
Bloomberg Línea — A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela reeleição chega ao primeiro turno deste domingo (4) apoiada em medidas do governo para aliviar o endividamento das famílias e fortalecer seu poder de compra.
Nas últimas três semanas, o presidente de 80 anos, candidato a um quarto mandato no que deve ser a última disputa de sua carreira, concentrou a agenda em medidas para quem deve ao banco e ao cartão de crédito e contra as casas de apostas
Nas pesquisas, o efeito foi uma oscilação dentro da margem de erro, sem desfazer o empate com o senador Flávio Bolsonaro (PL), seu principal opositor.
Levantamento do Datafolha divulgado na quinta-feira (1º) mostra Lula com 48% e Flávio com 45% em um eventual segundo turno, um ponto a mais para o presidente em relação à rodada anterior.
A margem de erro é de dois pontos. No primeiro turno, o petista tem 42%, contra 38% do senador. A pesquisa AtlasIntel para a Bloomberg News publicada na terça-feira (29) aponta cerca de 48% para cada um no segundo turno e 45% a 42% para Lula no primeiro.
Se nenhum candidato obtiver mais da metade dos votos válidos, os dois voltam a se enfrentar em 25 de outubro.
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O quadro é diferente do que se via em agosto. No início da campanha oficial, Lula era tratado como favorito em Brasília e na Faria Lima. Flávio ainda sentia o efeito dos áudios, revelados em maio pelo Intercept Brasil, em que pedia dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para financiar um filme sobre o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O senador também havia passado julho em conflito público com a madrasta, Michelle Bolsonaro, e não conseguiu atrair partidos do centrão para a chapa.
O que mudou
A vantagem do presidente começou a cair no fim de julho, quando o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal a investigar Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, por suspeita de tráfico de influência em programas de cannabis medicinal ligados ao Ministério da Saúde.
Lula não é alvo da apuração, e o filho nega irregularidades. Em entrevista à TV Globo no fim de agosto, o presidente disse: “Não vou tomar nenhuma atitude para proteger meu filho. Tenho certeza de que ele será inocentado.”
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A economia também perdeu fôlego. A atividade recuou 0,22% em julho, a segunda queda mensal seguida, segundo o IBC-Br, e a inadimplência no crédito pessoal atingiu o maior nível em 17 anos.
A mudança mais visível nas pesquisas ocorreu após a crise no Judiciário. No início de setembro, Mendonça, do STF, tornou públicas mensagens que, segundo a Polícia Federal, Vorcaro enviou a um número atribuído ao ministro Alexandre de Moraes. Na rodada seguinte da AtlasIntel, Flávio eliminou uma desvantagem de 4,5 pontos e empatou com Lula.
Moraes nega a relação com o banqueiro. A divulgação abriu uma disputa entre os dois ministros e levou o STF à maior crise de sua história recente.
Flávio, investigado pela PF por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e crimes tributários em razão das tratativas com Vorcaro, passou a tratar a eleição como um referendo sobre o tribunal. “Um voto em Lula é um voto em Alexandre de Moraes”, disse em comício em setembro.
Moraes chegou ao STF em 2017, indicado por Michel Temer, mas é visto por parte do eleitorado como aliado do presidente Lula desde que relatou o processo que condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe.
Segundo a Bloomberg News, um assessor da campanha de Lula avaliou que a disputa entre os ministros tende a beneficiar Flávio. Lula optou por pedir a divulgação integral das investigações e por defender uma reforma do Judiciário com mandato para ministros do STF. “Ninguém pode ficar 40 anos no mesmo cargo”, disse ao SBT.
A pesquisa AtlasIntel de meados de setembro mostrou que cerca de metade dos entrevistados espera que a crise no tribunal prejudique mais Lula do que Flávio. Na mesma sondagem, os eleitores aparecem divididos sobre quem está mais ligado ao caso Master: 41% apontam aliados de Bolsonaro e 40%, aliados de Lula.
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A aprovação do presidente caiu para cerca de 44% na rodada de 10 de setembro, o menor nível da série iniciada pela AtlasIntel em janeiro de 2024.
Além do presidente, os eleitores escolhem no domingo 54 das 81 cadeiras do Senado, a Casa com poder para processar ministros do STF por crime de responsabilidade.
A reta final no bolso
A resposta do governo foi uma sequência de anúncios voltados à renda e às dívidas das famílias. Em 9 de setembro, Lula reduziu tributos federais sobre gasolina, etanol e diesel para conter a alta do petróleo provocada pela guerra entre Estados Unidos e Irã. Em 17 de setembro, o governo elevou o valor mínimo do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691. O custo estimado é de R$ 5,8 bilhões neste ano e R$ 22 bilhões em 2027.
Flávio classificou a medida como “um ato de desespero”. “Ele faz algo que não fez em quatro anos de governo e, a 17 dias da eleição, acha que pode enganar as pessoas com o aumento do Bolsa Família”, disse em comício na Bahia.
Em 25 de setembro, Lula editou uma medida provisória que proíbe as apostas online em todas as modalidades. O texto vale por 120 dias e precisa do aval do Congresso para se tornar permanente. Pesquisa AtlasIntel para a Bloomberg News mostrou que 75% dos brasileiros apoiam a proibição.
No mesmo dia, o governo anunciou que vai destinar R$ 15 bilhões à compra de até R$ 150 bilhões em dívidas em atraso de pessoas físicas junto aos bancos. Um leilão em novembro vai selecionar carteiras com débitos de até R$ 10 mil, vencidos entre dois e quatro anos e meio.
O governo vai comprar as carteiras com desconto mínimo de 90% e oferecer condições melhores de pagamento aos devedores. Caixa e Banco do Brasil poderão conduzir as operações e administrar esses créditos. Dias antes, Flávio havia apresentado proposta semelhante, também com participação da Caixa.
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O alvo das medidas é um eleitorado sob pressão financeira. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), 82% das famílias tinham algum tipo de dívida em julho, a maior proporção desde 2010. Dados do Banco Central mostram que o pagamento de juros e amortizações consome quase um terço da renda familiar, recorde da série iniciada em 2005.
No entanto, a principal proposta de Lula para o eleitor com carteira assinada, o fim da escala 6x1, ficou parada no Senado. Uma comissão do Senado aprovou a emenda constitucional no início de setembro, mas o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, não a levou ao plenário.
O líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues, disse na época que a votação seria mais viável depois do primeiro turno, quando os senadores voltarem a Brasília.
A pergunta do mercado
Investidores acompanham a eleição com foco na política fiscal. O déficit nominal se aproxima de 10% do PIB, e a dívida bruta subiu cerca de dez pontos percentuais desde 2023, para 82,5% do PIB. Lula disse em agosto que não está preocupado com a dívida pública.
Em entrevista à Bloomberg News, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, afirmou que um eventual novo governo poderia melhorar o resultado primário em dois pontos percentuais do PIB ao longo do mandato, sem cortes profundos de gastos, com meta de superávit de 1,5% do PIB ao fim do período.
“A era da gratidão acabou”, disse o ministro, sobre a necessidade de entregar melhorias na qualidade de vida da população.
No fim de agosto, Lula recebeu 16 empresários e banqueiros para um jantar. Segundo dois participantes ouvidos pela Bloomberg News, convidados afirmaram que a política fiscal mantém os juros altos. O presidente respondeu que a relação entre dívida e PIB era mais preocupante em governos anteriores e que não mudaria a política fiscal à custa dos mais pobres.
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