Bloomberg — O aumento dos custos de fertilizantes, impulsionado pela guerra no Irã, tem pressionado os agricultores do Brasil no pior momento possível, evidenciando como o conflito no Oriente Médio ameaça o abastecimento mundial de alimentos.
Os agricultores brasileiros já vêm enfrentando preços mais baixos de commodities, acesso limitado ao crédito, dívidas elevadas, taxas de câmbio desfavoráveis e aumento dos custos de transporte de mercadorias para os portos.
Agora, o rápido aumento dos fertilizantes está levando as coisas a um ponto de inflexão, e muitos produtores estão repensando os investimentos em terras e insumos agrícolas ao se prepararem para a próxima temporada de plantio.

Tomemos como exemplo a soja, a principal cultura do país. A área cultivada se expandirá pela taxa mais lenta em quase 20 anos para a temporada que começa em setembro, de acordo com a empresa de inteligência de mercado Veeries.
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A consultoria Agroconsult apresentou uma perspectiva semelhante recentemente, enquanto uma estimativa dos analistas da Datagro prevê o menor crescimento em uma década.
“Qualquer pessoa que tenha observado o agronegócio nos últimos 10 anos sempre viu o setor como próspero e em crescimento”, disse Marcos Rubin, fundador da empresa de inteligência de mercado Veeries. “Esse não é o ambiente atual.”
É uma mudança que tem o potencial de se espalhar pelo cenário agrícola global. A soja abundante e de baixo custo do país ajudou a aumentar os estoques internacionais da semente oleaginosa usada em óleo de cozinha e ração animal.
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O país é o principal fornecedor da China, o maior comprador de safras do mundo. A desaceleração no Brasil pode significar mais inflação de alimentos na Ásia e em outros países, já que os importadores competem por suprimentos.

No Brasil, o pessimismo no setor agrícola é generalizado. O sentimento dos agricultores, calculado pela Bloomberg Intelligence, caiu para o nível mais baixo em mais de um ano. A situação representa um desafio político para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está concorrendo à reeleição.
A agricultura é responsável por cerca de um quarto do produto interno bruto do Brasil, segundo algumas medidas, e os agricultores em dificuldades estão buscando mais crédito subsidiado, além de mais seguro.
Embora o plantio de soja no Brasil ainda deva aumentar, só que em um ritmo muito mais lento, a situação está prestes a ser mais terrível para outros produtos agrícolas. É provável que a área plantada de algodão, arroz e milho de verão diminua, de acordo com a Veeries.
Essas culturas dependem mais de certos tipos de suprimentos de fertilizantes, que foram interrompidos pelo conflito com o Irã, que efetivamente fechou o Estreito de Ormuz.
“Não teremos aumentos na área plantada, isso já está definido”, disse Thiago Facco, agricultor de soja e milho no estado de Tocantins, que também é vice-presidente do grupo de produtores Aprosoja.
A região de Facco é uma das que lideraram o caminho durante o recente boom agrícola no Brasil.
Agora, ele diz que o acesso limitado ao crédito e o aumento dos custos agrícolas limitarão o crescimento. As margens dos produtores, que já são apertadas, podem se tornar ainda piores na próxima temporada, acrescentou.
Investimentos menores
Além da área plantada, os rendimentos também estão em risco, pois os custos mais altos significam que os agricultores provavelmente serão forçados a reduzir os gastos com insumos agrícolas, sementes, maquinário e fertilizantes.
Um relatório do Rabobank de abril estimou que o consumo de fertilizantes cairá 3,9% até o final de 2026.
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“Haverá cortes nos investimentos”, disse Daniel Jaeger da Silva, que cultiva soja, milho e arroz no Rio Grande do Sul, o terceiro maior estado agrícola do Brasil. Silva vai adiar planos há muito considerados de expandir seus negócios para outra região agrícola e está adiando a compra de novas máquinas.
Sem dúvida, o Brasil está longe de perder seu status de potência na agricultura global.
Mesmo os pequenos aumentos de área esperados para a próxima temporada podem levar a outra colheita recorde de soja, e os preços mais baratos em comparação com os dos EUA devem continuar a impulsionar as exportações.

Mas o crescimento ainda estará em jogo em meio a tempos difíceis para os agricultores.
As finanças não estão tão fortes quanto estavam durante o último pico de preços dos fertilizantes em 2022, disse Marcela Marini, analista do Rabobank Brasil. Uma moeda doméstica mais forte e altos custos de frete rodoviário significam que os produtores brasileiros de soja estão lucrando menos com as vendas de grãos denominados em dólares.
“Este é um momento em que os produtores podem rever o modelo de negócios” após anos de investimentos maciços, disse Marini.
As vendas de tratores e outros equipamentos agrícolas também devem cair este ano. As receitas devem cair até 7%, de acordo com o grupo da indústria Abimaq.
A previsão pode em breve ser revisada para baixo ainda mais, disse Pedro Estevão, presidente da câmara de máquinas agrícolas do grupo.
Mesmo no estado de Mato Grosso, o mais rico e maior produtor de soja do país, espera-se que a área plantada fique estagnada na próxima temporada, segundo o centro de pesquisa local IMEA.
Condições de financiamento mais apertadas e taxas de juros mais altas estão limitando a expansão para novas áreas, disse o grupo.
“Hoje me mostraram as condições de preço dos fertilizantes e me deu vontade de chorar”, disse Endrigo Dalcin, um produtor de soja do Mato Grosso que espera que os agricultores reduzam as aplicações de fosfato nesta temporada, ao mesmo tempo em que evitam abrir novas áreas para plantio.
“É uma tempestade perfeita”.
-- Com a ajuda de Beatriz Amat.
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