Bloomberg Línea — A Bvlgari, joalheria italiana, conhecida mundialmente por seus designs considerados icônicos e pelo glamour associado ao seu nome, decidiu investir no laboratório de conservação e restauro da Pinacoteca de São Paulo — um espaço técnico, de execução minuciosa e quase invisível ao grande público — em uma de suas mais recentes iniciativas de patrocínio.
É justamente essa “invisibilidade” que a parceria pretende, aos poucos, desfazer.
“Muitas vezes, quando falamos sobre apoio de grandes empresas à cultura, são poucas as que enxergam um museu de forma mais ampla, além do espetáculo”, disse Jochen Volz, diretor geral da Pinacoteca, em entrevista recente à Bloomberg Línea.
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“O restauro nem sempre ganha o destaque para o grande público. E isso é muito bonito — enxergo como muito estratégico para realmente fazer uma diferença.”
A parceria entre a Bvlgari e a Pinacoteca foi anunciada em 2024 e tem como foco principal o Laboratório de Conservação e Restauro do museu, considerado referência nacional na área.
Valores não foram divulgados, e a perspectiva é que seja um contrato de longo prazo - pelo menos até o fim de 2027.
Segundo Volz, o apoio financeiro da marca italiana permite ampliar o alcance de trabalhos que, sem patrocínio externo, simplesmente não seriam viáveis.
Hoje, quase 50% das atividades programáticas e especiais da Pinacoteca dependem de parcerias do setor privado.
Para a Bvlgari, a escolha também tem seus objetivos.
“O luxo genuíno tem raízes no patrimônio — uma conexão duradoura entre arte e ofício”, disse Elodie Thellier, presidente da marca para a América Latina, à Bloomberg Línea.
“Desde 1884, mantemos o compromisso de preservar essa forma elevada de expressão cultural.”
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Segundo a executiva, que tem base em Miami, a joalheria enxerga no restauro uma extensão natural do que trabalha como seus próprios princípios.
“Em joalheria, relojoaria, design e restauro, cada elemento reflete o domínio do toque humano e a essência da identidade cultural. Honramos nosso passado ao mesmo tempo em que moldamos o futuro de um artesanato com significado. A mesma filosofia orienta nosso trabalho na cultura e na preservação do patrimônio artístico”, afirmou Thellier.
Assim como os artesãos da marca, com sede em Roma, buscam refinar técnicas transmitidas por gerações, os conservadores da Pinacoteca trabalham com um conhecimento altamente específico, que se constrói a partir de trocas constantes entre profissionais.
Em agosto de 2025, a parceria já produziu seu primeiro resultado concreto: um workshop realizado no museu, conduzido por especialistas italianos, que apresentaram aos restauradores brasileiros uma nova tecnologia de limpeza e cuidado de superfícies artísticas.
“Cada profissional aprende e divide com os demais”, diz Volz. “Na conservação, ninguém aprende só para si. O conhecimento se publica, se amplia, vai além de São Paulo.”
Para 2026, estão previstos novos encontros e intercâmbios técnicos, com ênfase em conservação digital — uma área em crescimento acelerado, que lida com obras e materiais que, em alguns casos, entraram na produção artística há menos de duas décadas.
A Pinacoteca, fundada em 1905 e ligada ao governo do Estado de São Paulo, tem no laboratório de restauro um de seus ativos mais valorizados pelo mercado de artes.
“Eu acredito que quase qualquer restaurador ou conservador no Brasil tem contato com o laboratório da Pinacoteca em algum momento — seja porque trabalhou aqui, participou de um seminário ou de um workshop”, afirmou Volz.
Do lado da Bvlgari, o Brasil faz parte de uma estratégia mais ampla de engajamento cultural na América Latina.
Além da Pinacoteca, a marca tem trabalhado desde 2023 com artistas brasileiros emergentes, como o artista digital carioca Gabriel Massan e os criadores Gabriella Garcia e Leandro Vigas, que integram o time criativo global da maison.
No México, a joalheria colaborou recentemente com a Corporação Frida Kahlo e a família Rivera em uma coleção de relógios que homenageia o legado dos dois ícones da arte mexicana.
Em escala global, a Bvlgari é parceira exclusiva da Bienal de Arte de Veneza pelas próximas três edições e patrocinadora principal da Whitney Biennial de 2026 e 2028, em Nova York.
No Brasil, o foco, por enquanto, permanece na Pinacoteca.
“Nossos esforços e investimentos estarão dedicados a tornar essa parceria o mais bem-sucedida e impactante possível”, diz Thellier. “Temos como objetivo abrir novos caminhos para o diálogo entre a cultura local e as comunidades globais.”
Volz, por sua vez, disse olhar para o futuro com uma expectativa específica: que o trabalho do laboratório de restauro ganhe visibilidade além do círculo profissional — e que isso ajude a sensibilizar o público brasileiro para o cuidado com o patrimônio cultural do país.
“Isso eu enxergo como uma missão muito preciosa”, disse.
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