Resgate do governo ao Banco de Brasília dependeria de concessões pelo DF, diz fonte

Resgate não é o cenário-base do governo federal, e só aconteceria caso haja um risco sistêmico e se o Distrito Federal aceitar demandas como ajustar as regras do fundo constitucional em que recursos federais são transferidos para o DF, segundo pessoas ouvidas pela Bloomberg News

BRB tenta cobrir um rombo deixado em seu balanço por transações que fez com o Banco Master, que colapsou em novembro (Foto: Victor Moriyama/Bloomberg)
Por Matheus Piovesana - Martha Beck
02 de Abril, 2026 | 02:04 PM

Bloomberg — O governo federal vai demandar concessões, caso tenha de resgatar o Banco de Brasília (BRB), que tem enfrentado problemas financeiros devido aos negócios com o Banco Master, disse uma pessoa familiarizada com o assunto ouvida pela Bloomberg News.

Um resgate não é o cenário-base do governo federal, e só aconteceria caso a administração perceba um risco sistêmico, de acordo com a pessoa, que falou sob anonimato ao tratar de discussões privadas.

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Mas oficiais do governo Lula estão preparados para sujeitar qualquer assistência a contrapartidas por parte do governo do Distrito Federal, que controla o banco.


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Uma das demandas seria para ajustar as regras do fundo constitucional em que recursos do governo federal são transferidos para o DF. A projeção é que o fundo desembolse cerca de R$ 30 bilhões para o governo regional neste ano.

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Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo e ex-ministro da Fazenda, não conseguiu sucesso em tentativas de revisar a fórmula que determina quantos recursos são direcionados ao fundo, uma proposta que poderia voltar à mesa como parte de qualquer pacote de ajuda ao BRB.

O banco tenta cobrir um rombo deixado em seu balanço por transações que fez com o Banco Master, que colapsou em novembro.

O BRB considera a ajuda federal como essencial porque precisaria dos bancos públicos para comprar alguns de seus ativos, bem como participar de potenciais empréstimos, segundo uma pessoa envolvida nas negociações.

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Leia também: BRB busca até R$ 8,9 bilhões para cobrir rombo deixado por negócio com o Banco Master

No mês passado, o BRB convocou uma assembleia extraordinária marcada para 22 de abril para votar um aumento de capital que o ajudaria a resolver o problema, e espera que a capitalização seja concluída até 30 de maio, segundo essa pessoa. O banco buscará um aumento de capital de até R$ 8,8 bilhões, segundo um comunicado.

O plano de capital do banco inclui um potencial empréstimo do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 4 bilhões e um fundo imobiliário com imóveis do DF que poderia levantar o mesmo montante de recursos.

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O banco também avalia vender fatias de algumas das empresas do conglomerado, e algumas das carteiras que obteve do Master.

O Ministério da Fazenda disse aos bancos federais, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, que não resgatassem o BRB, de acordo com pessoas a par do assunto, e para olhar para eventuais compras de carteiras do banco usando os mesmos critérios que bancos privados utilizariam, segundo uma das pessoas.

A Caixa analisou a carteira de crédito consignado do BRB, considerada saudável e líquida, mas as conversas não avançaram porque o BRB não enviou documentos a tempo, segundo outra pessoa envolvida nas negociações. O Banco do Brasil não olhou para ativos do BRB, disse uma terceira pessoa envolvida nas negociações.

Leia também: Colapso do Banco Master levanta dúvidas sobre capital e liquidez do BRB

Perdas com carteiras

O BRB estima ter recebido R$ 21,9 bilhões em carteiras do Banco Master, e que cerca de R$ 15 bilhões delas têm qualidade, uma das pessoas a par do negociações disse. Cerca de R$ 2,6 bilhões provavelmente se tornarão perdas.

O Banco do Brasil confirmou não ter participado de tratativas com o BRB e disse que potenciais negócios são sempre avaliados de acordo com a aderência à sua estratégia de atuação. Caixa, BRB, o Ministério da Fazenda e o governo do DF não responderam a pedidos de comentário.

No governo federal, oficiais também veem um potencial resgate do BRB como custoso do ponto de vista político.

Leia também: Daniel Vorcaro, CEO do Banco Master, nega fraude de R$ 12 bi em vendas ao BRB

Ajudar o banco significaria resolver um problema que não foi criado pelo governo Lula, e também traria o escândalo para dentro do governo — uma dinâmica que poderia pesar ainda mais sobre os índices de aprovação do presidente e afetar a campanha de reeleição, segundo pessoas a par do tema.

A estratégia do governo tem sido a de colocar a culpa sobre a crise do Master no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro e no presidente do Banco Central indicado por ele, Roberto Campos Neto.

Em um evento para lançar a candidatura de Haddad ao governo de São Paulo, Lula disse que o Master era o “ovo da serpente” de Bolsonaro e Campos Neto, e argumentou que o banco foi autorizado em 2019, sob seu antecessor. Bolsonaro e Campos Neto não foram implicados na investigação em andamento.

O rombo no balanço do BRB vem de carteiras de crédito que o banco comprou do Master a partir de 2024. O banco comprou cerca de R$ 13 bilhões em ativos que autoridades dizem ser fraudulentos, e substituiu a maior parte deles por outros ativos do Master, vistos como menos líquidos.

Diferente do Master, uma eventual quebra do BRB poderia criar riscos sistêmicos. O banco tem mais de R$ 30 bilhões em depósitos judiciais e é uma alavanca para a economia do DF, que é um dos dez estados mais ricos do país.

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