‘Insider trading’? Apostas sobre cessar-fogo no Irã elevam pressão sobre plataformas

Operações relacionadas à trégua movimentaram mais de US$ 170 milhões na plataforma de apostas Polymarket, gerando questionamentos e investigações; caso ressalta questões sobre os chamados ‘mercados de previsão’

Polymarket
Por Emily Nicolle
08 de Abril, 2026 | 03:38 PM

Bloomberg — Operações relacionadas a um cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã fizeram mais de US$ 170 milhões circularem pela Polymarket, tornando-se uma das maiores apostas geopolíticas na curta história dos mercados de previsão.

Agora, as consequências levantam as mesmas questões que têm perseguido essas plataformas há meses: se apostadores negociam com base em informações privilegiadas e se as plataformas conseguem liquidar corretamente os contratos que intermedeiam.

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Uma série de apostas sobre o Irã, feitas no momento exato por contas anônimas recém-criadas na Polymarket, já gerou centenas de milhares de dólares em lucro, levando analistas a vasculhar as negociações em busca de sinais típicos de atividade com informação privilegiada.

Alguns pagamentos ligados a apostas sobre o Oriente Médio agora foram congelados, e traders foram impedidos de sacar os ganhos enquanto usuários debatem o que constitui exatamente um cessar-fogo.

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Juntos, esses episódios expõem as dores de crescimento de um setor que ainda busca construir sua infraestrutura para acompanhar suas ambições.

Leia também: Por que os mercados de previsão precisam interromper apostas ligadas a guerras

Quase todos os casos recentes que levantaram preocupações sobre uso de informação privilegiada baseiam-se em evidências circunstanciais, sem prova definitiva apontando para insiders específicos.

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Na quarta-feira (7), a empresa de análise de blockchain Lookonchain destacou três contas recém-criadas que obtiveram mais de US$ 480 mil em lucros ao apostar em um cessar-fogo até 7 de abril e vender as posições a preços elevados.

O resultado final do contrato de 7 de abril segue em disputa, processo que obrigará a maioria dos traders a esperar mais de dois dias para receber os pagamentos. O volume total nesse mercado já supera US$ 60 milhões e permanece aberto para negociação enquanto a disputa é resolvida.

Os contratos evidenciam um problema persistente nos mercados de previsão, nos quais eventos do mundo real nem sempre se resolvem de acordo com critérios preto no branco.

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Além disso, o aumento de atividades suspeitas amplia a urgência para lidar com os novos riscos criados por esses mercados justamente quando Wall Street tenta legitimá-los e usuários comuns passam a aderir em massa.

Leia também: Kalshi se une à XP e inicia pelo Brasil sua expansão global com mercado de previsões

Mercados de previsão permitem fazer apostas binárias sobre eventos que vão de esportes a eleições e premiações. A Polymarket também utiliza sua operação fora dos Estados Unidos para listar contratos ligados a conflitos militares, o que gera forte escrutínio de legisladores. Há crescente impulso no Congresso americano para impor regras ao setor.

A Polymarket e sua principal rival, Kalshi, buscam combater o uso de informação privilegiada à medida que suas plataformas ganham popularidade.

Ambas firmaram parcerias com empresas terceiras para ajudar a monitorar o problema e endureceram regras próprias para definir com mais clareza quando apostas seriam consideradas baseadas em informação privilegiada.

A Polymarket não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

Resolução de disputas

Disputas sobre a forma de liquidar mercados são frequentes, ainda que afetem apenas uma pequena fração dos milhares de contratos oferecidos diariamente na Polymarket.

Na plataforma, qualquer pessoa pode propor como um mercado deve ser liquidado ao depositar uma pequena garantia. Se houver discordância, outro usuário pode contestar o resultado. O tema então vai a votação entre detentores de uma criptomoeda chamada UMA, enquanto traders debatem as evidências em uma sala pública no Discord.

Alguns traders argumentaram que o acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã se enquadraria como uma “pausa tática temporária”, o que não contaria segundo as regras da Polymarket.

Leia também: B3 entra no mercado de previsão e avalia permitir apostas em eleições, segundo fontes

Outros apontaram uma declaração do ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, afirmando que o Irã interromperia suas “operações defensivas”, sustentando que ele não descartou manobras ofensivas.

Outros contratos da Polymarket que acompanham datas de trégua até 31 de dezembro já foram liquidados como cessar-fogo, o que complica ainda mais a questão.

A busca por um padrão

Apostadores da Polymarket podem negociar anonimamente, já que a plataforma não realiza verificação de identidade, embora a atividade seja visível no site e nas transações em blockchain.

Traders também podem apostar com múltiplas contas, o que significa que perdas em outros mercados nem sempre ficam imediatamente aparentes.

O desafio de identificar atividade privilegiada em uma plataforma pseudônima ajudou a criar uma indústria emergente de investigadores digitais. Analistas passaram a associar alguns sinais típicos ao uso de informação privilegiada — como contas recém-criadas com apostas bem-sucedidas concentradas em um único mercado.

Um estudo acadêmico recente da Columbia Law School e da University of Haifa analisou o registro em blockchain da Polymarket em busca de padrões compatíveis com o uso de informação não pública, destacando transações que geraram cerca de US$ 143 milhões em lucros ao longo de dois anos. Os pesquisadores alertaram que operações bem cronometradas não são prova de acesso privilegiado.

Essa tensão ficou evidente na quarta-feira, quando a empresa de perícia em blockchain Bubblemaps destacou um conjunto de operações suspeitas, mas alertou que elas podem não ter sido feitas por insiders.

Três contas que haviam previsto corretamente ataques anteriores ao Irã fizeram novas apostas em uma trégua antes de 15 de abril, gerando mais de US$ 560 mil em lucros. Ainda assim, as contas não têm histórico perfeito, tendo perdido dinheiro em mercados semelhantes no passado.

O próprio cessar-fogo foi costurado em poucas horas, levantando dúvidas sobre quanto conhecimento prévio alguém fora do pequeno grupo de negociadores poderia ter tido.

“Não podemos afirmar com certeza que essas contas sejam de insiders”, afirmou a Bubblemaps em publicação nas redes sociais. “Ainda assim, o histórico de prever corretamente ataques surpresa contra o Irã sugere que podem ter acesso a informações melhores do que a maioria.”

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