Do K-pop ao skincare: cosmético coreano avança em farmácias do Brasil com Cimed e Nissei

Farmacêutica investe R$ 80 milhões em linha fabricada na Coreia do Sul, e oitava maior rede de drogarias do país traz marca exclusiva. Cosméticos do país asiático faturaram 67% mais no 1º semestre em lojas e sites de beleza premium, aponta a Circana

BOH Bio Heal inside an Olive Young store during a media preview ahead of opening in Pasadena, California, US, on Thursday, May 28, 2026. South Korean beauty giant CJ Olive Young Corp. is set to open its first ever US store in Pasadena, on May 29, as part of an ambitious push overseas to capture surging demand for K-beauty products. Photographer: Alisha Jucevic/Bloomberg
PUBLICIDADE

Bloomberg Línea — Os cosméticos sul-coreanos ganharam espaço no Brasil pelas redes sociais e pelo comércio eletrônico e agora disputam a prateleira das farmácias.

No início de outubro, a farmacêutica Cimed apresentou uma linha de skincare fabricada na Coreia do Sul, com investimento de R$ 80 milhões. Paralelamente, a rede Nissei começou a vender, com exclusividade no canal farmacêutico, uma marca nascida em Seul. Os dois movimentos ocorrem enquanto as grifes tradicionais de luxo perdem faturamento no varejo de beleza de prestígio.

PUBLICIDADE

O avanço já redistribui as forças no mercado brasileiro de beleza. O faturamento das marcas coreanas de cuidados com a pele cresceu 67% no primeiro semestre de 2026 no varejo de prestígio do país, segundo dados da consultoria Circana. No mesmo período, a receita das grifes tradicionais de luxo recuou perto de 10%. O conjunto que reúne marcas asiáticas, rótulos de apelo natural e clínico e marcas digitais brasileiras avançou 50%, como a consultoria já havia divulgado.


⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


Batizada de Mili, a linha da Cimed reúne sete produtos à base de exossomos, partículas produzidas pelas células e usadas em cosméticos para ajudar na renovação da pele. Os preços vão de R$ 100 a R$ 200, e a meta é faturar R$ 150 milhões no primeiro ano. Para apresentá-la ao varejo, a farmacêutica levou a Seul uma comitiva de mais de 200 pessoas, com representantes de redes que somam cerca de 60% das farmácias brasileiras.

PUBLICIDADE

A Nissei estreou 31 itens da Prettyskin, marca sul-coreana de cuidados com a pele presente há dez anos em Seul, em sua loja de beleza na avenida Paulista e no comércio eletrônico.

As duas iniciativas respondem a uma demanda em forte alta. As exportações de cosméticos sul-coreanos para o Brasil somaram US$ 54,36 milhões em 2025, mais de dez vezes o valor de 2020 (US$ 5,17 milhões), segundo dados do serviço aduaneiro da Coreia do Sul publicados em agosto pelo jornal Korea JoongAng Daily.

No primeiro semestre de 2026, as vendas ao Brasil cresceram 237,4% sobre o mesmo período do ano anterior, de acordo com o Ministério de PMEs e Startups do país asiático, citado pelo mesmo jornal.

PUBLICIDADE

As vendas em farmácias ainda ficam fora das estatísticas da Circana. O canal de prestígio monitorado pela consultoria abrange varejistas especializados, lojas de departamento, vendas diretas ao consumidor, comércio eletrônico e outros pontos premium, mas não inclui farmácias e drogarias. O consolidado do terceiro trimestre deve sair no início de novembro, informou a consultoria.

Leia também: Beauty tech vira ‘isca’ de farmácias para atrair a alta renda e elevar as vendas

Dentro do canal monitorado, a internet responde por 26% das vendas das marcas coreanas e cresce 1,6 vez mais rápido que as lojas físicas, segundo a Circana.

PUBLICIDADE

Para Ana Seccato, diretora comercial e analista de beleza da consultoria no Brasil, o interesse acompanha um movimento global de consumidores mais conectados e abertos a testar marcas e ingredientes novos, impulsionado também pela influência da cultura sul-coreana na música, no cinema e na gastronomia.

