Bloomberg Opinion — Quando nada pode ser dado como certo, o que deve fazer um analista econômico? Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) suspendeu sua prática de elaborar previsões econômicas globais em suas reuniões de primavera.
Em vez disso, o órgão apresentou uma “previsão de referência” — na prática, um cenário de “sobrevivência” que pressupunha que as coisas logo voltariam a uma espécie de normalidade — juntamente com projeções alternativas que variavam de “não tão ruins” a “muito piores”.
Se o atual cessar-fogo na guerra com o Irã se mantiver, os danos de curto prazo à economia mundial serão administráveis. Se isso não acontecer, e a guerra recomeçar ou se intensificar, os resultados serão muito piores.
Os investidores não têm escolha a não ser lidar com esses cenários de curto prazo praticamente sem sentido. O que tende a se perder nesses exercícios são as consequências de longo prazo. É claro que é ainda mais difícil quantificá-las, mas elas também são mais importantes.
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Independentemente de como o conflito com o Irã se desenrolar nos próximos dias e semanas, este momento de extrema perturbação confirma a chegada de uma nova ordem global — uma que não se baseia mais na cooperação liderada pelos Estados Unidos.
Os efeitos exclusivamente econômicos dessa mudança são tão importantes quanto suas implicações para a segurança e a geopolítica. Visto dessa forma, o ponto crucial é que a cooperação internacional é eficiente. Ela reduz custos — e isso não é pouca coisa.
Ao longo do último ano, a confiança na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) caiu vertiginosamente. Essas alianças não apenas tornam seus membros mais seguros, como também são econômicas: os aliados compartilham e, portanto, reduzem o custo de sua própria defesa.
O presidente Donald Trump tem razão em reclamar que os membros europeus contribuíram menos do que deveriam, aproveitando-se da confiança de que os Estados Unidos os apoiariam. Os Estados Unidos teriam razão em pressionar os aliados a pagar sua parte justa — mas não é isso que estão fazendo. Estão destruindo a aliança, não reparando-a.
A Europa sabe que terá de gastar mais com defesa no futuro — provavelmente mais do que sua parcela justa na Otan exigiria. Quanto os Estados Unidos devem esperar economizar com isso? Menos do que nada. Seus próprios interesses de segurança são globais, não locais ou regionais. Para promovê-los de forma econômica, precisa de aliados.
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A guerra com o Irã é um exemplo disso. É revelador que o governo americano tenha ficado furioso com seus ridicularizados parceiros europeus por se recusarem a ajudá-lo a forçar a abertura do Estreito de Ormuz. Sem parceiros para ajudar a carregar o fardo e aceitar (dentro de certos limites) a liderança dos Estados Unidos, os Estados Unidos também precisarão gastar mais. Provavelmente muito mais.
Ou considere os benefícios de redução de custos decorrentes da cooperação liderada pelos Estados Unidos nas finanças globais — em particular, o papel do padrão do dólar. Em parte, assim como a defesa, trata-se de outro bem público com vantagens amplamente compartilhadas. Neste caso, porém, os Estados Unidos se beneficiam de forma desproporcional.
A fragmentação geopolítica coloca em risco seu “privilégio exorbitante” — principalmente, a capacidade de contrair empréstimos a juros mais baixos. O dólar não tem um sucessor plausível (por mais que a China e a União Europeia gostassem que suas moedas assumissem o seu lugar), mas um sistema multipolar poderia muito bem surgir.
Esforços para diminuir o domínio do dólar e o poder financeiro dos Estados Unidos que dele decorre provavelmente aumentarão os custos de transação, prejudicarão a liquidez e ameaçarão a estabilidade financeira global.
A transição do comércio liberal para o comércio controlado também é cara. Se o comércio não reduzisse custos, não haveria comércio: o objetivo é gastar menos e consumir mais. É verdade que, assim como o previsto fim do padrão-dólar, a morte da globalização foi exagerada. É provável que o comércio continue se expandindo, e economias como a dos Estados Unidos continuarão a depender dele.
Mesmo assim, esforços erráticos e intrusivos para canalizar e direcionar o comércio aumentarão os custos para os produtores nacionais e prejudicarão o investimento. E o comércio controlado invariavelmente significa mais gastos públicos — em subsídios para produtores favorecidos e/ou terceiros (nos Estados Unidos, pense nos agricultores) que sofrem danos colaterais da guerra comercial.
De toda forma, menos cooperação significa custos mais elevados — ou seja, menor produtividade. Com o tempo, se tivermos sorte, colocar tantos obstáculos no caminho causará apenas um crescimento lento, em vez de um verdadeiro desastre econômico. Mas se o aumento dos custos se somar à fragilidade financeira e/ou ao estresse fiscal, o risco de reveses econômicos repentinos será maior.
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O aumento do estresse fiscal é um tema central da recente análise do FMI. A dívida pública global está aumentando; em grande parte do mundo, os níveis ainda são mais altos do que eram no auge da pandemia. Os déficits orçamentários são elevados, apesar do baixo desemprego, e as taxas de juros estão subindo.
Os Estados Unidos estão na vanguarda dessa bagunça fiscal que se agrava, com um déficit do setor público (a medida preferida do FMI) entre 7% e 8% do PIB, apesar do pleno emprego, e “nenhum plano de consolidação da dívida à vista”.
Agora acrescente gastos públicos persistentemente mais altos devido à ordem global em frangalhos — em defesa, serviço da dívida e as demandas fiscais do comércio controlado — juntamente com um crescimento mais lento do que seria de outra forma, graças aos custos mais elevados.
A guerra do governo Trump contra o Irã reiterou, com extremo preconceito, a mensagem que já havia enviado aos antigos parceiros: a partir de agora, os Estados Unidos agirão unilateralmente para promover seus interesses, independentemente das consequências para seus supostos amigos trapaceiros e covardes.
É uma mudança que será difícil e talvez impossível de reverter, e que tornará os Estados Unidos e seus antigos aliados mais pobres, bem como menos seguros.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Clive Crook é colunista da Bloomberg Opinion e membro do conselho editorial que cobre economia, finanças e política. Ex-comentarista-chefe de Washington para o Financial Times, também foi editor do The Economist e do The Atlantic.
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