Bloomberg — Assistentes executivos em empresas de serviços profissionais administram as agendas dos sócios, cuidam de despesas e organizam viagens em uma das poucas funções remanescentes de escritório que não exigem credenciais de elite.
Eles podem ganhar mais de US$ 100 mil por ano por esse trabalho nos Estados Unidos, com incentivos e bônus para os profissionais de níveis mais altos.
Essa trajetória de carreira está desaparecendo à medida que empresas como PwC e McKinsey cortam ou transferem milhares de funções de apoio para reduzir custos e abrir espaço para que a inteligência artificial assuma mais tarefas.
A operação da PwC nos Estados Unidos demitiu cerca de 600 assistentes executivos, recrutadores e outros funcionários de suporte em fevereiro, segundo pessoas familiarizadas com o assunto que falaram à Bloomberg News.
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Os cortes vieram após meses de incerteza entre os funcionários sem contato direto com clientes da empresa, uma das Big Four da contabilidade, depois que planos de reestruturação foram anunciados no ano passado, disseram as pessoas, que pediram anonimato por discutirem informações privadas.
EY, KPMG e Deloitte também reduziram equipes de apoio nos últimos 12 meses, assim como a McKinsey, a firma de contabilidade Grant Thornton e os escritórios de advocacia Baker McKenzie e Clifford Chance. Bancos também estão eliminando funções de apoio.
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O Standard Chartered planeja cortar cerca de 8 mil cargos em áreas corporativas nos próximos quatro anos, o que o CEO Bill Winters descreveu como “substituir, em alguns casos, capital humano de menor valor por capital financeiro e de investimento”.
A desaceleração da demanda por alguns serviços profissionais, a pressão por maior rentabilidade e o avanço da IA têm impulsionado os cortes, embora alguns ex-funcionários de diferentes empresas afirmem acreditar que a preservação da remuneração dos sócios também tenha sido um fator.

A PwC nos EUA está “modernizando e simplificando a forma como trabalhamos”, disse um porta-voz. “Assim como ajudamos nossos clientes todos os dias, estamos nos tornando mais digitais, mais eficientes e mais preparados para reinvestir em crescimento e nos alinhar mais de perto às necessidades da firma e do mercado.”
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A McKinsey se recusou a comentar, mas um porta-voz já havia afirmado anteriormente que a empresa trabalha para “melhorar a eficácia e a eficiência de nossas funções de suporte” enquanto se ajusta a “um momento marcado pelos rápidos avanços da IA”.
Os cortes não são o primeiro sinal de que as funções de assistente executivo e outros cargos de apoio estão sob pressão crescente, à medida que as empresas priorizam profissionais com qualificações mais elevadas.
Além das demissões, empresas como McKinsey e EY tentam reduzir os custos com equipes de suporte transferindo vagas baseadas em Nova York e Londres para locais como Flórida, Polônia, Caribe ou Índia — regiões em fusos horários semelhantes aos dos escritórios dos sócios, mas com mão de obra mais barata.
Ainda assim, até mesmo essas vagas transferidas correm risco com a maior adoção de IA.
“Existe uma pressão real sobre as margens”, disse Fiona Czerniawska, CEO da consultoria de pesquisa Source Global Research, acrescentando que, em tempos difíceis, as empresas geralmente preferem cortar equipes de suporte antes dos profissionais que geram receita.
“Elas estão tentando encontrar pessoas que possam retirar sem comprometer a capacidade de realizar trabalho faturável.”
Ganhos de produtividade
Para os sócios de consultorias, ter um assistente executivo é tanto um símbolo de status quanto um recurso prático para administrar vidas e rotinas profissionais intensas.
Em um memorando de agosto, escrito antes de assumir um cargo na Solicitors Regulation Authority, órgão regulador da advocacia na Inglaterra e no País de Gales, o ex-sócio da Baker McKenzie Jonathan Peddie afirmou que os cortes em equipes de apoio motivados por lucro deixaram os sócios cuidando de tarefas de marketing e “mexendo, sem muita habilidade, em linhas e caixas de uma apresentação comercial”.
Alguns sócios da EY nos EUA ficaram frustrados no ano passado ao saber que seus assistentes de longa data seriam demitidos, segundo pessoas familiarizadas com o tema. A EY se recusou a comentar.
“Executivos que ganham salários de seis dígitos fazendo sua própria administração representam uma alocação ineficiente de custos”, afirmou Marianne Whitlock, diretora da Strategic PA Recruitment, empresa que trabalha conectando assistentes a companhias.
“Um assistente executivo de alto desempenho gera retorno sobre investimento, e os ganhos de produtividade na liderança se espalham por toda a empresa.”
Historicamente, funções de assistente em empresas de serviços profissionais eram estáveis e bem remuneradas. O salário médio de um assistente executivo é de cerca de US$ 79 mil em Nova York e aproximadamente £ 43 mil (US$ 57,8 mil) em Londres, segundo o site de avaliações de ambiente de trabalho Glassdoor. Em grandes empresas financeiras, assistentes executivos podem ganhar até US$ 140 mil.
