Bloomberg — A seis semanas da eleição, as conversas sobre a campanha giram menos em torno de quem vencerá e mais sobre o que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará caso seja reeleito.
De Brasília às mesas de operações em São Paulo, Lula é amplamente considerado favorito para derrotar Flávio Bolsonaro, cuja campanha tem sido marcada por uma briga pública com Michelle Bolsonaro e por ligações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Integrantes do governo Lula já miram cargos em uma eventual nova gestão. Parlamentares influentes de centro estão declarando apoio ao petista. Mercados de apostas atribuem ao presidente mais de 60% de chance de reeleição, enquanto investidores começaram a se desfazer de ativos brasileiros em meio a preocupações com sua disposição para enfrentar o forte aumento do déficit e da dívida.
A maior eleição presidencial do mundo em 2026 ainda não está totalmente definida. Apesar do caos na campanha de Flávio, ele apareceu apenas 3 pontos atrás em uma pesquisa divulgada na semana passada, um lembrete de que a revolta dos eleitores que alimentou uma onda global de rejeição a governantes no poder ainda pode atingir o Brasil, profundamente polarizado.
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Mas o clima mudou drasticamente desde o ano passado, quando a aprovação de Lula despencou para os níveis mais baixos de sua carreira e alimentou a percepção de que o presidente, hoje com 80 anos, caminhava para a derrota naquela que provavelmente será sua última eleição.
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A condição de favorito de Lula agora se deve, em grande medida, a duas ajudas inesperadas vindas de adversários políticos: Trump e o pai de Flávio, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O líder americano impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros numa tentativa de ajudar Bolsonaro a escapar das acusações de ter tramado um golpe após sua derrota em 2022, o que acabou impulsionando a aprovação de Lula.
Depois de ser condenado, Bolsonaro deu sua bênção à candidatura presidencial do filho mais velho, apesar das objeções tanto de aliados quanto de investidores.

Aliados de Trump chegaram ao poder em eleições recentes na Argentina, Chile, Equador, Bolívia, Peru e Colômbia, muitas vezes com ajuda da Casa Branca.
O Brasil, porém, começa a se parecer mais com Canadá e Austrália, onde os ataques de Trump a adversários ideológicos acabaram ajudando-os a vencer eleições.
Uma vitória de Lula interromperia o movimento da América do Sul em direção à direita. Também representaria um revés para Trump, mantendo a maior economia da região nas mãos de um líder cético em relação aos esforços do presidente americano para reafirmar a predominância de Washington sobre as Américas.
O efeito Flávio
Lula passou os últimos quatro anos lutando para recuperar a magia de seus mandatos anteriores, de 2003 a 2010, quando comandou um boom econômico, tirou milhões de pessoas da pobreza e deixou o cargo com índices de aprovação acima de 80%.
O desemprego está próximo de níveis historicamente baixos, mas ele não cumpriu a promessa de “cerveja e picanha para todos”, nem convenceu os eleitores de que seu atual governo teve uma abordagem eficiente para melhorar a segurança pública, mesmo com a queda nos índices de crimes violentos.
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Questionado sobre por que Lula está à frente nas pesquisas, um de seus assessores respondeu de forma simples: por causa de Flávio Bolsonaro, cuja inexperiência, falta de carisma político e incapacidade de controlar a narrativa em um ambiente que, em tese, deveria lhe ser favorável têm sido repetidamente expostas pelos holofotes de uma campanha presidencial.
A campanha de Bolsonaro não respondeu a um pedido de comentário.
Há meses, o senador enfrenta dificuldades para superar as revelações de que pediu dinheiro ao ex-dono do Banco Master, instituição que quebrou e está no centro da maior investigação de fraude bancária da história do Brasil, para financiar um filme sobre seu pai.
Ele passou boa parte de julho em uma disputa com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Sua incapacidade de formar alianças com importantes partidos de centro o deixou politicamente isolado e sem a candidata a vice que ele queria para reforçar seu apoio entre as mulheres — grupo no qual Lula tem uma vantagem de 9 pontos, segundo uma pesquisa recente da Quaest.

Seus esforços para obter o apoio de Trump, com quem se reuniu na Casa Branca em maio, rapidamente tiveram efeito contrário: dois meses depois, os EUA voltaram a impor tarifas ao Brasil, apesar dos alertas de Flávio de que elas acabariam representando um presente eleitoral para Lula.
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Vários aliados de Lula, que, assim como outras pessoas ouvidas nesta reportagem da Bloomberg News, pediram anonimato para falar livremente, descreveram a sequência de reveses da campanha de Bolsonaro como quase boa demais para ser verdade.
Eles reconhecem que enfrentariam um desafio maior contra Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo que muitos investidores queriam ver na disputa presidencial.
Uma pessoa próxima a Flávio, por sua vez, descreveu seu processo de tomada de decisões como caótico e desconcertante, afirmando que ele caminha para a derrota se não houver uma reformulação na campanha.
Lula concentrou sua estratégia em Trump, percebendo nas novas tarifas uma oportunidade para se apresentar como defensor da soberania nacional. Ele acusou Trump de tentar interferir na eleição do Brasil, e seu governo impediu a visita de dois funcionários do Departamento de Estado diante do receio de que eles planejassem lançar dúvidas sobre o sistema eleitoral brasileiro.
