Da MPB ao sertanejo, música brasileira entra na divisão política às vésperas da eleição

Shows, festivais e bares se transformam em espaços de expressão partidária enquanto campanha intensifica as manifestações de artistas e fãs, com nomes do sertanejo associados à direita, e músicos do samba, rap e MPB ligados à esquerda

Fã agita a bandeira do Brasil durante show do cantor Zezé Di Camargo, em São Paulo, em sinal de apoio à direita (Foto: Bloomberg)
Por Barbara Nascimento
PUBLICIDADE

Bloomberg — Gusttavo Lima nem precisou falar de política para que seus fãs soubessem o que fazer.

O cantor sertanejo tinha acabado de fazer um discurso corriqueiro — homenagens à tradição e à saúde, uma exaltação à pátria — entre uma música e outra durante um show com ingressos esgotados numa cidade próxima de São Paulo, em 19 de setembro. Foi então que começaram os gritos: “Ei, Lula, vai tomar no c—”, repetiu a multidão diversas vezes, em referência ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disputa a reeleição.

PUBLICIDADE

É uma cena familiar nos shows de Lima. Vídeos de multidões entoando insultos semelhantes contra Lula circulam amplamente nas redes sociais, muitas vezes sem grande reação do cantor. Mas, na véspera do primeiro turno, durante um show no interior de Minas Gerais, Lima rompeu seu silêncio habitual. Depois que o público começou a xingar Lula, ele respondeu: “Então amanhã é com vocês, ok?” — e voltou a cantar.


⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


Na votação do primeiro turno, realizada no início deste mês, Lula ficou atrás de seu adversário, Flávio Bolsonaro. O desafiante chega embalado ao segundo turno decisivo deste fim de semana, enquanto as pesquisas mostram uma disputa em situação de empate técnico.

PUBLICIDADE

Não é tarefa fácil ser um fã de música que não quer saber de política nesta temporada eleitoral. A eleição deste ano tem uma trilha sonora — e, assim como a política do país, ela está cada vez mais dividida.

A divisão musical acompanha, em grande parte, os gêneros mais populares: Lima e outros artistas do sertanejo tendem a se alinhar à direita. Artistas do rap, samba e MPB — entre eles Gilberto Gil e Caetano Veloso — tendem ao campo progressista.

Enquanto os brasileiros se preparam para ir às urnas, pesquisas mostram que segurança pública, corrupção e saúde estão entre as principais preocupações dos eleitores.

PUBLICIDADE

Mas as tentativas de alcançar o eleitorado — especialmente os mais jovens — frequentemente passam pela música. Não é muito diferente dos Estados Unidos, onde o rapper e roqueiro Kid Rock mantém uma forte ligação com o movimento MAGA, enquanto o show de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl foi classificado pelo presidente Donald Trump como “uma afronta à grandeza da América”.

Leia também: Eleições podem redesenhar as regras criadas em 1988, diz cientista político

No Brasil, o resultado do primeiro turno, que mostrou Flávio Bolsonaro surpreendentemente à frente de Lula, aumentou a pressão pública para que influenciadores e artistas deixassem suas posições políticas mais claras, especialmente os de esquerda. Pesquisas recentes mostram Flávio com uma pequena vantagem sobre Lula antes do segundo turno.

PUBLICIDADE

“Não existe rap de direita”, escreveu o artista Xamã nas redes sociais após um evento que reuniu Lula e dezenas de músicos no Rio de Janeiro no fim de setembro. “Todos os artistas do hip hop que você ouviu a vida inteira pensam do mesmo jeito.”

Ele também apareceu em um vídeo ao lado de Gil, Veloso e sambistas, cantando “Lula é um de nós” e pedindo aos ouvintes “consciência na hora de votar”.

A música de Bad Bunny também entrou na campanha eleitoral brasileira. Poucas semanas antes do primeiro turno, a campanha de Lula divulgou um vídeo que transformava Lo Que Le Pasó a Hawaii, do músico, em uma versão em forró e em português centrada na soberania brasileira.