Uma recrutadora da EY nos EUA disse ter chorado ao descobrir no ano passado que perderia o emprego, já que esperava passar o restante da carreira na empresa.
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Outra funcionária de um grande escritório de advocacia, cujo trabalho envolvia ajudar advogados na elaboração de documentos, questionou quem faria o trabalho antes realizado por sua equipe demitida.
Na visão dela, a IA dificilmente conseguiria assumir essas tarefas. Um integrante de uma equipe de apoio que sobreviveu a uma rodada de cortes afirmou que disseram a ele para agir como se tudo estivesse normal depois das demissões, mas brincou que já não havia mais com quem trabalhar.
As equipes de apoio viram “como a torneira que as empresas abrem e fecham” quando querem aumentar a remuneração dos sócios, afirmou Laura Empson, professora da Bayes Business School.
Encolhimento e terceirização internacional
A indústria de consultoria viveu um boom após a pandemia de covid-19, à medida que a atividade de fusões e aquisições acelerou e as empresas passaram a pagar caro por aconselhamento. Apenas nos Estados Unidos, o setor cresceu quase 13%, para US$ 115,5 bilhões, em 2022, segundo a Source Global Research. Desde então, juros elevados e uma série de escândalos éticos desaceleraram o mercado de consultoria, que cresceu cerca de 4% nos EUA em 2025.
Ao mesmo tempo, empresas de serviços profissionais disputam consultores e advogados em áreas específicas de crescimento, como IA, private equity e cibersegurança, afirmam recrutadores do setor, acrescentando que os salários desses profissionais estão subindo.
A EY demitiu mais de 100 assistentes executivos nos Estados Unidos em 2025 e transferiu essas funções para o Caribe, segundo pessoas com conhecimento do assunto. Muitos dos assistentes executivos da McKinsey agora trabalham em localidades de custo relativamente baixo, incluindo Tampa, na Flórida, Costa Rica e Polônia, disse uma pessoa familiarizada com o tema.
A KPMG Austrália planeja transferir cerca de 200 funções de assistente executivo para as Filipinas, informou a Sky News em fevereiro, e a operação britânica da Grant Thornton demitiu alguns assistentes executivos no ano passado, confirmou um porta-voz.
Recrutadores da EY nos EUA cujas vagas foram transferidas para a Argentina no ano passado disseram considerar as decisões frustrantes e questionaram o impacto sobre a moral dos funcionários remanescentes, além da repercussão de sócios milionários transferirem empregos de menor remuneração para aumentar os lucros.

Grande parte da carga de trabalho dos assistentes pode em breve exigir pouca ou nenhuma mão de obra humana. Assistentes executivos devem estar entre os profissionais mais afetados pela adoção de IA, segundo um relatório do Fórum Econômico Mundial, enquanto Mark Zuckerberg afirmou querer que todos na Meta Platforms tenham seu próprio assistente baseado em agentes de IA.
Os cortes realizados pela PwC em fevereiro foram influenciados pelo avanço da estratégia da empresa para adoção de IA, tanto pela preparação para automação quanto pela redução de custos, disseram à Bloomberg News pessoas familiarizadas com o assunto. McKinsey e Baker McKenzie também relacionaram automação e IA às demissões. Um porta-voz do escritório de advocacia afirmou que a liderança está “repensando as formas como trabalhamos, inclusive por meio do uso de IA”.
Evolução da IA
Mesmo as funções terceirizadas e de menor custo agora estão em risco. Os cortes da PwC incluíram cerca de 170 profissionais de recrutamento em Buenos Aires, além de vagas em Tampa, disseram pessoas à Bloomberg News.
Os cortes na Baker McKenzie incluirão funcionários em Buenos Aires, Tampa, Belfast, na Irlanda do Norte, e Manila, nas Filipinas. O escritório fechará a unidade de Tampa, embora alguns funcionários de suporte continuem trabalhando remotamente a partir da Flórida, disse um porta-voz.
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A Deloitte nos EUA também planeja reduzir benefícios de alguns funcionários de suporte, informou o Business Insider no mês passado. A licença familiar remunerada deve cair de 16 para oito semanas para os funcionários afetados, que também perderão de cinco a dez dias anuais de folga remunerada, segundo a reportagem.
Os benefícios da Deloitte “são atualizados regularmente”, disse um porta-voz, “e serão adaptados para um pequeno grupo de profissionais, para melhor alinhamento com o mercado”.
Especialistas do setor, como Czerniawska, suspeitam que algumas empresas estejam praticando “AI washing” — atribuindo à tecnologia reduções de quadro que fariam de qualquer forma.
Certamente existe potencial para que a função de assistente executivo evolua em um mundo mais apoiado por IA. A Grant Thornton, após cortar vagas de assistentes executivos no Reino Unido no ano passado, passou a anunciar oportunidades para profissionais que “otimizem fluxos de trabalho com IA e automação”.
Por enquanto, porém, a perspectiva geral segue sombria, segundo Empson, da Bayes Business School.
“Por serem vistos como centro de custo, esses profissionais sempre estarão vulneráveis”, afirmou Empson. “Em alguns momentos, a vulnerabilidade é maior do que em outros — e este é um desses momentos.”
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