Trump critica Brasil, mas abre mercado à carne do país para combater inflação nos EUA

Pressionada pela alta de preços de alimentos, Casa Branca flexibiliza importações para enfrentar escassez de gado, reduz tarifas e impulsiona frigoríficos brasileiros em meio a entraves externos

Em agosto, os Estados Unidos se tornaram o maior comprador de carne bovina do Brasil (Foto: Maira Erlich/Bloomberg)
Por Dayanne Sousa - Rachel Gamarski
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Bloomberg — O presidente americano Donald Trump tem criticado veementemente a influência brasileira sobre a indústria de carne bovina dos Estados Unidos. Mas, ao mesmo tempo, algumas de suas políticas estão dando uma sobrevida a esse mesmo país, diante de esforços para reduzir os preços da carne nos Estados Unidos.

A alta dos preços da carne bovina está se mostrando um problema para o governo Trump, impulsionando a inflação de alimentos às vésperas das eleições de meio de mandato.

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Em agosto, o presidente intensificou seus esforços para lidar com a situação, afirmando que permitiria a importação de até 300 mil toneladas de carne moída com tarifas reduzidas nos próximos 90 dias.

A maior parte dessa carne provavelmente sairá do Brasil.


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Para o país sul-americano, o aumento da demanda chega em um momento oportuno, já que enfrenta desafios de exportação, com restrições da China e da Europa.

Em agosto, os Estados Unidos se tornaram o maior comprador de carne bovina do Brasil, e a mudança na política de Trump significa que essa posição provavelmente se manterá nos próximos meses.

Compradores americanos responderam por 16% dos embarques de carne bovina do Brasil em agosto.

“Essa mudança será útil para o Brasil — muito útil”, disse Fernando Iglesias, analista da consultoria Safras & Mercado. “Mas isso não acontece sem interesses próprios: os Estados Unidos precisam dessa carne agora mais do que nunca.”

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Os preços da carne moída no varejo americano atingiram um patamar recorde mais uma vez em agosto, conforme mostraram dados do governo na sexta-feira (11). Os preços subiram devido à pequena oferta de gado. A situação atraiu a atenção das autoridades antitruste para a indústria de processamento de carne americana, altamente concentrada e com forte presença brasileira.

Leia também: Carne moída bate recorde nos EUA e dificulta esforços de Trump para conter preços

Trump tem estado na linha de frente desse escrutínio. Em recente evento na Casa Branca, ele criticou duramente o “monopólio” dos frigoríficos e enfatizou o papel do Brasil no mercado. Os maiores frigoríficos do país são a Tyson Foods e a Cargill, além das empresas de capital brasileiro JBS e National Beef.

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 Preços médios da carne moída ao consumidor, sem ajuste sazonal

Mas, nos bastidores, Trump se reuniu com o bilionário brasileiro Joesley Batista em 20 de agosto, apenas um dia antes de anunciar a flexibilização das tarifas de importação de carne bovina, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto, que pediu para não ser identificada por se tratar de informação confidencial. Batista é um dos membros mais proeminentes da família fundadora da gigante do setor de processamento de carne, a JBS. A reunião foi noticiada primeiramente pelo jornal The Wall Street Journal.

A Casa Branca não se pronunciou.

Leia também: Pecuária em alerta: domínio do Brasil na carne bovina esbarra em regras da UE

A J&F, holding dos irmãos Batista, recusou-se a comentar. Os irmãos Batista também investem na Pilgrim’s Pride, que realizou a maior doação para o comitê de posse de Trump em 2025.

Embora a reunião com a JBS tenha ocorrido pouco antes do anúncio, o governo Trump já vinha sinalizando há semanas que estava buscando maneiras de controlar os preços da carne bovina e ajudar os pecuaristas americanos.

A decisão de redução das tarifas em algumas importações de carne moída para os Estados Unidos ocorre em um momento em que o Brasil enfrenta ventos contrários em outros mercados.

A China impôs cotas e está tomando medidas para proteger os produtores e agricultores nacionais. Enquanto isso, a União Europeia endureceu as normas para o uso de antimicrobianos na pecuária, dificultando o cumprimento dessas regulamentações por parte dos exportadores brasileiros.

Leia também: Trump reduz tarifas sobre a carne moída, beneficiando exportadores do Brasil

Embora a tarifa reduzida dos Estados Unidos para 300 mil toneladas de carne bovina também esteja disponível para outros fornecedores, espera-se que o Brasil domine o mercado. Analistas da XP estimam que o país possa suprir até dois terços do total.

O Brasil também fornece um tipo de carne magra que está em falta nos Estados Unidos, disse o analista do Rabobank, Wagner Yanaguizawa.

A redução das tarifas “chega em um momento muito oportuno, ajudando a aliviar a pressão sobre os exportadores brasileiros devido à queda nas vendas para outros mercados importantes”, disse Felipe Fabbri, analista da Scot Consultoria.

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