Bloomberg — Investidores globais aumentaram suas posições em ações latino-americanas no ritmo mais acelerado em uma década, o que leva os mercados da região a máximas de vários anos.
Os mercados de ações do Brasil, Colômbia e México registraram uma disparada nas compras por estrangeiros, o que levou o índice MSCI EM Latin America para uma máxima em onze anos e a um salto de mais de 20% em 2026.
Isso marca o início de ano mais forte desde 1991. O indicador completou na sexta-feira a nona semana consecutiva de ganhos, a sequência de altas mais longa desde 2017.
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Esse apetite ressalta como os investidores estão recalibrando suas apostas na região, há muito negligenciada, antes das eleições presidenciais no Brasil e na Colômbia, onde operadores veem potencial para mudanças nas políticas locais e taxas de juros mais baixas.
O rali ganhou novo ímpeto na sexta-feira, após a Suprema Corte dos Estados Unidos ter derrubado as amplas tarifas globais do presidente Trump, o que investidores dizem ser mais um fator favorável para a recuperação do mercado de ações da região.
“A América Latina está de volta ao mapa, e os investidores estão prestando atenção à região em um ritmo não visto em 10 a 15 anos”, disse Alejo Czerwonko, CIO para mercados emergentes nas Américas do UBS Global Wealth Management, em entrevista à Bloomberg News.
“Os mercados emergentes ficaram subalocados por um período prolongado, e essa conclusão se aplica de forma ainda mais intensa à América Latina.”

Embora os mercados emergentes estejam ganhando de forma ampla em meio à diversificação de investidores para fora de ativos americanos, os fluxos para a América Latina se destacam.
A rotação provavelmente receberá um impulso no curto prazo, à medida que a derrubada das tarifas de Trump coloca mais pressão sobre os riscos de déficit e incerteza política, pressionando ainda mais o dólar americano e impulsionando os ativos latino-americanos, afirmou Malcolm Dorson, gestor na Global X Management.
A onda de compras está aparecendo em fundos de índice negociados em bolsa dos EUA — os ETFs —, que investidores usam para construir rapidamente exposição a mercados estrangeiros. Os iShares Latin America 40, da BlackRock, conhecido pelo seu código de negociação ILF, atraíram um recorde de mais de US$ 1 bilhão apenas em janeiro, o que ajudou a elevar seus ativos totais, que agora giram em torno de US$ 4,3 bilhões.
O iShares MSCI Brazil, ou EWZ, o maior fundo listado nos EUA que acompanha ações brasileiras, registrou em janeiro sua maior entrada mensal de recursos em mais de uma década, consolidando-se como o principal instrumento para exposição ao maior mercado da América Latina.
Até mesmo o Duquesne Family Office, do bilionário Stanley Druckenmiller, estava entre os que aderiram ao movimento, adicionando cotas do EWZ pouco antes do salto de 17% do ETF em janeiro.
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Parte dessa aposta no Brasil se baseia na possibilidade de a eleição de outubro resultar na derrota do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Não sabemos quem vai ganhar, mas se a oposição vencer, há mais a ganhar do que a perder se Lula permanecer”, disse Thierry Larose, gestor na Vontobel.

Ainda assim, não é uma aposta simples. O surgimento do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, como candidato no final do ano passado provocou uma onda de vendas, já que sua candidatura minou as esperanças de que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, favorito do mercado, concorreria.
Outros investidores estão aguardando abril — quando os ocupantes de cargos públicos devem renunciar às suas posições atuais para concorrer à presidência — antes de fazer grandes apostas na próxima votação.
Investidores locais cautelosos
Estrangeiros evitam os ETFs e compram diretamente nos mercados locais. Em janeiro, as compras de estrangeiras atingiram o nível mais alto em pelo menos quatro anos nos mercados brasileiro, mexicano e colombiano, segundo dados de reguladores e analistas
Essa onda de compras, no entanto, contrasta diretamente com o sinal vindo dos investidores locais, que estão cautelosos com a incerteza política.
“De modo geral, investidores locais se preocupam mais com a política do que os investidores estrangeiros”, disse Benjamin Souza, chefe de estratégia para a América Latina da BlackRock.
Isso não significa que os investidores estrangeiros nunca se assustem com a incerteza política, mas “no fim das contas, o mercado tomará a decisão racional sobre onde estão os retornos potenciais”.
Além da política, porém, investidores veem uma oportunidade para que os bancos centrais de alguns países comecem a reduzir os juros, o que daria ainda mais suporte ao rali.
Operadores também esperam que o Banco Central reduza a taxa básica de juros Selic dos atuais 15% — o nível mais alto em quase duas décadas — a partir de março. No México, o Banxico, como é conhecido o Banco Central do país, manteve sua taxa básica de juros inalterada em 7% em decisão unânime, em 5 de fevereiro, pausando um ciclo de flexibilização que começou há quase dois anos.
“Seja por cortes de juros em alguns países, mudanças políticas pró-mercado ou impulso das commodities, seguimos com uma visão positiva para a região”, disse Ola El-Shawarby, gestora de portfólio da VanEck, que mantém posição acima da média (overweight) na América Latina.
--Com a ajuda de Philip Sanders.
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