Lula se diz ‘otimista’ após reunião com Trump e convida EUA a se interessar pelo Brasil

Presidente disse que o Brasil está aberto a investimentos americanos em data centers, e alegou que queria que os Estados Unidos “recuperassem o interesse” em seu país, já que o país busca diminuir a influência chinesa na América Latina

Lula e Trump em encontro na Casa Branca
Por Augusta Saraiva - Daniel Carvalho

Bloomberg — Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump expressaram confiança de que os dois países poderão resolver suas questões comerciais nas próximas semanas, após uma reunião na Casa Branca que ambos os líderes consideraram produtiva.

Os dois líderes discutiram uma investigação em andamento nos EUA sobre as práticas comerciais do Brasil e outras questões econômicas na quinta-feira (7), e concordaram em se reunir novamente em um mês, em um esforço para pôr fim a uma disputa que eclodiu no ano passado.

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“Estou otimista”, disse o presidente brasileiro aos repórteres após o encontro. “Sugeri a Trump que nossos ministros resolvessem essa questão dentro de 30 dias para que possamos decidir o que vai acontecer. Acho que vai terminar bem, com um acordo entre o Brasil e os EUA sobre a questão comercial.”


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Lula disse que algumas áreas-chave de tensão entre os EUA e o Brasil - incluindo o pix - não foram abordadas na reunião.

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Eles também não discutiram a possibilidade de os EUA designarem grandes grupos criminosos brasileiros como organizações terroristas, um passo que Trump deu em relação a outros cartéis de drogas latino-americanos como parte de sua luta agressiva contra o narcotráfico - e que os Bolsonaros pediram.

Em vez disso, o Brasil chegou ao encontro armado com propostas de cooperação em questões econômicas e crime organizado, e Lula reiterou a Trump que está aberto a investimentos dos EUA em minerais essenciais.

Os EUA consideram o Brasil, que abriga as segundas maiores reservas de terras raras do mundo, como um importante parceiro em potencial em minerais essenciais para a tecnologia moderna, já que o país busca se distanciar da China, embora o progresso tenha sido lento, já que a nação sul-americana luta para criar estratégias nacionais ou estruturas regulatórias para os recursos.

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Leia também: Trump diz que reunião com Lula ocorreu ‘muito bem’ e incluiu comércio e tarifas

Lula disse que também afirmou a Trump que o Brasil está aberto a investimentos em data centers, desde que as empresas arquem com os custos de produção de energia. Ele disse que queria que os Estados Unidos “recuperassem o interesse” em seu país, já que o país busca diminuir a influência chinesa na América Latina.

“Muitas vezes realizamos licitações internacionais para projetos como rodovias e ferrovias, e os EUA não participam”, disse Lula. “Quem participa são os chineses.”

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O Brasil também apresentou aos EUA uma maior cooperação contra as facções criminosas que traficam drogas e armas nas Américas, com Lula dizendo que havia proposto a criação de uma coalizão regional para resolver o problema.

O líder brasileiro havia sido excluído da chamada cúpula do Escudo das Américas de Trump, uma reunião de líderes de direita da América Latina, no início deste ano.

No mês passado, porém, os EUA e o Brasil lançaram uma iniciativa conjunta para combater o contrabando de armas e drogas, enquanto o governo de Lula tem como alvo as finanças dos principais grupos criminosos em uma tentativa de responder às preocupações dos eleitores de que ele não é suficientemente duro com o crime antes da eleição.

O Ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse após a reunião que as nações estão se aproximando de um acordo para reforçar a cooperação sobre lavagem de dinheiro e questões alfandegárias.

Leia também: Inflação de alimentos volta a assombrar consumidor e pressiona Lula antes das eleições

Elogios

Trump repetiu o tom de Lula em uma postagem na rede social após a reunião e um almoço que se estendeu por quase três horas, descrevendo seu colega como “dinâmico” e dizendo que as conversas “foram muito bem”.

“Nossos representantes estão programados para se reunir para discutir certos elementos-chave. Outras reuniões serão agendadas nos próximos meses, conforme necessário”, postou Trump.

“Estamos negociando muito e vamos aumentar as negociações”, disse Trump aos repórteres na quinta-feira, indicando que o Brasil “gostaria de ter algum alívio tarifário”.

O encontro foi a terceira reunião presencial entre os dois líderes desde que as relações entre os EUA e o Brasil azedaram em julho passado, em meio a confrontos sobre comércio, política externa e o destino do ex-presidente Jair Bolsonaro, um aliado de Trump que foi condenado por planejar um golpe após sua derrota nas eleições de 2022 para Lula.

Os líderes começaram a reparar os laços após um encontro casual nas Nações Unidas em setembro e mais tarde se reuniram na Malásia, e Trump posteriormente retirou as tarifas sobre as principais exportações brasileiras. O Brasil também emergiu como um dos maiores vencedores quando a Suprema Corte dos EUA derrubou as tarifas globais de Trump país por país em fevereiro.

Mas o país continua sujeito a uma investigação da Seção 301 sobre suas práticas comerciais por parte dos EUA, com o pix, desmatamento e outras questões sob investigação. Como grande fornecedor de aço para os EUA, o país também continua a enfrentar tarifas sobre o metal.

Lula viajou a Washington com o objetivo de progredir na investigação e em outras questões comerciais, além de tentar reforçar a cooperação em temas como crime organizado e minerais críticos.

A reunião ocorreu em um momento crucial para Lula. O líder esquerdista de 80 anos está atualmente empatado nas pesquisas de intenção de voto com Flávio Bolsonaro, o filho mais velho de Jair Bolsonaro, antes das eleições de outubro, e viu o aumento de aprovação que recebeu da disputa com Trump no ano passado diminuir.

A sombra de Trump pairou sobre a corrida, graças aos seus laços estreitos com o Bolsonaro mais velho e à abordagem abertamente política em relação às eleições em todo o mundo.

Mas seus elogios a Lula foram semelhantes aos de quando ele descreveu a “excelente química” entre os dois após o encontro na ONU.

Isso também servirá como um ponto de discussão importante para Lula ao concorrer à reeleição, permitindo que ele promova um relacionamento positivo com o líder ideologicamente oposto que a família Bolsonaro procurou para pressionar o Brasil.

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