Bloomberg — Em um parque industrial nos arredores de Pequim, o braço de um robô humanoide pega um pacote de batatas Lay’s e o posiciona cuidadosamente ao lado de outros salgadinhos em uma prateleira. Perto dali, um funcionário grava vídeos de si mesmo tirando almofadas de um sofá e dobrando lençóis sobre uma cama. As imagens servirão para desenvolver os “cérebros” desses robôs.
A China está colocando mais robôs humanoides em operação do que nunca e os envia para centros logísticos, fábricas de baterias e outras instalações industriais em um ritmo superior ao dos Estados Unidos.
Impulsionadas pelo apoio do governo e por uma enxurrada de investimentos, startups levam suas máquinas mais avançadas para ambientes reais na tentativa de reunir enormes volumes de dados que acelerem o desenvolvimento de robôs mais inteligentes e com comportamento cada vez mais semelhante ao humano.
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O presidente Xi Jinping aposta na indústria de robótica para ajudar a China a superar os Estados Unidos na corrida global por liderança tecnológica. A força da manufatura chinesa e a robustez de sua cadeia de suprimentos colocam o país em posição privilegiada para capturar os benefícios dos humanoides antes de seu principal rival geopolítico.
Xi deve discursar pela primeira vez nesta semana na principal conferência de inteligência artificial da China, onde os mais recentes modelos de robôs humanoides estarão em exposição.
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Depois que a Unitree Robotics chamou a atenção com os movimentos de kung fu executados pelo modelo G1, a indústria chinesa de humanoides vive agora uma mudança profunda: o foco passou do corpo para o cérebro.
Investidores despejam recursos em empresas dedicadas ao desenvolvimento de inteligência artificial para robôs — área conhecida como inteligência incorporada (embodied intelligence) —, enquanto gigantes da tecnologia chinesa, do grupo Alibaba à Xiaomi, entram na disputa com seus próprios modelos.

Nos Estados Unidos, uma série de empresas segue o mesmo caminho, desde gigantes como a Alphabet (GOOG), controladora do Google, até startups como a Physical Intelligence, apoiada pela OpenAI.
A Nvidia (NVDA) mantém seu próprio modelo de IA de código aberto para robôs, chamado GR00T, ao mesmo tempo em que investe em diversas startups promissoras, entre elas a Figure AI.
A companhia mais valiosa do mundo firmou recentemente uma parceria com a Unitree, em um raro movimento de aproximação entre empresas dos Estados Unidos e da China em uma área considerada sensível do ponto de vista tecnológico.
Uma diferença começa a se consolidar entre empresas chinesas e americanas que desenvolvem inteligência incorporada. Na China, os modelos são treinados cada vez mais com dados gerados pelos próprios robôs humanoides nos ambientes em que eles serão utilizados.
Nos Estados Unidos, por outro lado, as empresas compram dados e recorrem tanto a simulações em laboratório quanto ao trabalho de pessoas na Índia, no Vietnã e em outros mercados de baixo custo para treinar seus sistemas. Em jogo está o futuro do mercado de robôs humanoides, que poderá movimentar US$ 5 trilhões por ano até 2050, segundo estimativas do Morgan Stanley.
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“Todo o mundo ainda está na linha de partida quando se trata de inteligência física”, afirma Su Hao, cientista da computação formado nos Estados Unidos que retornou à China para fundar um instituto na Universidade Fudan, em Xangai. “A China, graças à vantagem de sua cadeia de suprimentos, tem a oportunidade de definir a direção e estabelecer o paradigma.”
Há anos a China lidera o mercado mundial de robótica. Em 2024, o país instalou cerca de 300 mil robôs, segundo as estimativas mais recentes da Federação Internacional de Robótica. O número supera com folga as cerca de 38 mil máquinas instaladas nos Estados Unidos no mesmo período.
Agora, diante do rápido envelhecimento da população, Pequim deposita suas expectativas de crescimento econômico em um avanço da inteligência incorporada que permita aos robôs humanoides substituir trabalhadores e aliviar a escassez de mão de obra que se aproxima.
Analistas do Barclays estimam que o governo espera que essas máquinas cubram até 60% do déficit projetado de trabalhadores. O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação quer colocar 10 mil robôs humanoides em operação nas fábricas até o fim deste ano.
Investidores que vão de fundos de venture capital a montadoras de automóveis e fundos estatais atenderam ao chamado de Pequim e já destinaram pelo menos 100 bilhões de yuans (US$ 14,8 bilhões) ao setor apenas neste ano, segundo dados compilados pela ITjuzi, empresa de monitoramento sediada em Pequim. O montante supera, sozinho, os investimentos somados dos cinco anos anteriores.
A HSG, antiga Sequoia China, investiu 3 bilhões de yuans em 13 startups durante o primeiro semestre, mostram os dados, com empresas estatais exercendo papel relevante na direcionamento dos recursos para o setor.
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Startups chinesas
As startups chinesas de robótica mais valiosas destinam a maior parte desse capital ao treinamento dos “cérebros” dos robôs.
A Robotera, sediada em Pequim, já colocou seus humanoides em operação em uma dúzia de centros logísticos.

