Bloomberg — Em comício após comício, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem criticado veementemente os jogos de azar online em sua campanha por um novo mandato, culpando-os por esgotar o orçamento familiar e minar os gastos do consumidor que impulsionaram o crescimento durante seus governos.
Agora, com a eleição presidencial de 4 de outubro se aproximando e a disputa empatada, segundo pesquisas de intenção de voto, o líder de esquerda está transformando retórica em política.
Ainda nesta sexta-feira (25), espera-se que ele assine uma medida provisória que proíba as bets, como são conhecidas no Brasil as plataformas digitais de apostas, incluindo casas de apostas esportivas e cassinos online.
Para Lula, a medida é uma investida de última hora para ganhar vantagem sobre seu principal rival, o senador conservador Flávio Bolsonaro, e abordar as crescentes preocupações com o vício e o endividamento.
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As pesquisas mostram que os brasileiros apoiam de forma esmagadora a proibição das apostas, colocando o ex-sindicalista em confronto com um setor de grande poder financeiro, ao mesmo tempo em que o posiciona ao lado das famílias preocupadas com suas finanças.
No entanto, a proibição das apostas pode empurrar os brasileiros para o mercado de jogos de azar ilegais, ao mesmo tempo em que pouco contribui para resolver um problema de endividamento muito maior que afeta as famílias.
Fundamentalmente, Lula continua a insistir em um modelo de crescimento econômico impulsionado pelo consumo e pelo crédito, e não oferece nenhum plano com credibilidade para conter as próprias dívidas do governo — uma fonte fundamental das taxas de juros extraordinariamente altas do Brasil.
Uma enxurrada de faturas de cartão de crédito e pagamentos de empréstimos está afetando os consumidores, as empresas sofrem com o crédito caro e as perspectivas fiscais em deterioração do país estão alarmando investidores de São Paulo a Wall Street. O endividamento das famílias está em nível recorde; a dívida pública voltou aos níveis da era da pandemia; e as inadimplências corporativas atingiram o pico histórico.
Os gastos sob o governo Lula têm sustentado o crescimento, mas estão surgindo rachaduras: o consumo está caindo e economistas alertam que a expansão pode não durar muito mais tempo.
“É altamente provável que tenhamos uma desaceleração, possivelmente até mesmo uma recessão”, afirmou Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central do Brasil, em entrevista à Bloomberg News.
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Em julho, 82% das famílias apresentavam algum tipo de endividamento, a maior proporção desde o início da série de dados, em 2010, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo.
Quase 10% da dívida pendente de cartões de crédito estava vencida há pelo menos 90 dias, um recorde histórico nos dados do Banco Central. Um número recorde de brasileiros também estava recorrendo a saques a descoberto ou mantendo dívidas rotativas de cartão de crédito, que estão entre as formas mais caras de financiamento do país.
Com a taxa Selic em 13,75% e taxas de juros de cartão de crédito que podem ultrapassar 400%, as famílias brasileiras estão destinando quase um terço de sua renda ao pagamento de dívidas, um recorde nos dados do Banco Central desde 2005.
Modelo de consumo
Desde que reassumiu o cargo em 2023, Lula, de 80 anos, tem buscado melhorar a vida dos trabalhadores brasileiros por meio do estímulo ao consumo e do aproveitamento da expansão do crédito que decolou durante a pandemia.
Dinheiro barato inundou a economia em 2020, à medida que o governo distribuía auxílios de emergência a famílias e empresas, enquanto o Banco Central reduzia a Selic para o nível mais baixo de todos os tempos.
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Naquele mesmo ano, o lançamento do pix, acelerou a transição para os serviços bancários digitais. O surgimento de fintechs e de credores por meio de aplicativos atraiu mais brasileiros para o sistema financeiro convencional e facilitou o acesso ao crédito. O número de cartões de crédito ativos quase dobrou, passando de 134 milhões em 2020 para cerca de 254 milhões em 2025, segundo dados do Banco Central.
Mas a onda de endividamento deu lugar a uma ressaca, à medida que os responsáveis pelo Banco Central elevaram a Selic para conter o surto de inflação que acompanhou a reabertura da economia. A taxa atingiu 15% no ano passado — o maior nível em quase duas décadas —, com o crescimento dos preços ao consumidor ainda elevado.
Milhões de tomadores de empréstimos, como Antônio Carlos Ramalhete, professor da rede pública e personal trainer de 38 anos, foram pegos de surpresa por essa reviravolta. Cansado da rotina exaustiva de dois empregos, o paulistano investiu em um negócio em 2020 na esperança de acumular patrimônio.
Na tentativa de manter o negócio funcionando, ele esgotou o limite de cinco cartões de crédito e contraiu empréstimos, elevando sua dívida para R$ 500 mil antes de começar a colocar suas finanças em ordem no final do ano passado.
