ele a assumir o cargo mais alto, mesmo que eu tenha acabado pagando um preço político bastante alto.”
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