Bloomberg — Os alunos que retornarem às escolas russas na próxima semana perceberão uma mudança em suas aulas de educação cívica, que passa a ter o treinamento militar como um eixo central da disciplina.
As aulas obrigatórias para adolescentes incluem o aprendizado sobre os principais tipos de armamentos, incluindo metralhadoras, armas antitanque e granadas de mão, bem como primeiros socorros em campo e disciplina militar geral.
Algumas dessas habilidades já eram ensinadas em módulos limitados do ensino médio. A nova versão intensifica esse treinamento para crianças a partir dos 13 anos.
O currículo reformulado, determinado pelo Ministério da Educação, exige que metade das aulas semanais da disciplina “Fundamentos de Segurança e Defesa da Pátria” se concentre no treinamento militar básico.
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Isso faz parte de uma militarização gradual das escolas russas, com o objetivo de moldar a próxima geração de recrutas do exército, enquanto o Kremlin dá continuidade à guerra na Ucrânia, atualmente em seu quinto ano.
“A romantização da guerra e da violência, combinada com um medo constante de inimigos externos, incute nos jovens a ideia de que a vida humana não tem valor e que morrer pelo regime e pelo presidente é normal”, afirmou Pavel Talankin, um professor russo exilado que co-dirigiu o documentário vencedor do Oscar “Mr. Nobody Against Putin”, que abordava a crescente propaganda de guerra em sua escola.
“Se necessário, deve-se morrer pela pátria, empunhando a bandeira e marchando para a linha de fogo sem fazer perguntas”, diz.
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Além do treinamento com armas e táticas de combate, o treinamento militar básico abrange lições sobre a doutrina de segurança nacional da Rússia e a estrutura das forças armadas.
Os veteranos de guerra
Os alunos também estudarão sobre minas e riscos de explosões, primeiros socorros para ferimentos de combate, exposição a substâncias químicas e radiação e estresse agudo, bem como treinamento de sobrevivência e procedimentos para atuar em zonas de conflito.
Essa reformulação educacional contribui efetivamente para criar um fluxo de potenciais recrutas da sala de aula para o exército. Ela é apoiada pelo envio de veteranos de combate da guerra na Ucrânia a escolas e creches para falar com as crianças em apoio à decisão do presidente Vladimir Putin de lançar a invasão em grande escala de 2022.
A Rússia busca cerca de 400 mil novos recrutas a cada ano para a guerra que já causou mais de 1,5 milhão de mortos e feridos no exército, segundo estimativas ocidentais.
O presidente da Duma Estatal, Vyacheslav Volodin, quer que veteranos da guerra na Ucrânia sejam colocados em “todas as escolas” para ensinar às crianças matérias relacionadas à sua experiência militar.
Escola soviética
“Essas qualidades devem ser aproveitadas na educação das crianças”, afirmou ele a estudantes universitários em Krasnodar, em setembro de 2025, referindo-se à sua própria infância soviética, quando veteranos da Segunda Guerra Mundial estavam presentes nas escolas.
Na União Soviética, o treinamento militar básico era obrigatório nas escolas, incluindo exercícios com máscaras de gás, prática de marcha e montagem de rifles. As autoridades comunistas apresentavam a prontidão militar como um meio de dissuasão contra agressões estrangeiras, para que a catástrofe da invasão da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial — cuja derrota custou cerca de 27 milhões de vidas soviéticas — nunca mais se repetisse.
“Naquela época, as pessoas temiam a guerra, e havia propaganda pela paz em todos os lugares, para que a guerra não voltasse a acontecer”, afirmou Irina Lukyanova, professora e pesquisadora que estuda as tendências do sistema educacional russo. “Mas agora a ideologia é o militarismo.”
O anseio de Volodin já está prestes a se concretizar. Uma pesquisa com mais de 2.600 dirigentes escolares e professores russos, realizada pela organização estatal Sociedade do Conhecimento (Znanie), revelou que 95% das escolas realizam eventos dedicados à guerra na Ucrânia, mais de 80% convidam combatentes para falar aos alunos e quase 75% ministram aulas especiais sobre a guerra.
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O fluxo das salas de aula alimenta diretamente o sistema de alistamento obrigatório da Rússia, que exige que todos os homens de 18 anos cumpram um ano de serviço militar, embora, na realidade, muitos evitem ou adiem o alistamento.
O exército não pode enviar recrutas para a Ucrânia, mas oficiais de alistamento e instrutores militares pressionam os jovens recrutados a assinar contratos profissionais lucrativos logo no início de seu treinamento, tornando-os elegíveis para serem enviados a combater na guerra.
Fora da sala de aula, a Rússia reviveu e modernizou os jogos militares juvenis da era soviética chamados “Zarnitsa” (Relâmpago de Verão). Organizados pelo grupo juvenil “Movimento dos Primeiros”, as crianças são organizadas em esquadrões de 10 pessoas com diferentes especialidades militares, incluindo comandantes, soldados de assalto, operadores de drones, sapadores e médicos, realizando treinamento de simulação de combate com equipamentos de laser tag, simuladores de voo em realidade virtual, manobras em trincheiras e réplicas de fuzis de assalto.
A participação no programa cresceu de 800 mil crianças com idades entre 7 e 17 anos em 2024 para uma estimativa de 2,5 milhões neste ano. A organização juvenil responsável pelos jogos recebe um financiamento anual de cerca de 20 bilhões de rublos (US$ 233 milhões) do orçamento federal.
Aos meninos do ensino médio também é oferecido um treinamento de campo de uma semana em estilo de quartel nos centros militares estatais “Avangard” — uma rede nacional que abrange mais de 70 instalações, apoiada por dezenas de bilhões de rublos em financiamento estatal.
As autoridades da região de Primorye, no Extremo Oriente da Rússia, inauguraram acampamentos militares de verão especializados para jovens de 14 a 17 anos, com nomes como “Stormtrooper” e “Infantryman”.
O orçamento federal da Rússia destinou este ano a quantia recorde de 70 bilhões de rublos para a “educação patriótica” por meio do projeto nacional “Juventude e Crianças”. A cifra representa um aumento de vinte vezes em relação a 2021.
Enquanto isso, o número de matrículas em escolas formais de cadetes militares e em cursos especializados de recrutamento atingiu 780 mil alunos em 2025, contra 200 mil em 2018.
Todas as escolas russas iniciam o novo ano letivo em 1º de setembro, data conhecida como o Dia do Conhecimento. Putin tem marcado a ocasião nos últimos anos ministrando uma aula com crianças intitulada “Conversas sobre Coisas Importantes”.
A aula semanal obrigatória, com duração de uma hora, foi introduzida em setembro de 2022 para promover as visões do Kremlin sobre patriotismo e história russa, incluindo a invasão em grande escala da Ucrânia. Uma versão adaptada, baseada em brincadeiras, está sendo introduzida este ano nos jardins de infância para crianças em idade pré-escolar.
Nas áreas ocupadas pela Rússia no leste e sul da Ucrânia, há uma revisão generalizada da educação nas escolas que equivale a um apagamento cultural. Novos livros didáticos de história aprovados pelo Estado, introduzidos este ano, ensinarão às crianças nas áreas controladas por Moscou das regiões de Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson que suas terras sempre foram russas.
“Todo o sistema foi reorganizado para normalizar a guerra”, afirmou Alexandra Arkhipova, antropóloga russa e pesquisadora da École Normale Supérieure, em Paris. “O Estado está preparando os jovens para aceitar o campo de batalha como o seu principal destino cívico.”
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