Cyrela vê alta de custos com guerra no Irã, mas impacto deve ser limitado, diz CFO

Miguel Mickelberg vê alta de insumos com guerra impactando petróleo, mas afirma que reflexo nas margens é contido; lucro cai 9% no trimestre por fatores pontuais, segundo a companhia

Avenida Paulista

Bloomberg Línea — A guerra no Irã elevou os preços do petróleo e acendeu um sinal de alerta para incorporadoras brasileiras: insumos atrelados ao combustível vêm registrando reajustes, e o mercado acompanha de perto o risco de pressão sobre as margens do setor.

Na Cyrela (CYRE3), o CFO Miguel Mickelberg admite que alguns insumos já encareceram, mas afirma que o efeito sobre os resultados ainda é limitado.

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“Temos impacto de custos em alguns insumos. Precisamos aguardar o desdobramento dessa situação geopolítica, para ver o tamanho desse impacto, mas acredito ainda que não vai ser tão relevante”, afirmou em coletiva com jornalistas após a divulgação dos resultados da empresa nesta quinta-feira (14).

A expectativa da empresa é que a guerra gere um aumento de cerca de 1% no Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) contra o movimento natural de alta, levando o indicador para um avanço na faixa entre 7% e 8% em 2026.

“A gente toma as precauções necessárias para que a empresa não corra riscos nesse cenário. Na média e alta renda, os contratos são corrigidos pelo INCC, por exemplo, o que ajuda a proteger o nosso resultado”, disse. “Tivemos, até agora, efeitos bastante limitados”.

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O cenário macroeconômico conta ainda com aumento da inadimplência entre as famílias e juros altos – sendo este último o maior ponto de atenção, na visão do CFO.

Ainda assim, Mickelberg não acredita que o cenário inibe as vendas ou o apetite da Cyrela para os lançamentos previstos para o ano.

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“Temos conseguido operar bem, com boas velocidades de venda e boas margens. Por enquanto, estamos conseguindo navegar bem no mercado e não vamos mudar o nosso planejamento para o ano.”

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Queda no lucro no 1º tri

O lucro líquido da Cyrela no primeiro trimestre de 2026 foi de R$ 297 milhões, queda de 9% ante o mesmo período do ano anterior. O CFO atribui o recuo principalmente a fatores pontuais.

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O primeiro fator foi o resultado financeiro. Em dezembro, a Cyrela pagou R$ 1 bilhão em dividendos extraordinários aos acionistas. Como o pagamento ocorreu na segunda metade do mês, o efeito sobre o quarto trimestre de 2025 foi de apenas 15 dias.

No primeiro trimestre de 2026, porém, a empresa operou os 90 dias inteiros com caixa mais baixo e dívida líquida mais alta, o que comprimiu o resultado financeiro, segundo o CFO. “Estava dentro do esperado para nós”, disse o executivo.

Outro elemento que pesou sobre as despesas do trimestre foi o encerramento de estandes de vendas durante o período de carnaval e férias escolares. A paralisação temporária de operações comerciais gerou um volume maior de depreciação concentrada no trimestre, elevando as despesas comerciais em 38% ante o primeiro trimestre de 2025.

O CFO classificou o efeito como atípico e sinalizou reversão nos próximos períodos. “Não acreditamos que esse efeito se repita ao longo do ano. [As despesas comerciais] deveriam voltar para um patamar um pouco abaixo”, disse.

O primeiro trimestre também foi marcado por uma redução no número de lançamentos da empresa, de 18 para 12 empreendimentos. A empresa lançou R$ 1,75 bilhão em valor geral de venda (VGV), queda de 48% sobre o mesmo período do ano passado.

Segundo Mickelberg, a questão foi um descompasso na base de comparação. O primeiro trimestre de 2025 havia sido atipicamente forte em lançamentos – R$ 3,4 bilhões, ante R$ 1,7 bilhão agora.

“Não é que a gente está sendo mais conservador e reduzindo muito o nosso lançamento. Estamos caminhando para ter um volume de lançamento dentro do nosso planejado e que não é tão diferente dos anos anteriores”, disse.

A fatia de alto padrão caiu dentro do VGV do primeiro trimestre, de 61% para 34%. Outro fator pontual, segundo o executivo, que deve se normalizar ao longo dos próximos trimestres.

A diferença é que a Cyrela vê mais espaço este ano para aumentar o foco na baixa renda. Hoje o segmento atendido pela marca Vivaz representa 30% do VGV da empresa, e a expectativa é de crescimento desse indicador para a faixa entre 35% e 39%.

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