Bloomberg Línea — A política brasileira se organiza desde a Constituição de 1988 em torno de três pilares. O primeiro é a negociação permanente entre o presidente e o Congresso. O segundo é a ideia de um país plural. O terceiro é a expectativa de que a democracia entregaria resultados em saúde, educação, emprego e renda.
Na eleição de 2026, esse arranjo passa pelo maior teste desde a redemocratização. A avaliação é de Guilherme Casarões, doutor e mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), professor da Florida International University (FIU) e coordenador do Observatório da Extrema Direita. Ele falou em entrevista ao podcast Radar Eleitoral, da Bloomberg Línea.
No primeiro turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL) teve 47% dos votos, contra 45% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os dois voltam a se enfrentar em 25 de outubro. Para Casarões, porém, o dado mais relevante do primeiro turno é a nova correlação de forças no Congresso.
“A gente só vai ver efetivamente a morte da Nova República quando aquele que é o símbolo maior da Nova República, que é a Constituição de 1988, for substituída por alguma outra coisa ou for alterada de maneira que a gente não a reconheça mais”, disse. “Mas a verdade é que a Nova República já vinha, há muito tempo, respirando por aparelho.”
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Casarões descreve o pacto da redemocratização em três dimensões. A primeira é a da identidade, ligada ao reconhecimento da diversidade racial, religiosa e regional do país no texto constitucional. A segunda é a política, baseada na busca de consenso entre o presidente e partidos no Congresso, o modelo conhecido como presidencialismo de coalizão.
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A terceira dimensão é a das políticas públicas. Casarões cita o controle da inflação, a criação do SUS e o combate à pobreza e à desigualdade. Segundo ele, houve avanços nessas áreas, mas parte das promessas não foi cumprida ou foi cumprida apenas em parte. Isso gerou frustração em grupos que não viram a vida melhorar, em especial na classe média.
“Isso produziu frustração, frustração leva a ressentimento, ressentimento, às vezes, se traduz em raiva”, disse.
O desgaste desde 2014
O professor cita a avaliação do cientista político Fernando Abrucio, da FGV, para quem o modelo viveu uma “era de ouro” entre 1994 e 2014. Para Casarões, a ruptura começa no período do impeachment de Dilma Rousseff. Nessa fase, o Congresso, sob a presidência de Eduardo Cunha na Câmara, passou a ampliar o controle sobre o Orçamento federal. Depois vieram as emendas de relator, conhecidas como orçamento secreto.
Ao mesmo tempo, o Supremo Tribunal Federal ganhou protagonismo político. Casarões aponta como marcos o julgamento do mensalão, a Operação Lava Jato e o inquérito das fake news.
“Supremo legislando no lugar do Congresso, o Congresso sequestrando o presidente com orçamento secreto. Quer dizer, está tudo funcionando muito mal”, afirmou. “Então você começa a ter um presidente que lá em 1988 nasce forte, mas sempre dependeu de um pacto, completamente refém dos outros Poderes.”
Um Congresso diferente
Segundo Casarões, a mudança deste ano está na composição do Legislativo. O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um único partido na Câmara desde a redemocratização. Com Republicanos, PP e União Brasil, o campo próximo a Flávio Bolsonaro reuniria uma maioria mais fácil de construir do que as coalizões montadas nos governos anteriores.
No Senado, parlamentares alinhados ao bolsonarismo chegariam a quase 50 das 81 cadeiras, acima dos três quintos exigidos para aprovar emendas constitucionais. O próximo presidente também deverá indicar quatro dos 11 ministros do STF.
Na visão dele, essa base reduz a necessidade de concessões que caracterizou o presidencialismo de coalizão nas últimas décadas e abre caminho para reformas constitucionais.
“A morte da Nova República não quer dizer que todos os elementos constitutivos da Nova República vão pro lixo”, disse. “Mas a gente está falando de um redesenho muito fundamental das regras que organizam a política brasileira.”
Em caso de vitória de Lula, Casarões avalia que o governo teria de lidar com um Congresso de maioria oposicionista, o que limitaria a capacidade de aprovar a sua agenda e prolongaria o impasse entre os Poderes.
Para Casarões, os partidos de esquerda, de centro e da direita não bolsonarista precisarão se adaptar a um ambiente político com regras diferentes das que vigoraram nas últimas quatro décadas.
“Esses caras têm que aprender a jogar um novo jogo”, afirmou. “Se a demora for muito grande de adaptação, é bem provável que essas mudanças sejam feitas à revelia dos interesses da oposição.”
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