Bloomberg Línea — As relações entre Brasil e Estados Unidos atravessam um de seus momentos mais tensos em décadas. Tarifas impostas por Donald Trump a exportações brasileiras, a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas e sinais de interesse direto de Washington na eleição presidencial de outubro compõem um quadro de pressão que o governo brasileiro tem tratado como ameaça à soberania nacional.
Para o brasilianista Anthony Pereira, professor da Universidade Tulane, nos EUA, e estudioso da política brasileira há mais de três décadas, essas medidas têm pouco a ver com comércio ou segurança.
As tarifas, disse ele em entrevista à Bloomberg Línea, são parte de uma tentativa de restaurar parcialmente as sanções de julho de 2025, impostas como resposta ao processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal, e contradizem a própria lógica anunciada por Donald Trump, já que os EUA têm superávit comercial com o Brasil.
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O paradoxo, na avaliação do professor, é que a estratégia americana tem produzido o efeito contrário ao pretendido. Assim como ocorreu no Canadá e na Austrália, onde os ataques de Trump impulsionaram vitórias de candidatos de centro-esquerda em 2025, as intervenções no Brasil tendem a fortalecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ganhou a partir desse atrito o papel de defensor da soberania nacional.
Pereira vê a pressão sobre o Brasil como parte de um movimento maior. Com o declínio da influência americana na Europa, no Oriente Médio e na Ásia, Washington busca compensar a perda reafirmando seu domínio sobre o próprio hemisfério, inclusive com demonstrações de força militar.
O quadro, segundo o professor, justifica a preocupação do Itamaraty com a possibilidade de ação americana em território brasileiro.
Ainda assim, ele não acredita que essa postura sobreviva ao atual governo. Por ser abertamente autointeressada, disse, ela gera reação e empurra os países da região para outros parceiros, como a China, que já é economicamente mais relevante que os EUA na América do Sul.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Bloomberg Línea - Candidatos de direita venceram a maioria das eleições recentes na América Latina. Quanto o governo Trump conseguiu influenciar essas decisões?
Anthony Pereira - Acho que tem alguma influência. Na eleição presidencial de Honduras, em dezembro de 2025, por exemplo, Trump disse que cortaria a ajuda americana ao país se o candidato centrista vencesse. No fim, o candidato preferido de Trump, Nasry Asfura, do Partido Nacional, de direita, venceu. Da mesma forma, o partido do presidente Javier Milei venceu as eleições de meio de mandato de outubro de 2025 na Argentina depois que a economia argentina foi socorrida com a promessa de um swap cambial de US$ 20 bilhões dos EUA que estabilizou o peso.
Não é como se o governo Trump estivesse puxando todos os fios dessas eleições e esses políticos fossem todos marionetes. Forças políticas domésticas estão em jogo, e o sentimento anti-incumbente é uma força poderosa na política latino-americana.
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Mas o governo Trump exerce uma poderosa força gravitacional no hemisfério, e candidatos de direita são tentados a se associar à potência dominante da região. Keiko Fujimori, antes de vencer a eleição presidencial no Peru, foi aos Estados Unidos, participou de um evento em Mar-a-Lago e se reuniu com dirigentes do Partido Republicano.
Na Europa, em contraste, a estratégia MAGA está fracassando, ao menos no curto prazo. Trump é muito menos popular na Europa do que na América Latina.
O Brasil terá mais uma eleição presidencial altamente polarizada em outubro. Quão de perto os EUA acompanham essa disputa?
Na minha experiência, o governo federal dos EUA não possui um alto grau de conhecimento especializado sobre o Brasil. Muitas das pessoas mais conhecedoras, como o ex-embaixador Thomas Shannon, deixaram o Departamento de Estado. O novo indicado a embaixador no Brasil, Daniel Perez, foi escolhido por sua lealdade a Donald Trump, e não por seu conhecimento do Brasil ou de relações internacionais. O secretário de Estado Marco Rubio vê o Brasil através de uma lente de Guerra Fria de Miami, que distorce o centrista governo Lula em algo “comunista”.
Quando Trump falou sobre o Brasil na reunião do G7 de junho, disse que o país havia se tornado “politicamente perigoso” e misturou a condenação de Eduardo Bolsonaro no Supremo com a possível candidatura presidencial de seu irmão Flávio. Nenhum deles havia sido preso.
Apesar dessa falta de conhecimento, o governo Trump adoraria ver Lula perder a eleição de outubro para um candidato com mais afinidades com a visão MAGA do hemisfério.
