Investidor que apoiou o Facebook em 2005 mira startups brasileiras fora da onda da IA

Em entrevista à Bloomberg Línea, Kevin Efrusy, sócio da Accel, explica por que a febre de investimentos em IA nos mercados desenvolvidos permite um ambiente mais racional para o venture capital na América Latina

Pedestres em São Paulo: para Efrusy, ainda há empresas importantes sendo construídas em outras áreas, e elas não serão tornadas obsoletas pela IA. (Foto: Victor Moriyama/Bloomberg)
07 de Abril, 2026 | 06:00 AM

Bloomberg Línea — Enquanto a inteligência artificial domina as manchetes e atrai volumes sem precedentes de capital, Kevin Efrusy — conhecido no Vale do Silício como um dos primeiros investidores do Facebook — segue um caminho diferente.

O investidor americano avalia que “febre” da IA em mercados desenvolvidos, como os Estados Unidos, pode, paradoxalmente, criar um ambiente de investimento mais racional e menos superaquecido para empresas de outros setores na América Latina, que operam, muitas vezes, fora do radar de fundos globais.

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“A IA é obviamente muito real e está impactando todos os setores de uma forma ou de outra. A atenção que ela recebe é certamente bem merecida”, afirma Efrusy em entrevista exclusiva à Bloomberg Línea.

“Mas, para mim, que invisto na América Latina há uma década, o fato de a atenção estar em outro lugar é fantástico. Porque ainda há empresas realmente importantes sendo construídas em outras áreas, e elas não serão completamente desintermediadas ou tornadas obsoletas pela IA.”


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Segundo ele, entre as essas empresas estão negócios que atuam no segmento de consumo ou marketplaces, que serão ajudadas pela IA e terão as suas margens elevadas.

Com mais de 15 anos dedicados a investimentos no Brasil, Efrusy fez recentemente um follow-on na Azos, que atua no segmento de seguros, em uma rodada Série C co-liderada com a Kaszek de R$ 125 milhões, reafirmando a sua aposta no potencial de mercados emergentes.

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A visão do investidor americano contraria a lógica de muitos de seus pares, que buscam a próxima empresa de crescimento exponencial na região de São Francisco. Para Efrusy, a menor atenção dos investidores mainstream americanos é uma benção.

“O pior que pode acontecer a qualquer um desses setores é serem super financiados. Porque então haverá sete concorrentes para qualquer boa ideia”, diz o executivo que procura apoiar a construção de negócios com “economias racionais” e sustentáveis ao longo do tempo.

Kevin Efrusy: A IA é obviamente muito real e está impactando todos os setores de uma forma ou de outra. A atenção que ela recebe é certamente bem merecida

Efrusy é uma espécie de sócio “emérito” da Accel, uma das mais conhecidas gestoras de venture capital americana. Ele entrou na casa de investimentos no começo do século, após vender a sua empresa Curio, criada em 1997, para a IBM.

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Na gestora americana, ele foi um dos primeiros investidores a aportar capital no Facebook, hoje Meta Platforms, em 2005. Mais distante das decisões da Accel, Efrusy investe usando o seu próprio capital e conta com cerca de 30 startups na América Latina no portfólio.

No Brasil, o seu foco principal, Efrusy está no cap table de startups como Wellhub, Quinto Andar, Flash, além de ter investido na Pismo, adquirida pela Visa em 2023.

Oportunidades

Segundo o investidor, embora o ecossistema latino-americano não tenha capital para construir a próxima OpenAI ou Anthropic, há oportunidades significativas em outras frentes. Para ele, a IA será uma ferramenta poderosa para as startups locais.

“Há uma grande oportunidade de treinar uma IA única que se adapte a certos problemas que são exclusivos do Brasil, por exemplo”, diz. “Os pacientes brasileiros são muito diferentes dos pacientes americanos, o que permite que ecossistemas em desenvolvimento foquem em soluções nacionais e regionais”.

O momento também é bastante vantajoso para a região, que convive hoje com ecossistemas mais maduros. Efrusy lembra que quando começou a estudar a região, o mercado era incipiente e o sonho de muitos dos empreendedores ou de pessoas que saíam dos seus países era de morar fora e construir algo nos Estados Unidos.

Ao longos dos anos, ela acompanhou não só a expansão do ecossistema como um processo de “reverse brain drain”, quando profissionais qualificados que saíram para estudar fora retornam ao país de origem para, no caso em questão, investir na criação dos seus próprios negócios.

Associado a essa dinâmica, o Brasil foi capaz de criar uma infraestrutura favorável de negócios, com ambiente jurídico que oferece alguma previsibilidade, cultura colaborativa e uma regulamentação por negócios, que embasou a sofisticação do sistema bancário e o pioneirismo de projetos como o Pix.

“Agora, todo novo mercado emergente quer ser o próximo Brasil, o que é bastante interessante”, disse Efrusy, citando países como África do Sul, Turquia e Indonésia como exemplos. “Vocês precisam de uma reforma tributária. Se conseguirem essa reforma, o ecossistema será perigoso de verdade. Os reguladores são astutos e estão tentando promover o ambiente certo.”

O olhar do investidor

Efrusy está em um momento singular da vida e diz que deseja parar de investir. “Estou muito velho”, afirma, aos 53 anos. “Queria não ter mais que fazer isso. Mas faço como um favor porque quero que esses empreendedores tenham sucesso.”

Com essa perspectiva, as escolhas atuais carregam uma visão de impacto para além do financeiro. Na Azos, contou também a persistência do Rafael Cló, o co-fundador e CEO, em conversas que se desenrolaram por meses.

“Não é o tipo de empresa que você quer construir rapidamente para testar. É a vida de alguém. Eles estão confiando a você o bem-estar de sua família se algo der errado”, afirma Efrusy. “Parte do investimento veio pela persistência dele e a outra parte por ouvir a sua paixão pelos produtos que estava construindo e como genuinamente acredita que ajudará a tornar a vida das pessoas muito melhor.”

No ano passado, a startup mais que dobrou o faturamento e registrou R$ 100 bilhões em capital segurado. Para 2026, o objetivo é aumentar esse valor em mais R$ 80 bilhões.

O novo aporte de capital chega um ano após a Azos realizar uma rodada Série B de R$ 170 milhões, que marcou a entrada de Efrusy na startup. Na nova rodada, a Endeavor Catalyst passou a integrar o cap table.

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