Intervenções recordes do Tesouro reduzem o colchão de liquidez da dívida pública

Tesouro atuou por três dias consecutivos nesta semana fazendo recompras de títulos de R$ 49,1 bilhões para conter a tensão no mercado causada pela alta dos preços do petróleo

Reserva de liquidez do país vem caindo desde setembro. (Foto: Andressa Anholete/Bloomberg)
Por Martha Beck - Felipe Saturnino
20 de Março, 2026 | 04:56 PM

Bloomberg — As intervenções recordes do Tesouro nos mercados locais têm reduzido um colchão de liquidez considerado fundamental para gerenciar os riscos da dívida pública.

A reserva — acumulada nos últimos anos para assegurar aos investidores que o Brasil não terá problemas para rolar sua dívida — vem encolhendo à medida que as autoridades buscam estabilizar as condições de mercado em meio à derrocada nos mercados globais.

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A reserva de liquidez do país vem caindo desde setembro, quando cobria 9,33 meses de vencimentos da dívida. Em janeiro, último dado disponível, havia caído para 6,77 meses, ainda acima do “nível mínimo de conforto” estabelecido pelo Tesouro, de três meses.

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O colchão continua sendo uma ferramenta importante antes das eleições presidenciais deste ano, período em que a volatilidade normalmente se intensifica, e com a proximidade de vencimentos da dívida em 2027.

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A parcela da dívida pública com vencimento em até 12 meses — uma medida-chave da pressão de refinanciamento de curto prazo — deve subir para 22% em 2026, após ter encerrado o ano passado em 17,5%, perto de uma mínima em duas décadas, segundo o plano de financiamento do governo.

O aumento está amplamente ligado a uma onda de vencimentos em 2027, incluindo títulos de taxa flutuante LFT emitidos em grande volume em 2021, quando o governo refinanciou passivos de curto prazo durante a pandemia.

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Essa dinâmica evidencia o dilema de equilíbrio que as autoridades enfrentam: intervir para acalmar os mercados, ao mesmo tempo em que preservam liquidez suficiente para lidar com futuros picos de refinanciamento.

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As autoridades monitoram de perto o ritmo de queda do colchão e reconhecem que ele precisará ser recomposto, segundo uma pessoa com conhecimento do assunto, que falou com a Bloomberg News e pediu para não ser identificada por se tratar de assuntos confidenciais.

Ainda há espaço para novas intervenções, se necessário, disse a pessoa, mas o colchão não é ilimitado.

Daniel Leal, subsecretário da dívida pública, disse que a redução da reserva “não é algo que cause alarme”. Em entrevista, ele disse que o Tesouro sempre dedica atenção especial à reserva de liquidez e aproveitou plenamente as oportunidades para emitir e reforçar essa reserva em 2025.

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Embora o conflito no Oriente Médio não estivesse no radar, o Tesouro dispõe de ferramentas para administrar a dinâmica da dívida, de acordo com Leal. “A pandemia ensinou o Tesouro como se preparar para momentos como o atual”, afirmou.

O Tesouro atuou por três dias consecutivos nesta semana para conter a tensão no mercado causada pela alta dos preços do petróleo.

O petróleo Brent disparou para cerca de US$ 108 o barril, ante aproximadamente US$ 70 no final de fevereiro, forçando os investidores a reavaliarem as perspectivas de crescimento global e as taxas de juros — e pesando sobre títulos de dívida locais de mercados emergentes.

Leia também: Tesouro alivia mercado com atuação após disparada dos juros

A medida foi elogiada pelos operadores, que a viram como uma janela de saída em um momento de elevada volatilidade. O risco, no entanto, é que, se o Tesouro continuar com recompras em larga escala em meio à incerteza gerada pela guerra no Oriente Médio, isso pode criar expectativas persistentes de novas intervenções, segundo outra pessoa familiarizada com o assunto.

Até o momento, as intervenções, que já totalizaram cerca de R$ 49,1 bilhões, têm conseguido conter, em grande parte, a venda generalizada de juros locais. Os contratos de swap, os chamados DIs, se mantiveram próximos dos níveis da última sexta-feira, quando uma onda de ordens de stop-loss fez as taxas dispararem.

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A decisão do Banco Central de iniciar, com cautela, cortes nos juros na quarta-feira pode ajudar a sustentar ativos locais e aliviar parte da pressão causada pelas tensões geopolíticas.

Os dirigentes do Banco Central, liderados por Gabriel Galípolo, promoveram o primeiro corte na taxa básica de juros desde 2024, reduzindo a Selic em 0,25 ponto percentual para 14,75% ao ano.

O movimento veio poucas horas depois de o Federal Reserve optar por manter os juros inalterados e alertar que quaisquer cortes futuros dependerão da trajetória da inflação.

Para Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da JGP Asset Management, o colchão de liquidez do Tesouro continua robusto e isso só seria foco de preocupação do mercado caso as atuações do Tesouro se estendessem por mais tempo, o que não parece ser o caso.

“Ficamos surpresos pelo tamanho do volume da recompra do Tesouro. O mercado estava muito aplicado e a zeragem dessas posições levou a uma elevação da curva de juros”, disse Rocha.

“O cenário mudou mesmo, e é possível que a inflação suba e as expectativas subam também, então tem que deixar o mercado se ajustar. Seguir com isso não tem tanto sentido, seria gastar dinheiro público para dar saída para quem fez posições erradas”.

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