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Bloomberg Opinion — Os debates sobre a inflação foram dominados pelas consequências da pandemia e da reabertura econômica, e a maioria foi considerada transitória: os preços da madeira e de carros usados no primeiro semestre do ano, e o custo do frete marítimo mais recentemente. O aumento dos alugueis de imóveis também deve ser contemplado nos dados de inflação. Contudo, o risco de inflação mais subestimado é o aumento dos salários.

Mesmo com o número decepcionante de empregos criados no relatório divulgado na semana passada, a renda dos trabalhadores continuou a aumentar rapidamente em setembro, e esses aumentos são mais propensos a persistir. Não devemos esperar que a inflação retorne a 2% até que o crescimento dos empregos ou o aumento do salário desacelere.

Grande parte da discussão sobre o mercado de trabalho e como este pode contribuir para a inflação foi observada pelo ponto de vista da taxa de desemprego ou da redução de empregos em comparação com o período pré-pandemia de fevereiro de 2020. São cinco milhões de empregos a menos hoje do que naquela época. Se você considerar todos os empregos que teriam sido criados se a taxa de crescimento tivesse permanecido a mesma do início de 2020, a defasagem é de cerca de oito milhões. Se estamos tão longe desses níveis de emprego, pensa-se que o mercado de trabalho não pode ser uma das principais influências na inflação.

Isso é apenas parte do cenário. O aumento da renda – ou seja, a quantia que os trabalhadores levam para casa – é um fator mais relevante para a inflação que os níveis de emprego. Para isso, a folha de pagamento semanal agregada – essencialmente, o número de empregos vezes o número de horas trabalhadas vezes os salários – é a melhor medição. Em setembro, a folha de pagamento semanal agregada para trabalhadores não administrativos cresceu 10,7% ano a ano – sendo o sexto mês consecutivo de 10% de crescimento em termos anuais, uma dinâmica que não víamos há quase 40 anos. E isso não se deve a alguns resultados positivos anteriores – a taxa de crescimento mensal de setembro foi de 13,2% em termos anualizados, já que o rápido crescimento dos salários compensou o aumento decepcionante no número de empregos.

O único momento em que o crescimento da folha de pagamento semanal agregada atingiu dois dígitos foi entre 1968 e 1984, quando a inflação era um problema para a economia. Na década de 2010, a taxa de crescimento ficou próxima de 4,5%, sendo um aumento de 2% em empregos e 2,5% de em salários. No momento, a taxa está mais próxima de um crescimento de 4% em empregos e 6% em salários.

O crescimento do emprego pode desacelerar substancialmente, mas seria sinistro se ficássemos com um déficit de empregos entre cinco e oito milhões. Isso sugere uma mudança estrutural no mercado de trabalho que reduziria o crescimento da economia nos próximos anos. Por outro lado, se milhões de pessoas voltarem ao trabalho nos próximos meses, será um desafio para a inflação também, já que os novos trabalhadores terão renda para gastar, perpetuando o crescimento de renda de dois dígitos em uma economia com dificuldades para retornar à inflação de 2%.

Quanto ao aumento dos salários, houve um período no início do ano em que a tendência parecia estar limitada a trabalhadores de setores que pagam menos, como lazer e hospitalidade, que tinham alta demanda com a reabertura da economia. Contudo, o crescimento dos salários foi expandido a mais setores. Para trabalhadores do setor de educação e saúde, os salários cresceram 7,3% ano a ano em setembro. No setor de transporte e armazenamento, o crescimento dos salários está em um ritmo ainda mais acelerado – 8,6% ano a ano. E a taxa em que os trabalhadores estão deixando seus empregos continua aumentando, o que sugere que estão buscando salários mais altos em todo o mercado de trabalho. Não está claro em que medida o aumento de salários desacelerará (nem se ele desacelerará) enquanto o mercado de trabalho continua se estabilizando.

Esta é uma situação esquisita para as autoridades, porque ninguém em sã consciência vai sugerir que vai ser melhor se o crescimento dos empregos ou salários desacelerar. Anteriormente, pelo menos um deles deve desacelerar se a inflação tiver de ficar próxima da meta do Federal Reserve de 2%. Mesmo no final da década de 1990, a renda dos trabalhadores crescia a uma taxa próxima de 6% a 7% ao ano em um ambiente em que a inflação era controlada por um forte crescimento da produtividade. Se a desaceleração não ocorrer até o fim do ano, o Fed deve assumir uma postura significativamente mais hawkish no início de 2022.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Conor Sen é colunista da Bloomberg Opinion e fundador da Peachtree Creek Investments. Ele já contribuiu para a The Atlantic e para o Business Insider e reside em Atlanta.

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