Bloomberg — O governo do Chile vai elevar os preços dos combustíveis em até 54% na quinta-feira (26), alimentando expectativas de uma forte alta da inflação e provocando uma onda de compras antecipadas em postos de gasolina em todo o país.
O governo vai liberar um aumento nos preços dos combustíveis. Depois disso, o mecanismo de estabilização, conhecido como MEPCO, voltará a operar normalmente, disse o ministro da Fazenda, Jorge Quiroz, em entrevistas exibidas na noite de segunda-feira.
“Sei que são medidas difíceis”, afirmou Quiroz à Chilevisión. “Gostaria de atender a todas as necessidades, todas, mas não podemos. Precisamos dizer a verdade.”
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O anúncio em horário nobre ocorreu antes da reunião do Banco Central nesta terça-feira, na qual os formuladores de política monetária devem adiar um corte de juros esperado, diante da disparada dos custos de energia.
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Após meses projetando mais uma redução no Chile, o mercado agora precifica uma alta de 0,25 ponto percentual nos próximos três meses, aumentando a pressão sobre um crescimento já fraco em um país que importa quase todo o combustível que consome.
Os consumidores começarão a sentir o impacto a partir de 26 de março, quando o preço no atacado da gasolina comum (93 octanas) deve subir cerca de 44%, ou 370 pesos (US$ 0,41) por litro, enquanto a gasolina de maior octanagem (97) terá alta de 41%. O diesel, amplamente usado no transporte pesado, aumentará cerca de 54%, ou 580 pesos por litro.

As expectativas de inflação para um ano subiram mais de 72 pontos-base nesta terça-feira, para 4,73%, bem acima da meta de 3% do Banco Central e no nível mais alto desde abril de 2023.
Mudança de cenário
Com menos de duas semanas no cargo, o anúncio do governo do presidente José Antonio Kast pode desencadear protestos.
“Apesar de termos alertado as autoridades e recomendado uma abordagem gradual para os aumentos de preços, não fomos ouvidos”, afirmou a Confederação Nacional dos Proprietários de Caminhões em comunicado publicado em seu site. A entidade disse que está “avaliando as medidas a serem adotadas”.
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Consumidores correram aos postos no fim da segunda-feira e início da terça para abastecer antes da entrada em vigor dos novos preços, aumentando o temor de que eventuais atrasos na reposição possam gerar escassez.
Imagens na TV local mostraram pessoas enchendo grandes galões para armazenar combustível.
O Itaú agora projeta alta de 0,87% nos preços ao consumidor em março e de 1,1% em abril, enquanto a corretora Fynsa vê avanço semelhante, de 0,8% neste mês, com gasolina, transporte e educação entre os itens mais pressionados.
O Credicorp estima que a inflação encerrará o ano acima de 4%, na ausência de recuos nos preços dos combustíveis.
“A velocidade do ajuste também deve acelerar o repasse para outros itens do índice de preços ao consumidor, à medida que as tarifas de transporte sobem”, disse Andres Perez, economista-chefe para a América Latina do Itaú.
“O aumento das pressões de custos, somado à elevada incerteza geopolítica, tende a levar empresas e consumidores a reduzir gastos no curto prazo, consolidando a fraqueza da atividade no início do ano e pressionando para baixo nossa projeção de crescimento de 2,6% do PIB.”
Taxas de swap
As taxas de swap de um ano — um indicador das expectativas de juros — subiram 13,5 pontos-base, a caminho do maior fechamento desde abril. Já as taxas de dois anos avançaram na mesma magnitude. O peso chileno também chegou a cair até 1,3% nesta manhã.
O que dizem os estrategistas da Bloomberg:
Em um país altamente indexado e com mercado profundo e líquido de ativos atrelados à inflação, isso deve resultar em fortes valorizações desses títulos e swaps, além de uma queda nos rendimentos nominais. E isso é apenas o começo. O peso recua à medida que operadores ajustam expectativas para inflação mais rápida e crescimento mais lento.
Sebastian Boyd, estrategista macro
Quiroz detalhou um conjunto de medidas direcionadas para amenizar o impacto em alguns setores, incluindo subsídio mensal em dinheiro para taxistas; congelamento das tarifas de ônibus na capital Santiago e apoio equivalente ao transporte regional; manutenção de preços mais baixos para o querosene, usado por famílias de baixa renda para aquecimento; e crédito facilitado para taxistas converterem veículos para elétricos.
Para ajudar a financiar essas medidas, o governo suspenderá por pelo menos seis meses um benefício fiscal para compras de combustível industrial. A medida afeta diretamente setores como mineração e agricultura, que têm papel central na economia chilena.
“No caso da mineração, a medida é sensível porque eleva diretamente os custos de uma atividade intensiva em diesel, especialmente em minas a céu aberto”, disse Juan Carlos Guajardo, fundador da consultoria chilena Plusmining. Isso deve “afetar com mais força operações de médio porte ou marginais”.
O governo enviou ao Congresso nesta terça-feira o projeto que inclui o controle de preços do querosene.
América Latina
Com a disparada do petróleo, o Brasil optou por reduzir impostos sobre combustíveis para aliviar o impacto ao consumidor, em contraste com a abordagem chilena.
Antes da guerra, o Equador já havia eliminado subsídios sob o presidente Daniel Noboa, enquanto a Bolívia, sob Rodrigo Paz, vinha promovendo uma retirada gradual desses incentivos.
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Quiroz atribuiu ao governo anterior a falta de espaço fiscal para lidar com o choque de preços internacionais. Segundo ele, a atual administração vinha gastando US$ 140 milhões por semana para sustentar o mecanismo de estabilização.
O episódio representa um teste imediato para a capacidade de Kast de reduzir o déficit fiscal sem impor custos excessivos aos consumidores.
Segundo pesquisa da Cadem divulgada no domingo, quase metade dos chilenos acredita que o governo deveria subsidiar o MEPCO, mesmo que isso aumente o déficit fiscal. O mesmo levantamento mostrou queda de 6 pontos percentuais na aprovação de Kast em apenas uma semana, para 51%, ante 57%.
“São medidas duras, e sabemos disso, mas também queremos ajudar as famílias mais vulneráveis e a classe média”, disse Kast a jornalistas em Puerto Montt nesta terça-feira. “O que não podemos fazer é enganar as pessoas. Não podemos comprar popularidade com dinheiro que não temos.”
-- Com a colaboração de Antonia Mufarech e James Attwood.
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