A Galbot fechou um acordo com a Contemporary Amperex Technology (CATL) para enviar suas máquinas à fábrica da empresa, onde realizam tarefas de movimentação de cargas pesadas.
Já a AI² Robotics instalou seus robôs em fábricas de automóveis, semicondutores e eletrônicos de consumo.
Depois de assumir a liderança na parte de hardware, a Unitree agora busca avançar também em inteligência incorporada e promete destinar quase metade dos recursos que levantará em sua oferta pública de US$ 610 milhões ao desenvolvimento de modelos de inteligência artificial.
As startups que desenvolvem esses modelos, porém, enfrentam um desafio fundamental: gerar volumes gigantescos de dados para treinamento. Ao contrário dos grandes modelos de linguagem, há escassez de dados relevantes para ensinar robôs a executar tarefas complexas, como segurar um ovo sem quebrá-lo ou impedir que um copo d’água caia da mesa.
As empresas estimam que serão necessárias dezenas de milhões de horas de dados para treinar seus modelos, e analistas afirmam que a viabilidade comercial do setor depende desse avanço. A adoção em larga escala dos robôs humanoides exige modelos de inteligência incorporada mais capazes, o que, por sua vez, depende do volume de dados disponível para treinamento, escreveu o analista Corey Chan, do HSBC, em relatório recente.
“As empresas líderes contam hoje com cerca de 500 mil horas de dados”, disse Jacqueline Du, analista do Goldman Sachs em Hong Kong. Segundo ela, as empresas chinesas ampliam a presença de seus robôs em diferentes ambientes na expectativa de acelerar a coleta de dados e atingir uma massa crítica nos próximos anos.

Para acelerar esse processo, governos locais da China abriram 64 centros de coleta de dados em todo o país, como o instalado nos arredores de Pequim e operado pela X-Humanoid. Outros 20 estão em construção, segundo dados da consultoria Interact Analysis. Nessas instalações, as empresas treinam robôs em ambientes que reproduzem supermercados, linhas de montagem, escritórios, lojas e residências.
“Nesse aspecto, os Estados Unidos não têm nenhuma vantagem”, afirmou Gan Ruyi, chefe de algoritmos da X Square Robot, sediada em Shenzhen. A empresa recebeu 6,3 bilhões de yuans em investimentos apenas neste ano, o maior volume entre todas as companhias de robótica, segundo a ITjuzi.
“É aí que a China se destaca: na capacidade de organizar a mão de obra e operar, em larga escala, as máquinas usadas na coleta de dados.” Para o Morgan Stanley, essa escala é “o único fator decisivo” para que as empresas desenvolvedoras de modelos saiam vencedoras.
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EUA x China
A disputa entre startups americanas e empresas chinesas começa a ganhar intensidade.
Empresas dos Estados Unidos já colocaram alguns robôs humanoides em operação em fábricas. A Tesla, por exemplo, enviou parte de seus modelos Optimus para suas próprias unidades de produção.
Startups como Figure AI, Apptronik e Agility Robotics também instalaram um número limitado de máquinas em parceiros industriais.
Ainda assim, a iniciativa fica muito atrás da escala alcançada por empresas chinesas como a Agibot, de Xangai, que acelera a implantação de milhares de robôs em fábricas.
Em maio, a Figure AI, sediada em Sunnyvale, na Califórnia, celebrou um marco ao transmitir ao vivo uma operação de 50 horas na qual seus robôs humanoides separaram pacotes em um centro logístico sem cometer erros. Segundo o diretor-presidente Brett Adcock, as máquinas processaram quase 60 mil pacotes em uma esteira na mesma velocidade de um trabalhador humano.
Desenvolvedores chineses, porém, minimizaram a demonstração e a classificaram como “idealizada demais”, por reproduzir condições distantes das encontradas no mundo real.
“A demonstração da Figure ainda acontece em um laboratório. A nossa operação está em uma linha de produção real, para enfrentar a escassez de mão de obra e liberar os trabalhadores para outras atividades”, afirmou Ai Wen, diretor de projetos da Agibot. Segundo ele, a empresa pretende ter mais de mil robôs humanoides em fábricas ainda neste ano e superar a marca de 10 mil unidades em 2027.
Gan, da X Square, afirma que a demonstração pode até prejudicar o desenvolvimento da inteligência incorporada da Figure AI para aplicações no mundo real, já que o modelo acabaria aprendendo detalhes irrelevantes, como determinados padrões de ruído.
“Não há como treinar um robô usando sempre o mesmo conjunto de pacotes em um centro logístico real”, disse. “Os pacotes que chegam são sempre diferentes.”
Neste ano, a X Square lançou um programa para colocar seus robôs para realizar tarefas domésticas em residências. Enquanto outras empresas concentram seus esforços na adoção de humanoides em fábricas, a companhia afirma que os dados coletados dentro das casas são mais valiosos para treinar modelos em ambientes complexos.
“As residências são o teste definitivo para esses modelos”, disse Gan. “Em uma casa de verdade, não existe roteiro nem procedimento operacional padrão.”
--Com a colaboração de Saritha Rai.
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