Bloomberg — O Banco Central deve promover um novo corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, para 13,75%, o último antes das eleições. A autoridade monetária manterá os próximos passos do ciclo de alívio monetário em aberto e adotará comunicação ainda cautelosa, diante da continuidade da desancoragem das expectativas de inflação, dizem analistas.
A avaliação é de que o Copom vai seguir dependente dos dados sem sinalizar o futuro do ciclo, considerando que as expectativas continuam acima da meta e as próprias projeções do comitê no horizonte relevante na reunião passada seguiram superiores ao objetivo perseguido, de 3%.
Desde a última reunião, as expectativas para 2027 medidas pela Focus subiram de 4,22% para 4,30%. Já para 2028, as estimativas seguiram estacionadas em 3,80%.
Além de deixar a porta aberta para os próximos passos, o BC também deve reforçar a linguagem de serenidade e cautela em um momento de alta incerteza. Na avaliação do Itaú Unibanco, a comunicação voltará a indicar “manutenção de restrição monetária adequada para convergência da inflação à meta”, de acordo com relatório assinado pelo economista-chefe e ex-diretor da autarquia, Diogo Guillen.
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Do ponto de vista do balanço de riscos, o Itaú espera que o Copom siga mantendo-o “assimétrico para cima, sem alterações substanciais”. O banco também estima que a projeção do BC siga em 3,2% no horizonte relevante, que inclui o primeiro trimestre de 2028.
Com relação aos riscos inflacionários, permanece um receio entre os agentes financeiros. Ainda que os números mais recente de inflação medidos pelo IPCA e pelo IPCA-15 tenham vindo aquém das estimativas, o que possibilitou, entre outros fatores, um alívio na curva de juros, o choque de oferta do petróleo e o El Niño, fenômeno climático que tende a pressionar preços de commodities, são motivo de atenção.
Um ponto de nuance que pode surgir no texto é a caracterização da atividade econômica pelo BC. Gustavo Vieira, economista da gestora Opportunity Asset Management, diz que a autoridade monetária pode reconhecer que a composição do PIB no segundo trimestre foi mais fraca do que as expectativas devido à contração do consumo das famílias, aspecto que seria lido como ‘dovish’ (mais inclinado à flexibilização monetária) na margem.
Leia também: BC deve cortar Selic a 13,5% em cenário de cautela na região, segundo Oxford Economics
“Acreditamos que o Copom ajustará sua avaliação do cenário atual, destacando que a desaceleração da economia está mais clara”, disse Caio Megale, economista da XP Investimentos.
Atualmente, o mercado de juros precifica um corte de 0,25pp na reunião desta semana e atribui chance de outra redução de igual ritmo em novembro. Recentemente, a curva tem tido alívio influenciada por um rali dos mercados locais com aumento das chances de uma vitória de Flávio Bolsonaro na eleição de outubro.
Veja comentários de analistas:
Gustavo Vieira, economista do Opportunity
- BC deve continuar com a postura dependente dos dados e não deve fechar a porta para novos cortes nem se comprometer com uma pausa
- “Entretanto, a piora das expectativas de inflação, o risco de aumento da volatilidade com a aproximação das eleições e as projeções acima do centro da meta mesmo com Selic parada até o início de 2027 nos sugerem que o BC deveria indicar que estamos mais próximos de uma pausa do que o mercado antecipa”
Diogo Guillen, economista-chefe do Itaú Unibanco, em relatório
- Comitê deve manter a porta aberta, sinalizando dependência de dados e ausência de forward guidance explícito
- Comunicação deve enfatizar serenidade e cautela diante do cenário de incerteza, desancoragem e riscos elevados, indicando manutenção de restrição monetária adequada para convergência da inflação à meta
Leonardo Porto, do Citi, em relatório
- Vê o Copom reiterando “serenidade e cautela” na condução da política monetária, além de manter uma abordagem mais dependente dos dados para as próximas reuniões
- Segue com cenário-base de que o Copom manterá a Selic em 13,75% até meados do próximo ano
Milena Landgraf, sócia e CIO macro da Jubarte Capital
- “Copom deve preservar a flexibilidade para os próximos passos, mantendo a mensagem de que a extensão do ciclo dependerá da evolução dos dados”
- “A reunião de novembro será particularmente importante, já que ocorrerá após as eleições. A trajetória das expectativas de inflação mais longas e do câmbio, muito sensíveis ao resultado eleitoral, deverão ter peso relevante na decisão”
Brendan McKenna, estrategista de mercados emergentes do Société Générale
- A combinação de desaceleração do crescimento e da inflação, além de um dólar fraco, dá espaço para que o BC corte a Selic em mais 0,25pp
- “Acreditamos que o tom cauteloso e hesitante, assim como a sinalização futura, serão mantidos”
- Política fiscal continua frouxa, preços do petróleo estão subindo e Fed deve iniciar em breve um ciclo de aperto monetário
Caio Megale, economista-chefe da XP
- Dados de inflação e de atividade vieram abaixo das expectativas desde o último Copom; choques de oferta, especialmente os preços do petróleo e um El Niño intenso, continuam sendo risco latente
- Choques de oferta, em um contexto de expectativas de inflação persistentemente elevadas e incertezas eleitorais, recomendam tom cauteloso
André Valério, economista sênior do Inter
- Trajetória da atividade econômica, que começa a dar sinais mais relevantes de impactar o mercado de trabalho, e a renda deverão permitir que o Copom prossiga com o ciclo de ajustes na Selic
- Espera que o Copom mantenha o ritmo pelo restante das reuniões do ano, com a Selic alcançando 13,25% em dezembro
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