Bloomberg — Os mercados brasileiros sofreram perdas acentuadas nesta segunda-feira (26) após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva protagonizar uma reviravolta surpreendente e derrotar Flávio Bolsonaro, o candidato de direita que muitos investidores preferiam.
O real despencou 11% nas negociações desta segunda-feira, enquanto alguns contratos de swap de prazo mais longo subiram quase 300 pontos-base, após atingirem os limites de oscilação.
O índice Ibovespa caiu 10% na abertura do mercado, acionando imediatamente um circuit breaker — a primeira vez que o mecanismo foi utilizado desde o início de 2020, quando a pandemia causava turbulência nos mercados globais. Essa também é a queda mais acentuada do índice desde aquele período, há seis anos.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
A operadora de bolsa B3 ampliou, nesta segunda-feira, os limites de oscilação para diversos mercados importantes, permitindo variações maiores do que o habitual no câmbio, nas taxas de juros e nos contratos futuros de índices de ações. As alterações aplicam-se apenas à sessão regular de negociação desta segunda-feira.
Ações de empresas com operações no Brasil, listadas nos Estados Unidos e na Europa, registraram quedas acentuadas. A XP recuou 52%, enquanto o Itaú Unibanco caiu 26% nas negociações de pré-abertura em Nova York. O Banco Santander e a Telefónica registraram quedas superiores a 3%.
Leia também: Virada de Lula reverte rali eleitoral e derruba ativos brasileiros antes da abertura da B3
Os títulos da dívida brasileira denominados em dólar recuaram ao longo de toda a curva, apresentando um desempenho inferior ao de pares de outros mercados emergentes; alguns papéis perderam cerca de 2,6 centavos de dólar em seu valor.
“A mensagem do mercado no pós-eleição é clara: não haverá trégua nos próximos quatro anos, e o país precisará enfrentar a questão fiscal”, afirmou Peter Varga, gestor sênior de portfólio na Erste Asset Management.
Lula — de quem o mercado não espera a adoção da austeridade fiscal necessária para que o Brasil possa reduzir as taxas de juros — obteve 51,8% dos votos no segundo turno. Bolsonaro alcançou 48,2%, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Flávio Bolsonaro solicitou a anulação do resultado, acusando o Supremo Tribunal Federal (STF) de alterar as regras ao determinar, de última hora, a extensão do horário de votação.
Apostas otimistas
Os investidores haviam se posicionado, em grande parte, para uma vitória de Flávio Bolsonaro, depois que sua vantagem inesperada no primeiro turno, no início deste mês, desencadeou uma forte valorização dos ativos.
O movimento atraiu bilhões em capital estrangeiro, impulsionado pela expectativa de um ajuste fiscal — amplamente demandado — que permitiria a redução das taxas de juros futuramente.
Leia também: Mercado se prepara para derrocada com virada histórica de Lula no segundo turno
Instituições como UBS Global Wealth Management, Morgan Stanley, JPMorgan Chase e Citigroup apressaram-se em emitir recomendações otimistas para os ativos brasileiros.
À medida que as pesquisas continuavam indicando um segundo turno apertado — enquanto Lula apresentava uma série de medidas voltadas ao eleitorado —, muitos começaram a reforçar estratégias de hedging para seus portfólios. Ainda assim, uma vitória de Bolsonaro era, em grande medida, o cenário considerado mais provável.
“Os mercados não estavam preparados para isso”, afirmou Anna Wu, estrategista de investimentos e fundadora da Floodlines Research. “Na minha visão, trata-se de algo mais profundo do que uma reação impulsiva de curto prazo; o mercado local enfrenta agora riscos reais relacionados à dívida pública e à desvalorização cambial.”
Após a vitória de Lula, o JPMorgan rebaixou a recomendação para a moeda e os juros brasileiros de overweight (acima da média) para market-weight (em linha com a média).
Problemas fiscais
Desde que assumiu o cargo em janeiro de 2023, Lula, um político de esquerda de 80 anos, tem buscado melhorar a vida dos trabalhadores brasileiros por meio do estímulo ao consumo e da continuidade de uma expansão de crédito que ganhou força durante a pandemia. Contudo, pouco foi feito para enfrentar os déficits crescentes do país — fatores que, segundo investidores, explicam por que o Brasil apresenta algumas das taxas de juros reais mais elevadas do mundo.
Os problemas fiscais do Brasil são profundos, e a pressão já se faz sentir em toda a economia. A inadimplência das famílias atingiu níveis recordes, milhões de empresas estão com pagamentos em atraso e produtores rurais enfrentam uma taxa de inadimplência sem precedentes.
Leia também: Vitória de Lula derruba cotação de futuros de soja com perspectiva de vendas à China
O próprio governo dispõe de pouca margem de manobra, com uma dívida pública superior a 80% do PIB e um orçamento majoritariamente comprometido com despesas obrigatórias.
As dúvidas sobre o compromisso de Lula em conter o déficit fiscal atingiram um ponto crítico no final de 2024. Uma onda de vendas levou o real a uma mínima histórica e atingiu diversos ativos, desde ações até dívida em moeda local e títulos denominados em dólar.
Ainda assim, os mercados brasileiros seguiram uma trajetória instável, porém, no geral, positiva durante o seu terceiro mandato. As taxas de juros elevadas, embora restritivas para a economia, tornam a moeda atraente para operações de carry trade — favorecidas por um dólar mais fraco e por um movimento de saída dos mercados americanos que tem impulsionado os mercados emergentes de modo geral.
“Esse cenário aponta para a continuidade das políticas atuais: mais gastos fiscais, inflação permanecendo em patamares elevados por mais tempo e um maior volume de investimento público”, afirmou Ales Koutny, chefe de taxas internacionais na área de fundos ativos da Vanguard.
“Diante do atual quadro fiscal no Brasil, há pouco espaço para cortes nas taxas de juros, e a necessidade de manter taxas de juros reais em patamares elevados deve persistir.”
Veja mais em bloomberg.com
----- Matéria atualizada às 10h50 para atualizar números e incluir informações sobre acionamento de circuit breaker