Conscientização entre millennials mais jovens e geração Z sobre malefício das redes sociais vem inspirando redes menos viciantes
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Bloomberg Opinion — Como o Facebook se tornou um negócio no valor de US$ 1 trilhão no ano passado? Não foi apenas cumprindo sua missão de “conectar pessoas”, mas mantendo-as viciadas, navegando por vezes por horas a fio.

A controladora do Facebook, a Meta (FB), o YouTube, da Alphabet (GOOGL), e o Twitter (TWTR) passaram anos aperfeiçoando a arte de construir produtos de formação de hábitos, seja através da afirmação social das “curtidas”, do fascínio de um feed sem fim ou da forma como o YouTube alimenta seus receptores de dopamina cada vez que recomenda um novo vídeo.

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Guillaume Chaslot, engenheiro que deixou o Google em 2013 depois de ajudar a projetar o algoritmo de recomendação do YouTube, lembra-se de ter sido orientado a programá-lo para incentivar um gasto maior de tempo no site. “Quando você otimiza pelo tempo gasto, então você otimiza pelo vício”, diz ele. “Naquela época, eu nem percebi isso”.

Mas agora, vários anos depois de uma ampla reação contra as plataformas das Big Techs por causa de sua segurança, mais serviços de internet parecem estar se afastando da pressão para serem viciantes ou recompensarem o comportamento de busca de atenção. É uma tendência promissora.

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Alguns desses serviços estão ficando populares com os consumidores.

O BeReal é uma rede social desenvolvida na França na qual todos usuários são instruídos a postar uma foto de si mesmos e de seu entorno em um momento definido aleatoriamente todos os dias. Em vez de selfies com o ângulo perfeito, são publicadas caretas, teclados de computador e multidões no transporte público – em outras palavras, os momentos mundanos da vida cotidiana. Em maio de 2022, o BeReal já havia sido baixado mais de 10 milhões de vezes e vem crescendo constantemente entre adolescentes e universitários nos Estados Unidos, Reino Unido e França, de acordo com a empresa de análise de dados de aplicativos data.ai.

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Intuito da plataforma é publicar fotos espontâneas e sem tratamento em contraste com o Instagramdfd

Não há filtros, e o BeReal desencoraja as fotos elaboradas. “A rede não mostra vidas falsas como as de alguns influenciadores do Instagram”, diz Alice, uma jovem londrina de 15 anos de idade que começou a usar o BeReal em abril, depois que um amigo recomendou.

Talvez o mais importante: o BeReal não é tão viciante quanto o Instagram. Você só precisa acessar o aplicativo uma vez por dia, quando diversas novas fotos são adicionadas. Eu mesma venho usando o BeReal há vários meses e acho difícil ignorar os alertas de dois minutos do aplicativo para publicar uma foto, mas não estou viciada no BeReal da mesma forma que sou instada a olhar o Twitter várias vezes ao longo do dia.

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Essa rotina de um acesso por dia também é o que motivou dezenas de milhões de pessoas a jogar o Wordle, jogo de sucesso de propriedade do New York Times atualizado diariamente que incentiva os jogadores a compartilhar emojis que indicam seus resultados.

Em vez de atiçar a vontade de abrir os aplicativos a todo o momento, tanto o BeReal quanto o Wordle preferem criar expectativa. Em vez de trazer o conteúdo, os aplicativos incentivam uma prática diária única e fugaz que conecta usuários uns aos outros.

É claro que ambas as redes podem se tratar de uma moda passageira. Lembre-se dos aplicativos Dispo, YikYak e Peach? Não? Isso é porque as plataformas de mídia social e de internet são um negócio inconstante, repleto de modismos que não atingem um apelo de longo prazo junto aos consumidores.

No entanto, o sucesso atual do Wordle e do BeReal também vem junto com uma mudança cultural mais ampla: uma conscientização cada vez maior entre os consumidores e entre os adolescentes e principalmente jovens de 20 e poucos sobre os riscos psicológicos de gastar muito tempo nas redes sociais. Essa consciência obrigou a geração Z a ser pioneira em abrir contas privadas no Instagram para publicar mais fotos particulares e autênticas para seus amigos próximos, ou para iniciar tendências como a hashtag #filterdrop, que incentiva a publicação de fotos sem filtros.

Ironicamente, a maior empresa que abandonou o modelo de descarga de dopamina pode ser o próprio Facebook.

