Bloomberg — Os EUA estão prestes a assumir o controle majoritário sobre uma enorme parcela da riqueza petrolífera da Venezuela, em uma manobra sem precedentes que, segundo autoridades, criaria a segunda maior empresa petrolífera privada do mundo em termos de reservas e garantiria o abastecimento de petróleo dos EUA nas próximas décadas.
O presidente Donald Trump anunciou o acordo em uma postagem no Truth Social na noite de sexta-feira, 28. Trata-se de sua mais recente iniciativa para estabelecer o domínio dos EUA sobre o Hemisfério Ocidental, contrariando anos de avanços da China, como parte de sua adesão à Doutrina Monroe do século XIX.

Em colaboração com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, uma parceria com o setor privado garantiu aos EUA o controle majoritário de mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas na Venezuela, afirmou Trump.
Uma autoridade norte-americana afirmou que os EUA controlarão 55% da produção efetiva da joint-venture e obterão o petróleo a preço de custo.
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O plano representa uma intervenção sem precedentes na economia de um país sul-americano, que Trump já chamou de 51º estado dos EUA. A ação remete ao controle britânico dos campos de petróleo do Irã e à divisão dos ativos iraquianos entre os EUA e as nações europeias há um século.
Isso marca o ponto culminante de uma campanha na qual os EUA capturaram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em janeiro. O país também apreendeu petroleiros venezuelanos e atacou inúmeras embarcações que supostamente transportavam drogas da Venezuela, matando mais de 200 pessoas.
Trata-se também de uma manobra inédita — que poderia estar sujeita a contestações jurídicas e mudanças políticas em Washington. Não está claro se o acordo de Trump seria plenamente aceito por um futuro presidente americano, nem como ele poderia resistir a qualquer turbulência política futura na Venezuela.
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“A suposta iniciativa do governo Trump de garantir uma participação nas reservas de petróleo da Venezuela provavelmente será contraproducente para o investimento de longo prazo no setor, principalmente devido ao risco político que ela acarreta”, escreveu Chris Kennedy, especialista em política econômica da Bloomberg Economics, em uma nota.
“É improvável que muitas empresas estejam dispostas a fazer grandes investimentos em novos projetos, dado o risco de que um governo americano pós-Trump abandone essa iniciativa, ou de que um novo governo venezuelano, democraticamente eleito, não honre tal acordo”, afirmou ele.
O anúncio gerou reações imediatas nas redes sociais, com alguns venezuelanos acusando Rodríguez de “ceder” o petróleo do país e outros questionando a ausência de qualquer menção a uma transição democrática ou a um cronograma para eleições como parte do acordo. As críticas podem agravar os riscos políticos para Rodríguez, cuja popularidade já vem caindo nas pesquisas recentes.
A Chevron, única empresa norte-americana que atualmente produz petróleo na Venezuela, se recusou a comentar. A ExxonMobil Holdings também se recusou a comentar.
“Acima de tudo, é necessário um roteiro confiável para uma estabilidade política duradoura a fim de convencer as grandes petrolíferas a investir dezenas de bilhões, especialmente para construir as caras unidades de refino necessárias para processar o petróleo ultrapesado venezuelano”, afirmou Clay Seigle, pesquisador sênior não residente do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.
O empreendimento teria concessões de 100 anos para campos de petróleo totalizando cerca de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas, segundo a autoridade. A nova entidade será a segunda maior detentora corporativa de reservas comprovadas, atrás apenas da Saudi Aramco, acrescentou a autoridade.
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A Bloomberg News informou na manhã desta sexta-feira que os EUA estavam buscando uma participação significativa nas reservas de petróleo venezuelanas por meio de uma possível parceria entre o Departamento de Defesa e Alejandro Betancourt, um controverso investidor do setor de energia que se tornou um importante intermediário entre os dois países.
A criação da nova joint-venture ajudará a fornecer petróleo a preço de custo, contribuirá para reabastecer a reserva estratégica de petróleo dos EUA e ajudará a atender às necessidades das Forças Armadas americanas, afirmou a autoridade norte-americana.
Rodríguez confirmou o acordo em uma declaração no Telegram. Ela classificou o acordo como “histórico”, ao mesmo tempo em que afirmou que os projetos petrolíferos gerariam US$ 209 bilhões em impostos. Ela disse que o acordo abrange 17 campos estratégicos que contêm 65 bilhões de barris de reservas comprovadas, mas não mencionou as participações que cada país deteria.
“Isso é algo totalmente sem precedentes”, afirmou Alejandro Velasco, professor associado da Universidade de Nova York. A Venezuela “corre o risco de se tornar um playground do capitalismo norte-americano”, disse Velasco.
O anúncio ocorre em meio a uma corrida mundial para garantir o abastecimento de petróleo, prejudicado pela guerra no Irã, e no momento em que Trump enfrenta as preocupações dos eleitores com os preços da gasolina e a inflação antes das eleições de meio de mandato em novembro.
Embora a produção de petróleo bruto da Venezuela tenha aumentado este ano, o país extraiu apenas 1,16 milhão de barris por dia em julho, de acordo com uma pesquisa da Bloomberg. Isso representa menos da metade do volume produzido há uma década, reflexo de um êxodo anterior de muitas empresas ocidentais do setor de energia e de anos de subinvestimento e corrupção que deixaram o setor petrolífero do país em frangalhos.
A manobra de Trump está em consonância com a chamada “Doutrina Donroe”, que visa estender a influência americana por todo o Hemisfério Ocidental. Desde que as forças americanas derrubaram Maduro e Rodríguez assumiu o poder, Trump tem buscado exercer influência sobre o país e seus vastos recursos minerais e petrolíferos.
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Ele tem se gabado com frequência de que grande parte do petróleo bruto do país — e das receitas do petróleo — está fluindo para os EUA.
O plano também se alinha às medidas do segundo mandato de Trump para intervir diretamente — e adquirir participações do governo federal — em empreendimentos comerciais que visam fortalecer as cadeias de abastecimento dos EUA para semicondutores, minerais essenciais e baterias.
--Com a colaboração de Joe Carroll, Valentine Hilaire, Kevin Crowley, Joe Ryan e Patricia Laya.
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