Rio Pó é o motor da economia da Itália. Seca histórica coloca agro e indústria em alerta

Nível do rio caiu às mínimas histórias em meio a ondas de calor extremo na Europa; agricultores já planejam mudar o tipo de cultura, mas se preocupam que o retorno pode ser menor que o das anteriores

Sandbanks exposed by the receding waters of the Po River in Isola Pescaroli, northern Italy, on Aug. 6.Photographer: Stefano Rellandini/AFP/Getty Images
Por Alberto Brambilla
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Bloomberg — Massimo Salvagnin já tem as sementes prontas. Ele só não tem certeza se deve plantá-las.

Na próxima semana, o agricultor planeja plantar feijão verde no solo arenoso da fazenda de 600 hectares de sua família, próxima ao delta do rio Pó, na Itália. Mas o calor extremo deste verão deixou o solo tão quente que ele teme que as sementes possam morrer antes mesmo de terem a chance de germinar.

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“A terra fica tão quente que o risco de ‘cozinhar’ a semente ao entrar em contato com o solo é extremamente alto”, afirmou ele.


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Em todo o norte da Itália, fazendas, fábricas e usinas de energia que dependem de água abundante e previsível enfrentam uma nova realidade. As mudanças climáticas fazem com que o rio Pó, o motor da economia industrial italiana, oscile violentamente entre inundações e secas.

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Isso tem forçado os agricultores a repensar o que cultivam, os engenheiros a reconsiderar como a água é armazenada e transportada, e as indústrias a disputar um recurso que antes consideravam garantido.

Com a Itália sob o efeito de mais uma grande onda de calor, o desafio é adaptar negócios com décadas de existência que foram construídos com base na suposição de que a água estaria sempre disponível.

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Salvagnin, de 59 anos, certificou-se, antes do plantio, de que seu consórcio de irrigação pudesse garantir água para o próximo mês a seis semanas. A ansiedade tem se espalhado pelo norte da Itália à medida que o rio Pó atinge níveis historicamente baixos.

Em Cremona, o rio caiu para 8,59 metros abaixo do zero hidrométrico em 30 de julho, 1 centímetro abaixo da mínima recorde anterior, estabelecido durante a grave seca de 2022. A vazão foi reduzida a menos de um terço da média histórica para esta época do ano, de acordo com a Autoridade da Bacia Hidrográfica do Rio Pó.

Motor econômico

O rio Pó, com 652 quilômetros de extensão, é o maior rio da Itália, nascendo nos Alpes, próximo à fronteira com a França, e desaguando no Mar Adriático, ao sul de Veneza. Embora seja muito mais curto que o Reno ou o Danúbio — duas das outras grandes vias navegáveis econômicas da Europa —, ele transporta um volume excepcionalmente grande de água.

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A cada primavera, a água do degelo é canalizada para a maior região produtora de arroz da Europa, inundando campos próximos a Milão para o plantio de variedades utilizadas no risoto e seguindo seu curso rumo ao leste. O rio e seus afluentes também abastecem cerca de 900 usinas hidrelétricas, contribuindo para impulsionar a economia industrial do país.

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A região do rio Pó é responsável por cerca de 41% do Produto Interno Bruto (PIB) da Itália e por 32% de sua produção agrícola, de acordo com a autoridade da bacia hidrográfica.

As mudanças climáticas colocam à prova a economia na região de Ferrara, onde grande parte das terras agrícolas foi criada por meio da drenagem de pântanos e lagoas do delta.

A partir da década de 1950, as vastas zonas úmidas de Mezzano foram convertidas em terras agrícolas para o cultivo de morangos, tomates, milho e beterraba sacarina, grande parte delas abaixo do nível do mar.

Bombas e canais são utilizados para gerenciar continuamente a fronteira entre a terra e a água, drenando a água doce quando há excesso e trazendo-a de volta quando há escassez.

Cada vez mais, a água chega na hora errada, afirmou Stefano Calderoni, presidente do Consorzio di Bonifica Pianura di Ferrara, que opera cerca de 4.200 quilômetros de canais e 160 estações de bombeamento.

No pico dos fluxos da primavera, ele estima que cerca de 10 bilhões de metros cúbicos possam passar por Pontelagoscuro, perto de Ferrara, em menos de duas semanas. Meses depois, a mesma região pode estar lutando para obter água. O rio Pó parece cada vez mais uma enxurrada, enchendo e esvaziando continuamente, afirmou ele.

“Temos dois grandes desafios: lidar com o excesso de água e com a escassez de água”, disse Calderoni. “Confiamos na natureza quando deveríamos ter confiado no planejamento.”

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Até mesmo as chuvas oferecem, cada vez mais, apenas um alívio temporário. Tempestades intensas e localizadas contribuem pouco para reabastecer as reservas hídricas, segundo Alessandro Delpiano, presidente da autoridade da bacia hidrográfica.

