Hotéis de luxo adaptam experiências para acomodar casais sem filhos e com pets

À medida que os millennials adiam ou decidem não ter filhos, os hotéis de luxo criam estadias voltadas para a nova família moderna, adaptada a animais de estimação; em 2025, 53% dos americanos possuíam pets

Viajar com seu cão: pesquisa da Hotels.com revelou que 70% de casais que não têm filhos contam com mais recursos financeiros para lazer, com 44% desse dinheiro sendo destinado a viagens. (Foto: Bloomberg)
Por Michelle Mastro

Bloomberg — Morgan Owens, uma empreendedora nas áreas de bem-estar, mídia e estilo de vida, recentemente se hospedou com seu bichon frisé de 7 anos, Ralph, no Lytle Hotel, em Cincinnati, para uma estadia local. Lá, eles assistiram à Netflix e jantaram com o serviço de quarto – Ralph saboreou seu próprio bife com arroz.

Owens recebeu uma massagem no Mitchell’s Salon & Day Spa, do outro lado da rua, e Ralph literalmente brincou na grama em todas as áreas verdes.

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“Tenho focado tanto no trabalho — nossa geração passou pela covid, os recursos para políticas de diversidade foram recentemente retirados da minha empresa, e a lista continua — que a última coisa em que penso é em ter um filho”, diz Owens.

A mulher de 40 anos pode estar em um relacionamento sério e morando junto com seu parceiro, mas quando se trata de escolher entre o conforto e planejar ter filhos, “vou optar pelo hotel de luxo”. Desde que Ralph possa vir junto.


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Casais conhecidos como “Dinkwads” — acrônimo em inglês para “renda dupla, sem filhos, com um cachorro” — estão se tornando uma força potente no setor de viagens.

Uma pesquisa da Hotels.com revelou que 70% dos casais desse grupo afirmam não ter filhos porque gostam de dispor de mais renda disponível para as coisas de que gostam.

Para quase metade (44%), esse dinheiro extra é destinado a viagens, estadias em hotéis de luxo e refeições fora de casa. Quase três em cada quatro casais (73%) acreditam que tiram férias melhores do que seus amigos que têm filhos.

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Ao abrir mão de ter filhos porque não os querem ou porque ainda não têm condições financeiras para isso, apesar da renda dupla, esses casais estão preenchendo esse vazio emocional com animais de estimação, a ponto de tratá-los como filhos.

E os hotéis estão se adaptando para atender à família moderna, oferecendo mais serviços de luxo que incluem cães, desde cardápios gourmet para cães até spas personalizados para os “bebês peludos”.

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“Os EUA são um lugar bastante hostil para criar filhos. Há muito pouco apoio para as famílias, desde os altos custos das creches até a proteção limitada à licença parental… O custo de tudo aumentou”, diz Lindsay Bryan-Podvin, que está na casa dos 30 anos e é terapeuta financeira e escreve uma newsletter semanal. “Vejo mais pessoas optarem por permanecer, ou aceitarem permanecer, em um relacionamento Dinkwad.”

Cerca de 53% dos americanos possuíam animais de estimação em 2025, sendo que os millennials representavam o maior percentual, de acordo com um relatório da American Pet Products Association.

Estima-se que os gastos com a indústria de animais de estimação cheguem a US$ 165 bilhões este ano, um aumento em relação aos US$ 158 bilhões de 2025. De acordo com uma pesquisa recente do Morgan Stanley, 34% dos entrevistados com idades entre 18 e 34 anos pretendem adquirir um animal de estimação — e é esse grupo que gasta ainda mais dinheiro com eles.

“Não se trata tanto de mimar o seu cão, mas sim de reconhecer que isso é algo que tenho condições de fazer”, diz Bryan-Podvin. “As pessoas dizem: ‘Não tenho condições de sustentar um filho, mas sabe o que posso bancar? Um cão e os US$ 50 a mais por noite para levá-lo de férias.’”

Shipyard Beach, uma praia na Carolina do Sul, foi o último lugar onde eu esperava ver um goldendoodle brincando perto das dunas, quando a visitei no ano passado. Dudley é o mascote querido do Sonesta Resort Hilton Head Island desde que sua dona, a gerente de recreação Kathie Sendra, o trouxe para cá ainda filhote, em 2025.

Quando não está de olho nas guloseimas no check-in ou cumprimentando todos, desde executivos a recém-casados em lua de mel, Dudley supervisiona o aluguel de brinquedos de praia. Esse cachorrinho muito bem comportado é um exemplo muito visível (e muito adorável) de como os cães estão sendo bem-vindos no segmento de luxo.

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Por meio do programa Pets Are Welcome at Sonesta (PAWS), os hóspedes de quatro patas são recebidos no check-in com uma carta de boas-vindas e guloseimas. Os quartos contam com itens essenciais bem pensados para os pets, como uma cama aconchegante, e as instalações oferecem áreas designadas para passeios e necessidades fisiológicas, além de refeições adequadas.