O problema, do ponto de vista deles, é que suas intervenções tendem a fortalecer Lula eleitoralmente, em vez de enfraquecê-lo. Esse efeito reverso também pôde ser visto no Canadá, onde Trump sozinho reviveu o Partido Liberal e deu um enorme impulso involuntário à eleição de Mark Carney, e na Austrália, onde ajudou involuntariamente a eleição de Anthony Albanese. Acho que a eleição presidencial brasileira pode ter uma dinâmica semelhante.
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A família Bolsonaro tem tentado envolver os EUA na disputa. Isso pode funcionar a favor deles ou vai fortalecer Lula?
Como mencionei, acho que o efeito líquido da estratégia da família Bolsonaro até agora foi fortalecer Lula. Uma imagem que permanece na minha mente é a enorme bandeira dos EUA desfraldada por apoiadores de Bolsonaro na Avenida Paulista em 7 de setembro de 2025. Que presente para Lula, dando a ele o manto de protetor da soberania nacional brasileira.
Há risco de Trump tentar interferir na eleição brasileira?
Sim. A visita planejada de Darren Beattie, funcionário do Departamento de Estado, em março de 2026, mostra que há interesse do governo Trump na eleição brasileira. Seu visto foi negado, mas ele planejava visitar o TSE para falar sobre o sistema de votação eletrônica, o STF e Jair Bolsonaro.
Trump nega a validade da eleição de 2020 nos EUA, que ele perdeu, e pode tentar negar a validade da eleição brasileira caso Lula a vença. Quanto mais apertado o resultado, mais impacto essa negação da legitimidade da eleição pode ter.
O governo Bolsonaro conseguiu danificar a confiança no sistema eleitoral antes de terminar. O relatório dos militares brasileiros sobre o sistema de votação em 2022 disse que não havia evidência de fraude, mas que o sistema era vulnerável a ataques. O relatório não parece ter sido muito bem feito, mas plantou dúvidas na mente de alguns eleitores que podem ser exploradas.
Quão relevantes são as decisões sobre as tarifas e a classificação de organizações criminosas como terroristas nesse processo?
Acho que as tarifas são uma tentativa de restaurar parcialmente as tarifas de julho de 2025, que foram impostas ostensivamente porque Jair Bolsonaro estava sendo processado pelo STF. Esta é a completa politização da política tarifária. No anúncio de abril de 2025, as tarifas deveriam ser uma resposta aos déficits comerciais dos EUA com seus parceiros. Os EUA têm superávit comercial com o Brasil. No fundo, isso é mais sobre política do que sobre comércio.
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A categorização do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pode ter motivação política semelhante. Coloca uma arma figurativa na cabeça do Brasil, com a força militar unilateral dos EUA contra essas organizações como uma possibilidade. É também uma reprovação implícita ao Brasil por suas políticas contra o crime organizado e pode potencialmente romper a cooperação entre os dois governos nessa área.
O ministro Mauro Vieira chegou a dizer que a decisão sobre terrorismo pode justificar uma intervenção militar no país. Isso faz algum sentido?
Sim. Os EUA pretendem usar poder militar em seu hemisfério quando e onde quiserem. Explodiram embarcações pesqueiras no Caribe e no Pacífico sob a alegação de que as tripulações estavam envolvidas em tráfico de drogas, sem apresentar evidências. Forças militares americanas operaram neste ano no Equador, tropas americanas voltaram a treinar no Panamá e o Paraguai assinou um acordo permitindo o envio temporário de pessoal militar americano no país.
A Estratégia de Segurança Nacional de novembro de 2025 afirma que os EUA vão restaurar sua preeminência no Hemisfério Ocidental, inclusive, quando necessário, com o uso de força letal contra cartéis.
Isso não é boa política contra o crime organizado, que depende de coleta cuidadosa de inteligência e colaboração policial transnacional. São demonstrações espetaculares de força unilateral destinadas a intimidar os Estados da região. Nesse ambiente, o ministro Mauro Vieira e seus colegas têm razão para estar atentos à possibilidade de ação militar dos EUA em solo brasileiro.
A volta da Doutrina Monroe vai se tornar a norma no longo prazo, mesmo depois de Trump deixar o cargo?
Não acho que a política externa de Trump para a América Latina será mantida por futuros governos americanos. Ela é abertamente autointeressada, uma atitude do tipo “o que é meu é meu, e o que é seu está em disputa”. Isso gera reação. Os Estados latino-americanos buscam outros parceiros porque veem os EUA como um aliado não confiável, agressivo, instável, autointeressado e imprevisível. No longo prazo, é custoso para os interesses americanos globalmente.
A propósito, quando foi promulgada, a Doutrina Monroe não foi concebida como carta branca para intervenção dos EUA na América Latina. Os EUA não eram fortes o suficiente para projetar poder militar na região em 1823. Tratava-se de manter os europeus de fora. Era um escudo, não uma espada.