As temperaturas mais altas derretem a neve dos Alpes mais cedo, enquanto a urbanização e a impermeabilização do solo diminuem a recarga dos lençóis freáticos.

Conhecimento do sul

Salvagnin não é, de forma alguma, um agricultor que resistiu à modernização.

Seu pai fundou a fazenda Porto Felloni há cerca de 50 anos. Depois de viajar para os Estados Unidos na década de 1990 para estudar como os agricultores americanos utilizavam a tecnologia, Salvagnin introduziu a agricultura de precisão no negócio da família, incluindo mapeamento de rendimento e agricultura de taxa variável.

Massimo Salvagnin, right, and his nephew Simone Gatto, an agronomist, on Aug. 6. Photographer: Alberto Brambilla/Bloomberg

Hoje, sensores enterrados medem a umidade do solo, enquanto estações meteorológicas, dados de satélite e modelos de culturas estimam a quantidade de água que as plantas consomem. A irrigação pode ser ajustada por seções individuais de um campo.

Algumas dessas técnicas foram desenvolvidas no sul da Itália, região mais quente e seca.

Nicola Gherardi, membro do conselho executivo nacional da Confagricoltura, uma das principais associações agrícolas da Itália, aprendeu sobre a irrigação por gotejamento para tomates com agricultores da região de Foggia, na Apúlia. Os sistemas irrigam diretamente ao redor das plantas, ao contrário dos grandes aspersores comuns no Vale do Pó.

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“Procurei aqueles que já haviam enfrentado esses problemas antes de nós e desenvolvido técnicas e conhecimentos que simplesmente não possuíamos”, disse Gherardi. Ele aponta o rio Ródano, na França, como outro modelo para o Pó, onde intervenções de gestão hídrica permitiram que a agricultura coexistisse com a energia hidrelétrica e o delta.

Os agricultores também mudaram suas culturas. O milho, pilar das indústrias pecuária e leiteira do norte da Itália, sofreu uma queda acentuada. Ele requer grandes quantidades de água e é vulnerável à salinidade. Gherardi afirmou que a produção italiana é cerca de metade do que era há duas décadas, enquanto culturas mais tolerantes, como o sorgo, aparecem cada vez mais nas rotações de plantio.

Essa mudança pode trazer desvantagens econômicas. Um hectare de tomate industrial pode render até o dobro da renda da cevada, estima Salvagnin. Culturas de alto valor sustentam fábricas de processamento, empresas de logística e empregos sazonais.

“Se as fazendas tiverem que cultivar cevada porque ela não consome água, não conseguirão se sustentar”, afirmou ele.

Competição pela água

As empresas de energia também sentem o impacto. Na usina hidrelétrica Isola Serafini, da Enel Green Power, todas as quatro unidades geradoras estão paralisadas desde 30 de julho, pois o vazão do rio está muito baixo.

Durante períodos de escassez, a água potável tem prioridade, seguida pela irrigação e pela produção de alimentos. A energia e outros usos vêm em seguida.

Normalmente, os rios também devem manter uma vazão ecológica para proteger os ecossistemas, embora regiões e províncias estejam solicitando isenções para permitir a captação de mais água, disse Delpiano.

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A autoridade da bacia hidrográfica também solicitou às operadoras hidrelétricas que liberassem água adicional armazenada nos reservatórios alpinos para apoiar o curso inferior do rio Pó. Este ano, as autoridades alteraram uma regra de aproximadamente 80 anos que regulamentava o nível da água no Lago Maggiore, permitindo que ele retivesse 15 centímetros adicionais de água.

Intrusão de água salgada

Em Pontelagoscuro, a última grande estação de medição antes do delta, o rio Pó está fluindo a cerca de um terço dos volumes históricos, de acordo com a autoridade da bacia hidrográfica, sinalizando um risco elevado de intrusão de água salgada. A água do mar está penetrando mais de 25 quilômetros para o interior, afetando as captações para irrigação e os ecossistemas.

Isso também agrava um problema de longa data para as áreas rurais recuperadas, que se situam sobre águas subterrâneas salinas remanescentes dos pântanos e lagoas originais. A água doce próxima à superfície ajuda a conter a salinidade, mas períodos prolongados de seca podem permitir que o sal suba pelo solo, queimando a terra e dificultando o crescimento das culturas.

Embora os engenheiros tenham inicialmente drenado a água para transformar as zonas úmidas em terras agrícolas, sua preservação depende agora de manter a água doce no solo.

O agricultor Salvagnin afirma que a economia agrícola que definiu esta parte da Itália por gerações está ameaçada. Em toda a região, fazendas estão fechando e as gerações mais jovens migram para outras profissões.

Ele teme que o calor extremo provoque um abandono, semelhante ao que esvaziou partes das regiões montanhosas da Itália.

“Vou continuar fazendo meu trabalho”, disse Salvagnin. “Mas ao meu redor pode haver um deserto.”

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