Se você acha difícil acreditar nisso, considere que o metaverso, para o qual o CEO Mark Zuckerberg está orientando toda a empresa, não parece ter um potencial muito viciante. Primeiramente, porque entrar na realidade virtual é incômodo. Depois de colocar um headset como o Oculus Quest 2 em seu rosto, você precisa esperar vários minutos enquanto um jogo carrega, e falando por experiência própria com um Quest 2, o uso fica notavelmente pesado e desconfortável após cerca de uma hora.

Os óculos de realidade virtual devem ficar mais leves e confortáveis. Mas ainda exigirão muito mais intenção do que rolar os dedos pela tela de um smartphone. Vários estudos constataram que o americano médio olha o telefone entre 50 e 100 vezes por dia. Esse provavelmente não será o caso com o metaverso, mesmo quando os aparelhos de realidade virtual se tornarem mais leves.

Isso também ocorre porque usar a realidade virtual exige reservar um tempo para mergulhar em um espaço virtual com o mesmo tipo de intenção que você teria de para sentar-se e assistir TV à noite. É uma história diferente com a chamada realidade aumentada, na qual a informação é sobreposta à sua visão do mundo real e que provavelmente deve se tornar viciante com sua transição muito mais perfeita entre espaços reais e digitais.

“Usar o metaverso leva tempo para que consigamos nos conectar – e há o foco que você tem que gastar”, disse-me Wagner James Au, autor de The Making of Second Life, em fevereiro. “Requer muito tempo e atenção”. Você não pode, por exemplo, assistir a um filme e entrar no metaverso da mesma forma que você pode olhar o Facebook durante os momentos monótonos de diálogo na TV.

É verdade que, há 20 anos, os primeiros céticos da internet argumentavam que ficar on-line era muito complicado para se misturar com a vida cotidiana. Mas ainda não acredito na visão do Facebook de que as pessoas passarão grandes períodos do dia trabalhando, socializando e brincando no metaverso, pois a transição de uma realidade virtual abrangente para nossa realidade física é esquisita.

O metaverso que está sendo construído pelo Facebook tem sérios problemas que precisam ser resolvidos. Houve incidentes de assédio, comportamento assustador e um número preocupante de crianças visitando o espaço. E a denunciante do Facebook Frances Haugen alertou que o metaverso poderá ser viciante no futuro. Espero que não seja tão viciante quanto jogos de computador, que apresentaram menos incidentes de transtorno de dependência, afetando potencialmente entre 0,3% e 1% da população dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Alemanha, de acordo com um estudo de 2016.

As pessoas não se sentem mais atraídas ao metaverso como o faziam com o Facebook – isso inclui os defensores ferrenhos do metaverso “Muito poucos usam o metaverso com a frequência que afirmam que pretendem fazê-lo”, observou Au.

O paradoxo moral do Facebook é que sua qualidade viciante levou tanto a danos generalizados quanto a um sucesso financeiro surpreendente. A Meta teve um lucro de US$ 39,4 bilhões no ano passado, com faturamento de US$ 117 bilhões. Seu fundador é atualmente a 15ª pessoa mais rica do mundo. Mas seu futuro potencial lucrativo com o metaverso é uma questão em aberto quando usar a realidade virtual não percorre os mesmos caminhos de recompensa de dopamina em nossos cérebros como olhar para um smartphone dezenas de vezes todos os dias.

Como o Meta atingirá o mesmo nível de receita proveniente de anúncios do metaverso se as pessoas não o visitarem com tanta frequência quanto o Facebook ou o Instagram? Essa pergunta pode estar impulsionando um ceticismo mais amplo sobre o futuro potencial de negócios do metaverso: as ações da Meta caíram 43% desde o início do ano, um declínio mais acentuado do que o da Alphabet (queda de 22%) e o da Amazon (AMZN) (queda de 23%) na última derrota do mercado de tecnologia.

O metaverso continuará custando bilhões de dólares à empresa de Zuckerberg, mas em se tratando de criar viciados digitais, a Meta e outros novos aplicativos como o BeReal parecem estar indo rumo a uma direção mais saudável.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Parmy Olson é colunista da Bloomberg Opinion e cobre a área de tecnologia. Já escreveu para o Wall Street Journal e a Forbes e é autora de “We Are Anonymous.”

--Este texto foi traduzido por Bianca Carlos, localization specialist da Bloomberg Línea.

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