Isso ainda não se traduziu no mesmo tipo de ganho nas pesquisas que Lula obteve no ano passado. Um assessor da campanha afirmou, porém, que, embora Trump provavelmente não seja capaz de mudar sozinho o voto de muitos eleitores, ele facilitou a tarefa de conectar diferentes temas da mensagem de Lula, que tenta recuperar da direita brasileira a bandeira do patriotismo.
Mas Lula também tem seus pontos fracos. No fim de julho, o Supremo Tribunal Federal autorizou a Polícia Federal a investigar um de seus filhos, Fábio Luís da Silva, o Lulinha, por suspeita de corrupção e tráfico de influência.
O presidente, que não está ligado ao caso, pediu uma investigação completa e a responsabilização dos envolvidos. (Lulinha nega qualquer irregularidade.)
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Lula tem procurado afastar a ideia de que está velho demais liderar o Brasil, postando nas redes sociais vídeos em que aparece se exercitando. Um jingle de campanha em ritmo de rap e o fato de ele priorizar participações em podcasts em vez de entrevistas na mídia tradicional fazem parte de uma estratégia para alcançar os eleitores mais jovens, segundo assessores políticos.
Enquanto isso, a economia, que por muito tempo foi um dos principais trunfos políticos de Lula, está desacelerando, apesar de uma série de medidas de estímulo, pressionada por juros de dois dígitos que também agravam o endividamento das famílias.
Os programas de alívio econômico de Lula agora parecem estar perdendo força entre os eleitores, segundo duas pessoas próximas ao presidente, que apontaram para a queda da popularidade dessas medidas nas pesquisas.
Legado econômico
Ainda assim, a percepção predominante é de que Lula está à beira da vitória.
Na semana passada, Lula recebeu o apoio do presidente da Câmara dos Deputados e, publicamente, aparou as arestas com o presidente do Senado, sinais de que esses líderes de centro acreditam que ele conseguirá se manter no poder.
Os ativos brasileiros registraram algumas das maiores perdas do mundo à medida que os investidores passaram a prestar mais atenção à disputa. Os mercados de previsão, porém, praticamente não se mexeram, apesar do estreitamento das pesquisas.
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A aposta parece ser que Lula vai vencer seu adversário agora que a campanha oficial, iniciada no domingo, está em curso, uma previsão que Gilberto Kassab, candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado, presidente do PSD e experiente político do centrão, fez a empresários de São Paulo.
Isso aumentou a atenção sobre os planos de Lula para um quarto mandato, sobretudo num momento em que o déficit fiscal se aproxima de 10% do Produto Interno Bruto e a dívida supera 80%.
Gestores de fundos há muito enxergam Lula por óticas diferentes. Muitos investidores estrangeiros se lembram dos retornos extraordinários obtidos durante sua primeira passagem pela Presidência.
Investidores locais tendem a se concentrar no que aconteceu durante o governo de sua sucessora, Dilma Rousseff, cuja administração terminou mergulhada na mais profunda recessão da história do Brasil e deixou um enorme rombo nas contas públicas.
Agora, todos tentam entender que tipo de presidente Lula seria em seu mandato de despedida: aquele que se tornou um improvável queridinho de Wall Street nos anos 2000 ao manter superávits orçamentários enquanto ampliava programas sociais; uma versão mais radical, disposta a gastar muito mesmo sob o risco de uma derrocada semelhante à de Rousseff; ou algo entre os dois.
“Não vejo nenhuma evidência de que um Lula 4.0 representaria uma deterioração em relação ao Lula 3.0”, disse Graham Stock, estrategista sênior de dívida soberana de mercados emergentes da RBC BlueBay em Londres. “Eu esperaria que um governo Lula mantivesse o ritmo atual, que não é suficiente para estabilizar a relação dívida/PIB, mas é um passo na direção certa.”
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Nem mesmo os assessores mais próximos de Lula sabem ao certo. Segundo pessoas próximas ao presidente, ele está concentrado em consolidar seu legado como um líder que transformou a vida dos pobres e da classe trabalhadora e quer garantir que o Brasil continue economicamente sustentável depois de sua saída.
Sua equipe econômica reconhece que isso exigiria um ajuste fiscal, mas também admite que será difícil conciliá-lo com a visão de Lula de que o investimento público é fundamental para o crescimento.
Em entrevista na segunda-feira, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que as preocupações do mercado com a dívida brasileira são justificadas.
“Sem fugir da questão: precisamos lidar com isso”, disse Durigan à Bloomberg News, ao apresentar a política fiscal como a principal ferramenta do governo para reduzir as taxas de juros.
Lula é sensível às oscilações do câmbio brasileiro e sabe que fortes altas do dólar podem intensificar as pressões inflacionárias. Algumas pessoas do círculo mais próximo de Lula tentaram convencê-lo de que a falta de medidas logo no início de um eventual novo mandato levaria investidores a abandonar o Brasil, forçando-o a reagir posteriormente, segundo dois assessores.
Durigan, principal interlocutor entre Lula e o mercado, tem se reunido com investidores para discutir ideias como a adoção de um limite mais rígido para o crescimento dos gastos dentro das atuais regras fiscais.
Mas Durigan evitou apoiar medidas estruturais específicas na entrevista e afirmou que Lula só decidirá sobre planos concretos depois da eleição.
Com a campanha já em andamento, disseram várias pessoas próximas ao presidente, Lula não está disposto a fazer promessas que talvez depois não queira cumprir.
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