Charlie Dice, de 38 anos, autora de uma newsletter da Pensilvânia, considera seus cães como seus filhos, a ponto de aplicar certa lógica de criação de filhos à criação de seus animais de estimação. “Meu marido e eu tentamos ter dois cães ao mesmo tempo, porque, assim como com as crianças, achamos que é bom ter um irmão”, disse.

Ela leva seus dois cães da raça bernese, já adultos, para todos os lugares, desde outros estados dos EUA até a Holanda e a Noruega, por meio de companhias aéreas comerciais. Ela pesquisou serviços semiprivados, como a Wheels Up e a VistaJet, nos quais os animais de estimação não precisam ir para o porão, e empresas especializadas como a Bark Air, que foi lançada com voos transcontinentais nos EUA de US$ 6.000 por trecho para cães.

A Bark acaba de completar dois anos de atividade e adicionou Tóquio às rotas internacionais que incluem Estocolmo, Atenas e Berlim. Também introduziu um serviço completo de concierge para animais de estimação.

Para Dice, mudar seus planos de viagem porque um hotel não aceita cães é algo natural. “Procuramos instalações que atendam a cães”, diz ela. “Se nossos cães não puderem ir, nunca os deixaríamos para trás em um canil.”

“Poder passar mais tempo com eles enquanto estão aqui”, continua ela, “esse é o verdadeiro luxo, porque, infelizmente, eles não ficam aqui tanto tempo quanto nós.”

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O Hotel Teatro, o hotel boutique pioneiro de Denver, entende perfeitamente o quanto os cães podem influenciar onde e por quanto tempo os hóspedes ficam.

A gerente geral Courtney Griffith diz que isso é um dos principais motivos pelos quais o hotel dispensou as taxas: “As taxas para animais de estimação podem parecer um pouco mercantis quando se cobra isso pelo ‘bebê peludo’ de alguém.”

“No fim das contas, os Dinkwads tendem a viajar com mais frequência, ficam mais tempo quando encontram um lugar que adoram e se tornam altamente fiéis”, acrescenta ela. Em um estudo recente, 26% dos donos de cães citaram os cuidados com o animal durante viagens como o segundo maior desafio associado à posse de um cão – o primeiro desafio é limpar os dejetos deles.

“Algumas pessoas entram em contato antes da estadia, dizendo que têm alergia, e somos muito sinceros com elas sobre nossa política de aceitação de cães”, diz Griffith. “Somos um destino para cães. Entendemos se não formos o hotel ideal para elas.”

O Sanctuary Beach Resort em Monterey, na Califórnia, foi reformado em 2024 para oferecer uma experiência de luxo aos hóspedes que desejam aproveitar tudo o que a viagem tem a oferecer — especialmente com seus cães a tiracolo.

“Sou uma SINK [acrônimo em inglês para ”renda única, sem filhos“] de Nova York e, após a pandemia, acho que todos que vivem na cultura da correria perceberam como é importante fazer uma pausa”, diz Kelli Sturges, diretora de experiências e programação dos hóspedes.

“Somos um lugar para se desconectar, o que na cultura DINK [acrônimo em inglês para ”renda dupla, sem filhos“] é uma necessidade realmente grande”, continua ela. “Quando você não tem obrigações familiares, tem que fazer horas extras, então os DINKs sofrem mais com o esgotamento tecnológico.”

A proximidade do resort com a Bay Area e uma área privada de dunas de areia protegidas, que já aceita cães, facilitaram a reorientação da marca para os Dinkwads, especialmente com chalés espaçosos e independentes que oferecem muito espaço para passear sem que seu cão invada a privacidade de outros hóspedes.

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“Nada disso faz com que você se sinta preso às escolhas de vida de outra pessoa”, diz Sturges. “Às vezes, os hóspedes pedem para ficar em quartos mais distantes dos cães, mas vemos a mesma coisa acontecer com hóspedes que têm filhos.”

“O segredo para viajar com seu cão é procurar um local que ofereça atividades que vocês possam fazer juntos”, diz Sydney Durieux, uma Dinkwad na casa dos 50 anos e dona de um West Highland White Terrier de 5 anos, Sir William Wallace.

Ela o leva regularmente de Nova York ao Castelo de Kilkea, no condado de Kildare, na Irlanda, onde hóspedes de quatro patas podem passear pela Floresta de Mullaghreelan (inclusive com uma cesta de piquenique para o cachorro), participar da Wolfhound Experience (onde os hóspedes caninos podem conhecer e interagir com os icônicos e enormes cães de caça irlandeses do castelo) ou simplesmente relaxar no tradicional pub irlandês da propriedade.

Eles também são ótimos para quebrar o gelo, caso conhecer pessoas seja importante em suas viagens. “As pessoas vêm falar comigo e com meu cão o tempo todo”, diz Durieux. “Acho que as pessoas ficam mais abertas e amigáveis com você quando há um cachorrinho pulando para cumprimentar todo mundo. É um ótimo jeito de puxar conversa.”

Para Dice, isso é ainda mais fundamental: “Gosto de ver o mundo pelos olhos do meu cão — provavelmente é a mesma coisa que acontece com as crianças. Quando chegam a um lugar novo, ficam todos animados.”

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