Bloomberg Línea — A inteligência artificial já não é apenas um motor do mercado americano.
Cada vez mais, ela é o próprio mercado. Um grupo de 44 empresas ligadas ao ecossistema de IA concentra cerca de 45% da capitalização do S&P 500 e responde pela maior parte do crescimento dos lucros do índice, em um fenômeno que redefine a liderança corporativa em Wall Street.
Além disso, empresas de IA responderam por 71,1% do crescimento dos lucros do S&P 500 e devem sustentar mais de 60% dessa expansão até o fim de 2026.
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No entanto, o dado mais relevante para os investidores talvez não seja o domínio da Nvidia e das gigantes de tecnologia, mas o fato de o restante da economia corporativa americana finalmente começar a se recuperar após dois anos de desempenho inferior. Essa combinação pode mudar o tom do mercado rumo a 2026.
Segundo os analistas da Bloomberg Intelligence Nathaniel T. Welnhofer e Christopher Cain, “a IA já não impulsiona apenas o S&P 500; cada vez mais, ela é o S&P 500”.
A afirmação resume o peso que o setor ganhou nos resultados corporativos e na expansão das margens do índice desde 2022.
A IA responde por mais de dois terços do crescimento dos lucros
Os números mostram até que ponto a alta das bolsas depende do negócio de inteligência artificial.

O fenômeno não reflete apenas entusiasmo do mercado, mas uma aceleração real de receitas e margens.
As empresas de IA projetam crescimento médio de lucros de 40,7% entre o primeiro e o quarto trimestre de 2026, quase o triplo dos 13,6% esperados para o restante do índice. Por trás dessa expansão aparecem principalmente as fabricantes de semicondutores e os hyperscalers, ou seja, as grandes plataformas de computação em nuvem.
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O segmento de chips continua sendo o centro de gravidade do ciclo da IA. A Bloomberg Intelligence estima que os lucros do setor de semicondutores crescerão 122% em 2026, ante uma média já elevada de 44,4% em 2025.
Esse nível de expansão ajuda a explicar por que Wall Street continua tolerando valuations elevados em tecnologia. O mercado não paga apenas por expectativas futuras, mas por resultados concretos que seguem surpreendendo positivamente.
Demanda por chips
A magnitude do crescimento das vendas também reflete que os investimentos em inteligência artificial continuam acelerando, apesar dos temores de desaceleração econômica ou saturação do ciclo tecnológico.
As companhias ligadas à IA dentro do S&P 500 projetam crescimento de receita de 24,2% na comparação anual entre o primeiro trimestre e o fim de 2026, mais de três vezes os 7% esperados para o restante do índice.
Os semicondutores voltam a liderar, com crescimento estimado de vendas de 53,7%, seguidos pelos hyperscalers, com 24,4%, e pela infraestrutura de software, com 19,7%.
Para o mercado, isso significa que a narrativa da IA deixou de depender apenas de expectativas sobre ganhos futuros de produtividade. O crescimento já se traduz em vendas, expansão operacional e margens historicamente elevadas.
“As ações ligadas à IA aumentaram seus lucros em mais de 20% a cada trimestre desde o segundo trimestre de 2023”, destacam os analistas.
O restante do S&P 500 começa a reagir
Embora a concentração do crescimento na IA tenha gerado preocupações sobre a fragilidade da alta das bolsas, a Bloomberg Intelligence alerta que um segundo motor começa a surgir: a recuperação de setores cíclicos e não tecnológicos.
O restante do S&P 500 projeta crescimento de lucros de 13,6% entre o primeiro e o quarto trimestre de 2026, número significativamente menor que os 40,7% esperados para as empresas ligadas à IA, mas superior ao ritmo observado nos últimos dois anos.
Em receitas, as empresas fora do universo de IA registrariam expansão média de 7%, sustentada principalmente pelos setores de energia e materiais.
Essa mudança é importante porque reduz a dependência exclusiva da NVDA e do grupo de megacapitalização tecnológica.
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Se os setores que ficaram para trás começarem a contribuir para o crescimento enquanto o complexo de IA mantiver sua expansão de lucros, 2026 poderá se parecer mais com o boom de resultados corporativos do pós-pandemia do que com uma desaceleração tardia do ciclo econômico.
Em outras palavras, o mercado pode entrar em uma fase de ampliação do crescimento corporativo, algo que Wall Street espera há vários trimestres.
No entanto, a liderança da inteligência artificial também começa a mostrar tensões financeiras.
A construção de infraestrutura para IA está levando os gastos de capital das empresas de tecnologia a níveis históricos. Desde o primeiro trimestre de 2024, as companhias ligadas à IA quase triplicaram seu capex, passando de US$ 60 bilhões para uma projeção de US$ 166 bilhões no primeiro trimestre de 2026.
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Até o fim de 2026, esse valor pode alcançar US$ 251 bilhões.
Esse aumento começa a corroer os fluxos de caixa livres. A Bloomberg Intelligence afirma que a relação entre fluxo de caixa livre e capex caiu de 2,5 vezes em 2023 para 0,82 vez projetada para 2026.
“A questão agora é quão eficazes serão esses investimentos de capital para continuar expandindo o negócio”, alertam Welnhofer e Cain.
O ponto é relevante porque marca a próxima etapa do ciclo da IA: demonstrar que o gasto maciço em infraestrutura pode sustentar retornos suficientemente altos para justificar o ritmo atual de investimentos.
Margens recordes e uma nova estrutura de mercado
A inteligência artificial também está mudando a estrutura financeira do S&P 500.
Sem as empresas ligadas à IA, as margens do índice praticamente não teriam melhorado desde 2022. Enquanto a margem líquida do S&P 500 subiu de 12% para 14,1%, as empresas excluídas do universo de IA teriam visto suas margens cair de 11,4% para 11%.
Em contraste, as companhias de IA expandiram suas margens em 1.327 pontos-base, até atingir 33%.
Isso muda a forma como o mercado interpreta o crescimento corporativo americano. Não se trata apenas de receitas maiores, mas de empresas capazes de ampliar vendas enquanto expandem a rentabilidade ao mesmo tempo.
“As empresas de IA demonstraram capacidade de escalar receitas enquanto expandem margens”, conclui a Bloomberg Intelligence.
Para Wall Street, esse continua sendo o principal argumento por trás do domínio bursátil da inteligência artificial. Mas a verdadeira mudança talvez venha agora de outro lugar: o despertar gradual do restante da economia corporativa americana.









