Bloomberg Opinion — Tudo o que poderia dar errado nas eleições do Peru deu errado.
O atraso na chegada das cédulas em várias seções eleitorais desencadeou uma série de erros por parte da autoridade eleitoral, culminando na dramática renúncia do presidente do órgão, com o ciclo eleitoral ainda inconcluso.
Mais de duas semanas após a votação, mais de 4% dos votos continuam sem ser contados devido a contestações, enquanto os candidatos que disputam o segundo lugar no segundo turno de junho — o radical de esquerda Roberto Sánchez e o populista de direita Rafael López Aliaga — estão separados por cerca de 24 mil votos.
Os resultados finais podem não ficar prontos até meados de maio, quando todas as cédulas contestadas forem revisadas, um atraso que joga lenha na fogueira de um momento político já explosivo. Alegações de fraude, denúncias de manipulação e pedidos para anular a votação estão se acumulando.
Seja qual for o resultado, o lado perdedor quase certamente reclamará de fraude, aumentando o risco de agitação social.
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Mesmo as poucas certezas são sombrias: Keiko Fujimori chegou ao segundo turno como favorita com apenas 17% dos votos; 23 candidatos à presidência (sim, 23!) obtiveram cada um menos de 1%; e a divisão geográfica ressalta um país profundamente dividido entre duas visões irreconciliáveis.
Isso é notável mesmo para os padrões de uma nação que já passou por três presidentes desde outubro. Se o Peru precisava de um rompimento definitivo com anos de instabilidade institucional, esta eleição trouxe o oposto.
No entanto, por mais extrema que pareça, essa confusão não é um caso exclusivamente peruano.
Em toda a América Latina, as eleições estão sob pressão devido a falhas administrativas, política hiperpolarizada, disputas cínicas pelo poder e a interferência violenta do crime organizado. O Peru é menos um caso isolado e mais um alerta: questionar as eleições, de forma justa ou não, inevitavelmente corrói a legitimidade.
Veja alguns exemplos. Em Honduras, falhas técnicas no ano passado também atrasaram os resultados por semanas em uma disputa acirrada, desencadeando acusações de irregularidades. O governo cessante tentou pressionar por uma recontagem após rejeitar os resultados, mesmo quando o próprio candidato do partido no poder acabou em um distante terceiro lugar.
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A eleição de 2023 na Guatemala foi marcada por interferência judicial com o objetivo de bloquear candidatos e alterar o resultado, mesmo após a vitória surpreendente de Bernardo Arévalo.
A eleição de 2022 no Brasil terminou com a recusa do presidente Jair Bolsonaro em reconhecer a derrota após questionar repetidamente a integridade do sistema eleitoral, uma farsa que, meses depois, culminou no tumulto em Brasília em 8 de janeiro de 2023.
E, no caso mais flagrante, o regime da Venezuela nem se deu ao trabalho de fingir e simplesmente roubou a eleição de 2024 descaradamente.

Visto dessa forma, os problemas eleitorais da América Latina apontam para uma tendência que deve preocupar eleitores, formuladores de políticas e investidores.
Os políticos devem compreender que burlar as regras sem escrúpulos para obter ganhos pessoais é um caminho perigoso que, em última instância, corrói o sistema do qual todos fazem parte. E como essas táticas populistas claramente vieram para ficar, a prioridade deve ser fortalecer as salvaguardas institucionais que protegem os processos eleitorais contra esse abuso.
Nesse contexto, não é surpresa que a confiança esteja diminuindo, tanto na região quanto globalmente. Em média, apenas 34% dos latino-americanos confiam nas autoridades eleitorais, de acordo com o Latinobarómetro, um número que Benjamin Gedan, diretor do programa para a América Latina do Stimson Center em Washington, considera “preocupantemente baixo”.
“O ceticismo generalizado e crônico em relação à gestão eleitoral facilita que um candidato derrotado cause problemas”, disse ele a mim. “Isso é um lembrete da importância de uma observação eleitoral confiável.”
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Esses precedentes oferecem um alerta que vale a pena levar em conta antes de duas das maiores e mais disputadas eleições da região: a da Colômbia no mês que vem e a do Brasil em outubro, onde cerca de 200 milhões de pessoas, somadas, estão registradas para votar.
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, sugeriu recentemente que poderia condicionar seu reconhecimento dos resultados após atacar repetidamente as autoridades eleitorais do país, chegando a especular que há um “risco de 100% de fraude eleitoral”.
Parece familiar? Sim, apesar de suas diferenças ideológicas, figuras que vão de Bolsonaro a Donald Trump têm usado o mesmo manual cínico. A violência contra as forças de segurança também está aumentando antes da votação, onde a insegurança é uma das principais questões da campanha.
No Brasil, o poderoso ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes ordenou uma investigação contra o pré-candidato Flávio Bolsonaro por supostamente difamar seu rival, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O tribunal também está de olho em um segundo pré-candidato por postar vídeos satíricos dos ministros em meio à crescente desaprovação pública de seu desempenho. Essas ações representam uma interpretação excessivamente zelosa do papel do tribunal, se não uma intromissão direta no processo eleitoral, com risco de sair pela culatra.
Enquanto isso, no México, onde o partido governista Morena ainda faz alegações sem fundamento de que seu líder, Andrés Manuel López Obrador, foi privado da presidência em 2006, o Congresso acaba de aprovar uma reforma para reduzir o orçamento eleitoral, uma medida que pode comprometer a independência do órgão eleitoral.
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“Os governos populistas corroem os controles institucionais e os direitos das minorias. O que está em jogo não é tanto o cerne da democracia, mas suas aparências liberais”, afirma Andrés Malamud, cientista político do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que também aponta o aumento da violência relacionada às drogas contra candidatos como “a verdadeira ameaça à democracia”.
A América Latina também pode oferecer exemplos recentes de eleições limpas, nas quais os perdedores reconhecem a derrota após campanhas acirradas, mas justas, desde o segundo turno no Chile em dezembro até a brusca mudança na Argentina do peronismo para Javier Milei em 2023.
Mas quando os políticos levam cada vez mais o sistema ao limite em busca do poder ou quando o crime organizado se intromete no processo, as instituições se deterioram e a própria democracia fica ameaçada. Infelizmente, o Peru está longe de ser o único caso.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Juan Pablo Spinetto é colunista da Bloomberg Opinion e cobre negócios, assuntos econômicos e política da América Latina. Foi editor-chefe da Bloomberg News para economia e governo na região.
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