“Quando se fala em R$ 500 mil, a maioria das pessoas imagina que você pegou uma mala contendo R$ 500 mil e saiu por aí gastando tudo”, disse Ramalhete. “Não é assim. Há juros — juros de cartão de crédito.”
Embora os custos dos empréstimos estejam diminuindo gradualmente, os brasileiros ainda enfrentam uma taxa média anual de 60% no crédito ao consumidor e taxas de cheque especial que ultrapassam os 100%. Esses custos são particularmente onerosos em um dos países mais desiguais do mundo, onde dezenas de milhões vivem abaixo da linha da pobreza e é difícil resistir ao fascínio do dinheiro fácil.
O boom pós-legalização
Isso pode ajudar a explicar o rápido crescimento das bets no Brasil. Desde que as plataformas foram legalizadas em 2018, o mercado cresceu exponencialmente, tornando-se um dos maiores do mundo, com os brasileiros apostando até R$ 30 bilhões por mês no ano passado, segundo estimativas do Banco Central.
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Apesar dos esforços de Lula para conter o setor de apostas online, incluindo a imposição de regulamentações e a proibição de que beneficiários de programas sociais façam apostas, médicos alertam que o vício está aumentando, e os brasileiros culpam cada vez mais as apostas por arruinar suas finanças.
Pedro Neto, um vendedor de 34 anos, começou a apostar em 2021 para tornar os jogos de futebol mais divertidos. Posteriormente, ele se sentiu atraído por ofertas mais rápidas, no estilo de cassino, e ficou viciado no Aviator, um jogo popular. Pouco tempo depois, já estava tentando recuperar as perdas.
Neto contou ter gasto R$ 85 mil de uma só vez. Duas semanas depois, ele já estava apostando novamente, perdendo outros R$ 50 mil no banheiro de uma igreja em Sorocaba, onde mora.
Quando conseguiu controlar seu vício neste ano, com a ajuda de sua congregação, Neto já havia perdido R$ 300 mil e chegou até a vender seu iPhone para continuar apostando.
“Só se percebe o quão grave é a situação quando não resta mais nada, quando se chega a zero”, disse ele.
Suas dificuldades não são isoladas. Mais de 25 milhões de brasileiros fizeram apostas no ano passado, e pesquisas sugerem que os apostadores têm muito mais chances de enfrentar problemas financeiros. Um estudo do Insper constatou que as pessoas que começaram a apostar tinham quase 20% mais chances de entrar em inadimplência.
O aperto nas finanças das famílias está repercutindo desde os pequenos comércios familiares até as salas de reunião das empresas.
“Elas se alimentam mutuamente”, disse Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian. “Não se pode falar hoje sobre inadimplência do consumidor sem falar sobre inadimplência corporativa.”
Um número recorde de 9,2 milhões de empresas estavam inadimplentes em julho, segundo a Serasa Experian, com dívidas vencidas totalizando R$ 239 bilhões. A maior parte era composta por pequenas empresas, mas algumas das maiores empresas do Brasil também estão sucumbindo à pressão financeira.
Este ano, a gigante de biocombustíveis Raízen, a petroquímica Braskem e a rede de supermercados Companhia Brasileira de Distribuição, conhecida como GPA, passaram a reestruturar suas dívidas por meio de processos extrajudiciais.
Um alívio financeiro duradouro para famílias e empresas depende da redução dos custos de financiamento do Brasil. Esses custos estão sendo impulsionados para cima pelos temores de que a dívida pública esteja caminhando para níveis perigosos — e de que nem Lula nem seus adversários tenham apresentado uma estratégia concreta para controlar os gastos.
Em julho, o déficit fiscal nominal do Brasil atingiu quase 10% do PIB, ou cerca de US$ 235 bilhões. Mais de 90% desse déficit refletiu os custos com juros.
“A recusa em gastar nem que seja um pouco menos está aumentando enormemente o fardo para o Estado”, afirmou Adam Goldsmith, diretor para a América Latina da Greenmantle, uma consultoria.
Lula minimizou as preocupações com os níveis da dívida pública, atribuindo seu aumento às altas taxas de juros. Seu governo destaca que reduziu o rombo orçamentário do Brasil e prevê um pequeno superávit primário no próximo ano.
Mas economistas afirmam que isso fica bem aquém do necessário para conter a dívida, enquanto os esforços do governo para sustentar a demanda correm o risco de manter a inflação — e a Selic — em níveis mais elevados por mais tempo.
Aí reside o desafio para Lula — ou para quem quer que vença a eleição — à medida que a economia esfria: amenizar o impacto agora corre o risco de aumentar a conta mais tarde.
Para milhões de brasileiros como Ramalhete, o professor que luta para se manter à tona, essa situação é mais do que familiar.
“Sempre acreditamos que, no final do mês, vamos dar um jeito”, disse ele. “O que não levamos em conta são as coisas que acontecem ao longo do caminho.”
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