Do outro lado do espectro político, o cantor sertanejo Zezé Di Camargo disse a uma plateia em setembro que esperava que o Brasil em breve estivesse “totalmente do lado direito”. Antes disso, ele apareceu ao lado de Flávio Bolsonaro em um vídeo manifestando apoio ao pai do candidato, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar por conspirar para dar um golpe após perder a eleição de 2022.

Leia também: Euforia dos mercados com eleição esbarra na ressaca da dívida do Brasil

Música e política estão entrelaçadas há muito tempo no Brasil. Durante a ditadura militar, músicos encontraram maneiras de usar suas letras para protestar apesar da censura. Mas a divisão política voltou a se aprofundar ao longo da última década, em meio ao impeachment de Dilma Rousseff, à investigação de corrupção que levou Lula à prisão e à ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência.

“Essas manifestações dessas duplas atuais são uma espécie de déjà vu”, disse Waldenyr Caldas, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. “O principal instrumento deles é a voz, tem que usar.”

Flávio Bolsonaro fez um apelo direto para que músicos demonstrassem apoio.

“Tem tanto artista de direita, tanto influenciador de direita, tanta gente que tem uma representatividade, uma credibilidade de falar com seu público. Peça o voto no Flávio Bolsonaro”, disse ele durante uma transmissão ao vivo em meados de outubro. “Toma um pouquinho de risco também.”

Festivais sertanejos

Nenhum gênero exemplifica melhor essa tensão do que o sertanejo, que tem raízes no interior rural do país, onde os eleitores tendem a favorecer Bolsonaro.

Mas, assim como a música country nos Estados Unidos, o gênero é popular entre diferentes grupos demográficos, inclusive na Faria Lima. Uma pesquisa Quaest realizada no ano passado mostrou que 55% dos brasileiros que se identificam com Flávio Bolsonaro ou com a direita escutam o gênero, ante 49% daqueles que se identificam com Lula ou com a esquerda — o que faz do sertanejo o gênero mais popular entre os dois grupos.

Leia também: Lobby do agro busca elevar influência sobre o Executivo caso Flávio vença a eleição

E a política chegou a dividir algumas das duplas, uma das marcas características do gênero. Em um episódio que chamou atenção, Xororó, da dupla Chitãozinho & Xororó, e Luciano, parceiro musical de longa data de Zezé, não participaram de um encontro com Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto em 2022 ao qual seus companheiros de dupla compareceram — uma ausência que chamou a atenção da imprensa local na época.

A cerca de 40 minutos de carro do centro de São Paulo, fãs usando chapéus e botas de caubói — paetês, renda e franjas para elas; jeans para eles — foram a um show de Zezé Di Camargo neste mês. A casa, com capacidade para cerca de 7 mil pessoas, ficou lotada por duas noites consecutivas.

Do lado de fora, Reginaldo Machado, que se define como de direita, disse que os artistas que escuta não precisam necessariamente compartilhar suas posições políticas, mas afirmou ter deixado de apoiar cantores como Caetano, Gil e Ivete Sangalo diante das manifestações públicas deles em apoio a Lula.

“Se depender de mim, não vendem nem um ingresso”, disse.

Bares de samba

O Boteco da Dona Tati, no bairro da Barra Funda, em São Paulo, atrai o público do samba e, em uma visita recente, duas semanas antes do segundo turno, a casa estava lotada de pessoas usando roupas, adesivos e chapéus que demonstravam apoio a Lula.

“Em algum momento, as pessoas passaram a falar que era a esquina da esquerda e percebemos que estávamos envolvidos com política”, disse a proprietária, Sebastiana Alves Martins. “Mas meu bar não é só de esquerda. A casa abriga a todos, queremos que todos se respeitem.”

Isso nem sempre é possível à medida que a tensão política aumenta no Brasil, segundo Clara Teixeira, médica que tomava uma cerveja no Dona Tati. Ela diz que a política tem alguma influência nas suas decisões sobre as músicas que escuta e grupos com quem convive durante o período eleitoral.

“Tenho um grupo de amigas que reúne pessoas com posições políticas diferentes e, se nessa fase perto da eleição eu convidasse para almoçar num bar de samba como este, tenho certeza de que elas não viriam”, disse Teixeira. “E, se alguém me chamar para um bar na Faria Lima, nem de graça eu não iria.”

Veja mais em bloomberg.com