De André Esteves a Joesley Batista, empresários buscam aproximação com Flávio Bolsonaro

Banqueiros, investidores e executivos que até recentemente priorizavam o diálogo com o atual presidente passaram a buscar reuniões com integrantes da campanha do senador após o resultado do primeiro turno e a perspectiva de vitória dele nas eleições

Setor privado busca influenciar equipe econômica de Flávio Bolsonaro após eleição (Foto: Tuane Fernandes/Bloomberg)
Por Rachel Gamarski - Martha Beck - Giovanna Bellotti Azevedo
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Bloomberg — Executivos passaram a disputar reuniões com Flávio Bolsonaro e assessores depois do resultado surpreendentemente forte do candidato no primeiro turno da eleição presidencial.

Uma mudança já vinha ocorrendo à medida em que Flávio Bolsonaro melhorava seu desempenho nas pesquisas anteriores ao primeiro turno. Mas se acelerou depois do resultado. Até poucos meses atrás, perspectivas fracas para Flávio levavam executivos a se aproximar mais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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André Esteves, chairman do BTG Pactual, simboliza essa virada. Há um mês, ajudou a organizar um jantar oferecido por Lula no Palácio da Alvorada, selecionando a lista de empresários convidados e enviando os convites. Entre os presentes estava Joesley Batista, controlador da gigante de carnes JBS, que viajou à China com o presidente em 2023.


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Esteves, Batista e outros líderes empresariais já vinham se aproximando gradualmente do grupo de Flávio à medida que o senador avançava nas pesquisas, e esses esforços se intensificaram após o primeiro turno da eleição, segundo pessoas a par do assunto.

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Assessores de Batista buscam estreitar os laços com o círculo de Flávio Bolsonaro, enquanto Esteves tem procurado influenciar as decisões sobre nomes para um eventual governo, inclusive defendendo o economista-chefe do BTG, Mansueto Almeida, para o Ministério da Fazenda. Esteves também tem se aproximado cada vez mais do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, um importante aliado da família Bolsonaro, segundo as pessoas.

Os dois relevantes empresários — o BTG é o maior banco de investimento da América Latina, e a JBS, de Batista, é a maior produtora de carne do mundo — há muito cultivam relações com diferentes grupos do espectro político, e Esteves teve um jantar reservado com Flávio Bolsonaro semanas antes da eleição. Agora, eles fazem parte de um movimento mais amplo de banqueiros, executivos e investidores para estreitar laços com Flávio e seus aliados antes do segundo turno, em 25 de outubro.

Um porta-voz do BTG e de Esteves não quis comentar. Uma pessoa próxima ao BTG e a Esteves afirmou que executivos e acionistas do banco conversam regularmente com autoridades de todo o espectro político e que essa postura não mudou desde o primeiro turno das eleições. Batista não respondeu a um pedido de comentário.

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O reposicionamento também chegou a grupos como o Esfera Brasil, think tank apartidário que reuniu mais de 500 empresários em um jantar com Lula em setembro. Agora, a entidade corre para organizar encontros com interlocutores de Flávio Bolsonaro diante do aumento do interesse, segundo pessoas a par das conversas. A Esfera Brasil não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

A Bloomberg News conversou com mais de uma dúzia de executivos de setores como saúde, infraestrutura, commodities e varejo sobre as tentativas de aproximação com Flávio desde o primeiro turno. Eles pediram anonimato para falar sobre o tema, considerado sensível.

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Em parte, isso ocorre porque, até pouco tempo atrás, Flávio era amplamente descartado nos círculos da elite, assim como o pai, Jair. Aliado do presidente dos EUA, Donald Trump, Jair Bolsonaro deixou a Presidência cercado por escândalos e foi condenado por tentativa de golpe de Estado depois da derrota eleitoral. Grande parte da sociedade brasileira tratava a família como pária, e a possibilidade de um Bolsonaro voltar a vencer uma eleição parecia remota.

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Mas, assim como ocorreu com o retorno de Trump nos EUA, a marca Bolsonaro ressurgiu. Depois de ficar atrás de Lula na maioria das pesquisas durante boa parte da campanha, Flávio terminou o primeiro turno dois pontos percentuais de vantagem.

Para o segundo turno, pesquisa BTG Pactual/Nexus divulgada em 13 de outubro mostrou Flávio com 52% dos votos válidos, ante 48% de Lula. Flávio recebe apoio não apenas de quem busca uma agenda econômica mais liberal, mas também de uma coalizão mais ampla que sustentou o legado do pai — entre eles evangélicos, eleitores ligados ao agronegócio e conservadores nos costumes.

O resultado do primeiro turno levou os mercados brasileiros a registrarem um dos melhores dias dos últimos anos. O real chegou a subir 5%, o Ibovespa teve o maior avanço desde 2020 e os contratos de juros futuros recuaram mais de 100 pontos-base em uma única sessão.

Laços

Ao mesmo tempo que empresas buscam reuniões com Flávio, algumas também recusam convites para eventos com integrantes do governo Lula, ao recalibrar a exposição política antes do segundo turno, disseram as pessoas.

Empresários que não compareceram ao recente jantar do Esfera Brasil com Lula agora manifestam reservadamente alívio por terem menos chance de serem vistos como ligados ao atual presidente, segundo pessoas a par das conversas.

Executivos que tentam influenciar Flávio esperam ajudar a formar uma equipe capaz de executar uma agenda mais favorável ao mercado e evitar o que consideram erros na escolha de integrantes do governo Jair Bolsonaro. Alguns empresários também defendem o adiamento da reforma tributária aprovada no governo Lula, segundo pessoas a par das discussões.

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Empresas fazem sugestões até para áreas específicas. Grupos de educação, por exemplo, propuseram nomes para comandar o Ministério da Educação, segundo uma das pessoas. Outros levantaram a possibilidade de reverter uma regra recente que impediu alguns fundos de investimento de comprar direitos creditórios em fase ordinária (sem garantia de recebimento), disse uma pessoa.

Marcelo Kayath, ex-chefe do Credit Suisse no Brasil e hoje sócio da QMS Capital, e Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e uma das principais assessoras econômicas de Flávio, estão entre os nomes que despertam interesse dos empresários. Executivos e investidores conversam com ambos em busca de pistas sobre os planos econômicos do candidato e a composição de um eventual governo, segundo pessoas a par das discussões.

O esforço intenso para obter acesso tem paralelos com a relação das empresas americanas com Trump. Executivos de Wall Street e de outros setores buscam repetidamente acesso direto ao presidente dos EUA e seus principais assessores, o que transformou a Casa Branca em um espaço cada vez mais importante para o lobby empresarial.

Alguns executivos brasileiros veem a possibilidade de uma relação igualmente próxima entre o setor privado e o Palácio do Planalto em um eventual governo Flávio Bolsonaro .

Ainda assim, parte do entusiasmo é moderada pelas lembranças do governo Jair Bolsonaro.

Empresários citam como risco a saída de autoridades com perfil favorável ao mercado e mencionam o caso de Salim Mattar, empresário que deixou o cargo de secretário especial de Desestatização em 2020, frustrado com o ritmo lento das vendas de ativos.

A preocupação dos executivos não se limita a quem Flávio escolheria para o governo, mas também a saber se essas autoridades manteriam apoio político suficiente para executar a agenda econômica depois da posse, disseram as pessoas.

Para empresas que ainda enfrentam dívida cara e demanda doméstica fraca, a questão é mais imediata: saber se um novo governo conseguirá transformar o otimismo do mercado depois da eleição em custos de financiamento menores e melhores condições de investimento.

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