Bloomberg Línea — O Grupo Fleury (FLRY3) assumiu a gestão do Femme Laboratório da Mulher, rede paulistana com 12 unidades voltadas à saúde feminina, com aquisição de R$ 207,5 milhões concluída em maio. Mas ainda falta integrar os sistemas e, principalmente, o resultado da rede aparecer no balanço, o que só ocorre em novembro, disse a CEO Jeane Tsutsui à Bloomberg Línea.
O Femme é a aposta mais recente do Fleury em saúde da mulher, público que forma a maior parte da clientela de medicina diagnóstica, segundo o grupo de medicina diagnóstica, que completou 100 anos em 2026.
Fundada há 52 anos e com 400 médicos, a GIP Medicina Diagnóstica, dona da marca Femme, faturou R$ 286,6 milhões em 2024, último dado divulgado no comunicado da compra, e passa a somar aos números do Grupo Fleury a partir do terceiro trimestre.
“Quando olhamos o percentual de clientes, mulher é a maioria. O Femme tem um relacionamento muito forte com a mulher em termos de reconhecimento da qualidade com ginecologistas”, afirmou Tsutsui.
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A demanda por rastreamento oncológico feminino cresceu desde 2025, quando o Ministério da Saúde passou a recomendar mamografia para mulheres de 40 a 49 anos, por decisão compartilhada entre paciente e médico.
É nesse segmento que atua o Femme, com análises clínicas e exames de imagem distribuídos por 11 unidades na capital e uma em Osasco.
O acordo anunciado em novembro de 2025 já previa que o passivo fosse descontado do preço final. O montante da dívida não foi divulgado.
Agendamento, cadastro e laudos ainda rodam em plataformas próprias, mas a transição corre sem contratempos, na avaliação da executiva.
“A gente já está fazendo a integração de Femme, está sob a nossa gestão”, afirmou Tsutsui.
Grupo Fleury
Novas compras
O Femme foi a 22ª aquisição do Fleury desde 2017, período em que a companhia aplicou R$ 2,2 bilhões em compras. As mais recentes ampliaram a presença regional do grupo, caso da Confiance, que trouxe 25 unidades em Campinas.
Com dívida líquida equivalente a 1,1 vez o Ebitda anual, o Fleury opera bem abaixo do limite de 3,0 vezes acertado com credores, o que preserva espaço para novos negócios.
Nem todos no mercado, porém, veem alvos à altura. Para o JPMorgan, a opcionalidade de fusões e aquisições do Fleury se esgotou, avaliação que sustenta a recomendação do banco para que investidores troquem os papéis da companhia pelos da BradSaúde (SAUD3), listada pelo Bradesco em maio para reunir seus ativos de saúde.
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Três critérios adotados desde 2021 filtram os alvos que chegam à mesa, segundo Tsutsui: encaixe estratégico, convergência cultural e disciplina de preço.
“Se a gente encontrar ativos nessas condições, podemos continuar. A equipe de M&A continua ativa, avaliando ativos”, afirmou a executiva.
A disciplina de preço, no caso do Femme, ainda depende de execução. O Fleury desembolsou 5,5 vezes o Ebitda da rede, acima do patamar em que a própria companhia é avaliada na Bolsa, observa o BofA, e projetou no anúncio da compra que o múltiplo caia para 3,3 vezes com a captura das sinergias.
O Citi mantém recomendação neutra e aponta como ponto de atenção o risco de desaceleração da margem no segundo semestre, com a integração do Femme entre os fatores.
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Sobre as recomendações de troca do papel, a CEO nota que a disposição do mercado muda conforme o custo do dinheiro. Na véspera (5) da entrevista, o Banco Central reduziu a taxa Selic para 14% ao ano.
“Custo de capital está mais alto e todo mundo pede para você ser mais defensivo”, observou.
“Ontem, obviamente, teve uma leve redução, mas os juros ainda estão elevados no país”, avaliou.
Lucro sobe, mas preço do exame cai
O trimestre sem o Femme superou as projeções do Citi, que estimava Ebitda de R$ 591 milhões e viu a companhia entregar R$ 612,9 milhões.
No segundo trimestre, o lucro líquido do Fleury somou R$ 221,8 milhões, uma alta de 45,7% na base anual, com receita bruta de R$ 2,51 bilhões, crescimento de 14,4%, sendo 12,1% orgânico.
Boa parte do ganho de margem, no entanto, veio da contabilidade. Dos 173 pontos-base de expansão na margem bruta, 131 se explicam pela redução da depreciação, efeito do corte nos investimentos em tecnologia.
A eficiência operacional aparece na maior linha de custo do grupo, pessoal e serviços médicos, que caiu de 31,1% para 29,9% da receita líquida.
“Enquanto a receita cresce 14,4%, o pessoal e serviços médicos crescem 10,3%, porque a gente tem uma diluição desta linha quando a gente traz mais exames”, explicou a CEO.
O crescimento também mudou de natureza. O volume de exames subiu 17,7% no atendimento ao cliente final e 21,2% no serviço prestado a laboratórios e hospitais, mas o valor médio cobrado caiu 2,3% e 7,4%, porque as redes compradas nos últimos meses fazem apenas análises clínicas.
“Um hemograma custa pouco e uma ressonância magnética tem tíquete maior. Exames de análises clínicas puxam o tíquete para baixo”, comparou Tsutsui.
Fora do diagnóstico, o desempenho foi desigual. O braço de clínicas e serviços cresceu 15,9% no trimestre, mas fechou o semestre com queda de 0,2%, porque no ano passado a companhia aplicou quatro doses de Zolgensma, medicamento de alto custo contra atrofia muscular espinhal.
Já a sociedade de oncologia com Bradesco e Beneficência Portuguesa dobrou o prejuízo, para R$ 5,4 milhões, com quatro unidades abertas.
“Já era previsto que a fase inicial tenha um período de resultado negativo e depois ela vai passar resultado positivo”, ponderou a executiva sobre a operação recém-aberta.
Visão do sell side
O JPMorgan avaliou os resultados do segundo trimestre como “bons”, mas manteve a recomendação underweight (exposição abaixo da média do setor) para FLRY3, com a ação a R$ 17,27 no fechamento de 6 de agosto.
Na leitura de Joseph Giordano, analista responsável pela cobertura de saúde do banco no Brasil, a ação está cara para um negócio de diagnósticos, negociada quase em paridade com uma rede hospitalar verticalizada.
A companhia negocia a cerca de 11,5 vezes o lucro projetado para 2027, praticamente no mesmo patamar da Rede D’Or, que o banco classifica como overweight.
Giordano aponta onde o crescimento do Fleury perde qualidade. A receita por exame caiu 2,3% na comparação anual, reflexo da migração do mix para análises clínicas e para as marcas intermediárias e básicas, exatamente o segmento em que o Femme se encaixa. Volume cresce mais rápido que preço. Por praça, o Rio de Janeiro destoou, com alta de 8,9%, contra 27,7% das demais marcas paulistas e 19,2% de Minas Gerais.
Parte do avanço em B2B e hospitais veio do surto de influenza no trimestre, receita que não se repete, notou o analista. O relatório também registra que o crescimento ocorreu apesar de um efeito calendário desfavorável e do impacto da Copa do Mundo, e destaca o ROIC (retorno sobre o capital investido) de 17,8% e o fluxo de caixa próximo de R$ 300 milhões.
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