Bloomberg — O próximo governo não terá tempo a perder na implementação de mudanças abrangentes na política fiscal, afirmou Marcelo Kayath, visto como um dos principais nomes cotados para o Ministério da Fazenda caso Flávio Bolsonaro vença a eleição presidencial.
O rali dos ativos brasileiros após o desempenho acima do esperado de Flávio no primeiro turno reflete expectativas de uma mudança na política econômica, disse Kayath em entrevista à Bloomberg News. Ainda assim, a disparada não deve ser interpretada como um “cheque em branco” dos investidores, afirmou.
“O mercado está dizendo, por meio dos preços, que enxerga espaço para uma mudança de direção na política econômica brasileira”, disse Kayath, ex-chefe de banco de investimento do Credit Suisse no Brasil e atualmente sócio da gestora QMS. “É uma mudança de expectativa, não uma avaliação definitiva de um governo que ainda nem começou.”
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
A surpreendente vitória de Flávio no primeiro turno, no domingo (4), provocou euforia nos mercados locais, com investidores apostando que uma mudança de governo traria uma política fiscal mais austera e juros mais baixos.
Desde então, o senador consolidou o apoio de importantes partidos de centro e de direita. Ele segue à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva antes do segundo turno, em 25 de outubro, com 53% dos votos válidos, ante 47% do atual presidente, segundo pesquisa AtlasIntel divulgada na sexta-feira (9).
“Precisamos mudar a dinâmica das despesas, aumentar a eficiência do Estado e criar as condições para estabilizar a relação dívida/PIB ao longo dos quatro anos de mandato”, disse.
Além de Kayath, outros nomes cotados para comandar a economia brasileira em caso de vitória de Flávio incluem Mansueto Almeida, Roberto Campos Neto e Alexandre Bettamio, informou a Bloomberg News na quinta-feira, citando pessoas a par das discussões.
Leia também: De Kayath a Mansueto: os cotados para a economia de Flávio Bolsonaro, segundo fontes
Questionado se está em contato com a campanha de Flávio ou se aceitaria assumir o Ministério da Fazenda, Kayath não quis comentar conversas ou cargos específicos.
“Fico honrado com a confiança e com as pessoas que têm mencionado meu nome, mas o momento não é de discutir cargos”, afirmou. “É o momento de fazer uma discussão muito maior, sobre o futuro econômico do Brasil.”
Ajuste fiscal
Há sinais crescentes de problemas na maior economia da América Latina. Os gastos públicos levaram o déficit do país para perto de 10% do Produto Interno Bruto, mantendo a inflação bem acima da meta de 3% mesmo com a desaceleração do crescimento e o Banco Central respondendo com uma política monetária extremamente restritiva.
Embora Flávio Bolsonaro tenha prometido cortar gastos, reduzir a burocracia e baixar impostos, ele ainda não detalhou como pretende estabilizar a dívida pública recorde do Brasil. Alguns de seus assessores econômicos disseram a investidores que um governo Flávio buscaria um ajuste fiscal equivalente a cerca de 1,5% do PIB.
Kayath afirmou que uma redução dessa magnitude seria difícil, mas factível — e que cortes apenas nas despesas discricionárias não seriam suficientes.
“O ponto é que não podemos fingir que o orçamento brasileiro tem uma grande parcela livre para cortar”, disse. “Mais de 90% das despesas primárias são obrigatórias, portanto, não vamos chegar a um ajuste estrutural apenas cortando despesas discricionárias.”
Um ajuste equivalente a 1,5% do PIB exigiria atuação em uma série de frentes, segundo Kayath. Para começar, o governo teria de rever aumentos de despesas indexados à inflação, combater fraudes e reavaliar privilégios, incluindo salários excessivos no setor público, afirmou.
A administração também teria de passar um pente-fino em benefícios tributários e subsídios, disse. De forma mais ampla, deveria implementar um novo arcabouço fiscal que fosse crível.
“Não adianta criar uma regra sofisticada, se o mercado sabe que ela será alterada na primeira dificuldade”, afirmou Kayath. “A âncora precisa estar ligada a uma trajetória sustentável da dívida e ser acompanhada de medidas concretas para controlar a despesa.”
Congresso
Daqui para frente, as vitórias da direita no Congresso e em disputas importantes nos estados podem ajudar Flávio Bolsonaro a avançar sua agenda econômica, segundo Kayath. O Partido Liberal, do senador, terá 28 cadeiras no Senado a partir do próximo ano, formando a maior bancada da Casa.
“Uma bancada maior ajuda muito, é um ótimo ponto de partida, mas não substitui a capacidade de construir maioria”, afirmou. “Uma agenda econômica de reformas não será aprovada apenas com a força de um partido.”
Kayath também alertou contra a conclusão de que a queda do dólar após a eleição seja permanente. A moeda brasileira se valorizou quase 4% na última semana, o maior avanço entre as moedas de mercados emergentes.
“Eu diria que o real mostrou que existe espaço para uma mudança de percepção, mas ainda é cedo para dizer que a moeda mudou definitivamente de patamar”, disse. “O mercado está atribuindo valor à possibilidade de uma mudança na política econômica.”
Leia também: Euforia nos mercados depende de plano ainda incerto de Flávio Bolsonaro
Fora do mercado financeiro, Kayath, de 62 anos, é um violonista clássico de reconhecimento internacional, vencedor de competições no exterior e com vários álbuns gravados.
A ascensão de Kayath entre os nomes cotados para comandar a economia brasileira também vem acompanhada de uma trajetória política incomum. Ele apoiou Lula contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, na eleição de 2022. Além disso, no ano seguinte, foi considerado para uma vaga na diretoria do Banco Central, em meio à sua relação próxima com o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
“Cortar privilégios, combater fraudes, melhorar a eficiência do Estado e criar condições para juros menores não são pautas de esquerda ou de direita”, afirmou. “São pautas de responsabilidade com o dinheiro público.”
Veja mais em bloomberg.com
©2026 Bloomberg L.P.