“As marcas coreanas conquistaram relevância ao trazer inovação constante, alta percepção de eficácia e rotinas de skincare que dialogam com a busca atual por cuidados mais personalizados e orientados por resultados”, afirmou Seccato à Bloomberg Línea.

Fórmula e fábrica coreanas

Presente em mais de 98% das farmácias do país e líder em antigripais e vitaminas, a Cimed escolheu a fabricante da Mili depois de três meses de imersão da equipe na Ásia, período em que mapeou mais de 60 fornecedores. A produção ficará inteiramente na Coreia do Sul.

“O diferencial não está só no selo K-beauty. Está na tecnologia, na formulação, na cultura de inovação e na capacidade que a Coreia tem de desenvolver novas soluções”, afirmou João Adibe, CEO da Cimed, em respostas enviadas à Bloomberg Línea.

Para manter o preço abaixo do importado, a farmacêutica conta com a escala. Segundo Adibe, ganhar volume permite reduzir preços e ampliar a distribuição de tecnologias ainda concentradas no topo da pirâmide de consumo. A Cimed atende diretamente mais de 90 mil pontos de venda.

Leia também: RD estreia loja conceito de olho em mercado premium e marcas da Coreia e do Japão

A ligação da Cimed com a Coreia começou no consultório. Em março de 2023, Adibe contou à Bloomberg Línea que a farmacêutica entraria no mercado de ácido hialurônico, usado em harmonização facial, com um parceiro sul-coreano e vendas voltadas a clínicas de estética. Hoje, a Milimetric, marca de preenchedores e injetáveis fabricada no país asiático, projeta faturar R$ 400 milhões em 2026, ante R$ 150 milhões em 2025, informou a empresa.

Adibe trata as duas marcas como pontas da mesma jornada. A Milimetric chega ao paciente pelo dermatologista, e a Mili leva o cuidado para a rotina do consumidor, com produtos de uso diário vendidos na farmácia, segundo o CEO.

“No fim, é unir as duas pontas: a credibilidade técnica do profissional com a escala e o desejo do consumidor”, disse Adibe.

Farmácia e procedência

No varejo, a Nissei, oitava maior rede de farmácias do país pelo ranking da Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias), seguiu outro caminho: em vez de criar uma marca, trouxe uma pronta.

A Prettyskin está há dez anos em Myeongdong, polo de compras de Seul, e chega com cremes 5 em 1, que reúnem cinco etapas da rotina em um só produto.

“Ainda existe uma percepção de que esses produtos são restritos a um público de maior poder aquisitivo. Com a Prettyskin, conseguimos ampliar essa oferta e tornar esse universo mais acessível”, afirmou Alexandre Maeoka, CEO da Nissei, em comunicado.

Além do preço, a rede usa a origem como argumento de venda. As embalagens trazem QR Code com informações sobre ativos e modo de uso, e a exclusividade reforça a farmácia como ponto seguro de compra, segundo a empresa.

Outras redes seguem na mesma direção. A RD Saúde (RADL3), maior do país, abriu loja-conceito de beleza premium em agosto, e a Drogaria Araujo passou a vender produtos coreanos em Belo Horizonte.

Em São Paulo, a Drogaria Iguatemi, voltada ao público de alta renda, inaugurou em agosto uma unidade em Moema com marcas exclusivas de beleza, muitas delas asiáticas, informou a empresa. Nessa operação, dermocosméticos, perfumaria e itens sem receita já respondem por cerca de 60% do faturamento, como mostrou a Bloomberg Línea em julho

O movimento repete o que ocorre nos EUA, onde a CJ Olive Young, maior varejista de beleza da Coreia do Sul, abriu em maio sua primeira loja fora do país. Para Adibe, a farmácia brasileira deixou de ser apenas o lugar do medicamento.

“O que queremos é que o varejo volte de lá não só conhecendo novos produtos, mas entendendo o tamanho dessa oportunidade e construindo essa categoria junto com a gente”, afirmou.

Leia também

‘Guerreiras do K-Pop’ simboliza a força do soft power da Coreia do Sul para o mundo