James Stavridis: Não são as tropas norte-americanas que devem ajudar o Haiti

EUA precisará exercer a liderança, mas também deverá pedir que outros ajam coletivamente em termos de ações no país. Os EUA não precisam de mais uma guerra – dessa vez no Caribe

Manifestantes protestam após assassinato do presidente em 8 de julho.
Por James Stavridis
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(Bloomberg Opinion) – O assassinato do presidente sitiado do Haiti, Jovenal Moise, supostamente por um grupo de colombianos e haitiano-americanos, deixa o já malfadado país em turbulência mais uma vez.

Dois primeiros-ministros estão reivindicando o poder; a primeira-dama se recupera dos ferimentos em um hospital em Miami; e a equipe de segurança de Moise estão sob investigação por supostamente não agir em sua defesa. As gangues armadas perambulam pelas ruas enquanto a ordem civil – sempre sem forças no Haiti – desmorona aceleradamente.

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Qual é o panorama para o país mais pobre do hemisfério e qual é o papel dos EUA para ajudar a reduzir o caos?

Quando comandei o Comando do Sul dos Estados Unidos, no final dos anos 2000, eu visitava o Haiti com frequência. Embora as condições nunca tenham sido promissoras, havia pelo menos um vislumbre de civilização, criado em grande parte por uma força de paz das Nações Unidas liderada pelo Brasil, com tropas de diversos países – a maioria das Américas. A missão durou mais de uma década, antes de ser encerrada em 2017.

Embora os EUA provavelmente tivessem mais a perder com uma devolução da ordem no Haiti (principalmente co uma possível onda de refugiados, como ocorrido nos anos 90), o país não tinha tropas na missão da ONU. Considerando os compromissos dos EUA no Iraque e no Afeganistão, Washington precisava contar com outros países para estabilizar o Haiti.

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Cada vez que eu viajava para a capital, Porto Príncipe, ficava surpreso com a recepção acalorada dos haitianos, os sorrisos das crianças com roupas coloridas e o francês elegante falado pelos líderes nacionais nos palácios decadentes do centro da cidade.

Eu me reunia com o general brasileiro que comandava a missão da ONU para obter sua avaliação, que era sempre mais ou menos a mesma: “Almirante, a situação é praticamente estável, mas o cenário econômico é péssimo, as gangues e as drogas estão surgindo e, cedo ou tarde, a situação vai entrar em colapso”.

Eu voltava para a sede em Miami, e a equipe de operações analisava e revisava os amplos planos de contingência que tínhamos para lidar com uma onda de refugiados – incluindo interditar balsas no mar e devolver os imigrantes para o Haiti ou, no pior caso, levá-los a um abrigo para refugiados na Baía de Guantánamo, em Cuba. Estávamos constantemente preocupados, e quando deixei o comando para ir para a Europa em 2009, eu estava pessimista com o futuro do país.

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Mas de alguma forma o Haiti se sustentou, passando por surtos de diversos patógenos (principalmente cólera, devido à falta de saneamento básico, água fresca e possivelmente má administração das tropas de paz), terremotos – incluindo o desastre de 2010 que arrasou a maior pare da capital – furacões intensos e o aumento do tráfico de drogas.

A pergunta é se o Haiti pode continuar na calmaria enquanto as teorias da conspiração e a luta pelo poder ampliam o efeito do assassinato do presidente. Pela primeira vez em uma década conturbada, os líderes haitianos estão pedindo uma intervenção dos EUA, um pedido extraordinário considerando o histórico negativo das diversas incursões do país no Haiti nos últimos dois séculos (boa parte da população do Haiti hesita ao pedir ajuda para Washington).

Os EUA enviaram uma equipe diminuta de investigadores para ajudar a investigar o assassinato, mas isso não deve constituir uma intervenção unilateralmente e em grande escala, apesar dos perigos de um colapso completo e uma crise de refugiados simultaneamente.

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Os possíveis custos da missão são altos. A atitude colocaria em alerta toda a América Latina e a região do Caribe, o que seria justificado, considerando o histórico de intervenções militares dos EUA. Isso exigiria uma convocação custosa das tropas no exterior, justamente quando a administração de Joe Biden tenta encerrar as guerras no Oriente Médio. Além disso, seria uma missão difícil e arriscada, com métricas e resultados incertos – assim como no Afeganistão.

A melhor abordagem é claramente civil e multilateral. Na esfera civil, Washington pode enviar uma equipe operacional interagências com representação significativa dos Departamentos de Segurança Interna e de Justiça, o Federal Bureau of Investigation, a Agência Norte-Americana de Combate às Drogas, o Escritório de Assuntos Internacionais de Entorpecentes e Policiais do Departamento de Estado, a Guarda Costeira e outras agências que possam aproveitar as lições da intervenção anterior no Haiti e na Colômbia no auge de sua insurgência e dos desafios do narcotráfico.

Contudo, a parte militar dessa missão viria da ONU, com ênfase em países maiores da região que fizeram parte dos esforços anteriores de paz: Brasil, Argentina e Chile. Idealmente, esse setor ficaria sob tutela da Organização dos Estados Americanos, que traria outros atores. O Canadá também possui experiência significativa em operações de paz.

Obviamente será difícil realizar a missão, considerando os efeitos internacionais do covid-19, principalmente a disseminação da variante delta. O Haiti, poupado no início da pandemia, agora vê aumento nos casos e é o único país das Américas a não ter lançado um programa de vacinação ainda. Tanto o Brasil quanto o Chile enfrentam certo nível de desafios nacionais – o Brasil tem a pior crise do hemisfério e o Chile está às vésperas de uma revisão constitucional.

Os EUA poderiam oferecer apoio financeiro à missão e apoio logístico do Comando do Sul dos Estados Unidos e seu componente de suporte, o Exército sul dos Estados Unidos. Os EUA também poderiam possivelmente liderar a esfera marítima da missão, com o componente terrestre liderado por um general regional, provavelmente do Brasil.

Como sempre, no Haiti, a combinação de má liderança e má sorte conspiram para criar condições aparentemente intransponíveis. Pobreza, doenças e desastres naturais continuam assolando um país que merece um descanso. Todo o hemisfério deverá combinar esforços para ajudar a sustentar o Haiti e evitar o aumento do número de refugiados.

Os EUA precisará exercer a liderança, mas também deverá pedir que outros ajam coletivamente em termos de ações no país. Os EUA não precisam de mais uma guerra – dessa vez no Caribe.

Para entrar em contato com o autor deste artigo: James Stavridis – jstavridis@bloomberg.net

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