Bloomberg Opinion — A divulgação dos últimos dados do Índice de Preços ao Consumidor dos Estados Unidos nesta quarta-feira (13) apenas confirma o que todos já sabem: a inflação está em uma alta de 40 anos e aparentemente fora de controle. A inflação de 9,1% de junho e as métricas semelhantes ajudam a explicar por que os consumidores dizem estar mais pessimistas que em qualquer momento desde a crise financeira de 2008, por que o Federal Reserve tornou a política monetária mais apertada desde 1994 e por que o presidente Joe Biden continua afundando nas pesquisas de opinião pública.
Mas um conjunto menos conspícuo de métricas de inflação também merece atenção. Longe de sombrio, esse conjunto mostra que consumidores, economistas e investidores antecipam um retorno gradual à estabilidade e moderação.
Logo após a Associated Press – atacadista de notícias para emissoras, mídia digital e impressa – relatou em 30 de junho que o “principal indicador da inflação monitorado pelo Fed continua sendo em alta de 6,3%” – a medida mais visível do comportamento do investidor sinalizou o contrário. Os investidores em títulos mostraram que esperam que a inflação esfrie e apostaram na diminuição da diferença entre o rendimento dos valores mobiliários americanos protegidos contra a inflação e os títulos ordinários do Tesouro. As taxas dessas apostas realmente caíram na ocasião, com a medida de equilíbrio de dois anos caindo de 3,45% para 3,29% e a taxa de 10 anos caindo para 2,34%, ponto mais baixo desde 2021, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.

Os consumidores podem estar soando o alarme da inflação, mas seu comportamento é surpreendentemente otimista. Os temores de uma inflação contínua – a desgraça da economia americana durante os anos 70, antes de o Fed impor tardiamente a pior recessão desde a Grande Depressão – apareceria estatisticamente na forma de uma maior demanda por automóveis, máquinas de lavar e casas, prevendo a futuros aumentos de preços. Isso não vai acontecer, segundo o Índice de Sentimento do Consumidor da Universidade de Michigan – mesmo indicador utilizado para mostrar o pessimismo dos americanos mesmo com a taxa de desemprego em 3,6%.
O indicador da Universidade de Michigan mostra que as receitas dos americanos estão atendendo às demandas dos consumidores e que as pessoas esperam que os preços da gasolina caiam nos próximos cinco anos, segundo dados compilados pela Bloomberg.
O índice de Michigan que monitora a expectativa de que os preços da gasolina irão aumentar até 2027 caiu 25% nos últimos três meses, chegando a uma baixa recorde desde que os dados foram compilados pela primeira vez em 1983. Da mesma forma, o índice que monitora a chance de que os preços da gasolina caiam durante os próximos cinco anos aumentou 67% durante os últimos três meses, atingindo uma alta recorde.

O aumento dos preços da gasolina não se mostrou tão doloroso quanto sua divulgação intensa sugere. Isso porque os gastos atuais com combustível representam 3,5% dos gastos totais do consumidor, em comparação com uma média de 3,6% em dados mensais de três décadas atrás, segundo aferido pela Bloomberg Opinion. Enquanto a gasolina a US$ 5 por galão em junho estava US$ 1 acima da alta anterior de 2008, os gastos com gasolina representavam 4,5% dos gastos gerais na época, o que significa que o preço médio de um galão de gasolina precisaria aumentar mais 35% e chegar a cerca de US$ 6,60 para que o preço de hoje tivesse o mesmo impacto.
Os 45 economistas que oferecem previsões trimestrais de inflação para a Bloomberg projetam que o Índice de Preços Básicos de Gastos de Consumo Pessoal, a métrica de inflação preferida pelo Fed, cairá para uma média de 2,9% em 2023 e 2,2% em 2024 – atualmente o índice está em 4,7%. Outro grupo de economistas oferece previsões do desempenho econômico geral dos EUA; destes 75 especialistas, apenas quatro projetam perda do produto interno bruto nos dois anos seguintes, de acordo com os dados compilados pela Bloomberg. É claro que a maioria pode estar errada. Mas não devemos ignorá-los quando alguns CEOs chegam às manchetes, afirmando que uma recessão já chegou.
Abby Joseph Cohen, a ex-estrategista-chefe de investimentos do Goldman Sachs (GS) que é professora da Columbia Business School, disse à Bloomberg Television em entrevista em junho que o Índice de Preços Básicos PCE está entre três e quatro pontos percentuais abaixo do Índice de Preços ao Consumidor e caiu por três meses consecutivos para 4,7% em maio – em fevereiro, estava em 5,3%. Os preços do cobre e da madeira, índices de referência de pressão inflacionária, caíram 30% e 37%, respectivamente, em relação às suas máximas de todos os tempos em março, segundo dados compilados pela Bloomberg.
Embora o índice de sentimento de junho da Universidade de Michigan tenha caído para uma baixa recorde em junho em meio ao aumento das expectativas de inflação, a renda disponível real – o dinheiro que as pessoas têm, ajustado à inflação – ainda é maior hoje do que em qualquer momento antes de 2020, segundo dados compilados pela Bloomberg. O PIB dos EUA, igualmente ajustado à inflação, aumentou 3,5% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior. A mensagem é diferente daquela transmitida pelas manchetes predominantes de que o PIB real caiu 1,6% nos primeiros três meses do ano desde o quarto trimestre de 2021, segundo dados compilados pela Bloomberg.
Se a inflação é o perigo, os investidores devem exigir proteção. Mas durante o primeiro trimestre, as entradas líquidas em fundos negociados em bolsa que oferecem um porto seguro caíram mais de US$ 12 bilhões, chegando a US$ 718 milhões. E durante o segundo trimestre, os investidores estavam retirando mais fundos de títulos protegidos contra a inflação do que fazendo depósitos, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.
Resumindo: os investidores estão bastante seguros de que a inflação atualmente é uma ameaça menor que há dois anos.
--Com a colaboração de Shin Pei.
Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Matthew A. Winkler, editor-chefe emérito da Bloomberg News, escreve sobre mercados.
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