Bloomberg Opinion — Mais dois resultados eleitorais regionais humilhantes no leste da Alemanha golpearam duramente a autoridade do chanceler conservador Friedrich Merz. Em vez de assumir a responsabilidade e renunciar, o impopular líder alemão pede paciência enquanto as reformas continuam.
O ex-advogado corporativo, já septuagenário, certamente não é um bom comunicador. Mas substituí-lo após apenas 16 meses no poder proporcionaria apenas uma catarse interna temporária, ao mesmo tempo em que daria a Vladimir Putin, da Rússia, o caos que ele almeja na Europa e abalaria a imagem da Alemanha como âncora da estabilidade continental.
Qualquer novo líder enfrentaria as mesmas dificuldades econômicas e demográficas e poderia ser levado a diluir as controversas reformas previdenciárias, justamente quando a Alemanha precisa manter o rumo. E, no entanto, não há como ignorar os resultados que destacaram a fragmentação política do país e o mal-estar em relação à agenda fiscal do governo.
Em Berlim, os eleitores abraçaram o partido anticapitalista Die Linke (“A Esquerda”, em tradução livre). Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, o partido de extrema direita AfD mais que dobrou seu apoio, chegando a 38% — e os conservadores de Merz não conseguiram atingir a barreira de 5% necessária para conquistar assentos no parlamento dessa região do nordeste, seu pior resultado em uma eleição estadual do pós-guerra.
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Esse resultado veio depois que uma votação na Saxônia-Anhalt, há duas semanas, deixou o AfD à beira de conseguir formar um governo na região.
O que o partido de Merz deve fazer em relação ao seu líder, que vem sendo alvo de críticas? O chanceler é um defensor ferrenho da Ucrânia, enquanto a AfD defende uma linha favorável a Moscou, mesmo enquanto a Rússia intensifica uma campanha de ataques híbridos em solo europeu. Isso por si só já é motivo para não agir precipitadamente.
Os conservadores de Merz também carecem de um substituto óbvio com o carisma popular do primeiro-ministro britânico Andy Burnham ou de Jürgen Klopp. Embora pareça improvável, o técnico da seleção alemã de futebol está sendo apontado por alguns como um futuro presidente (não chanceler) após suas declarações bem recebidas sobre o “patriotismo positivo”. Trata-se, em grande parte, de um cargo cerimonial.
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Por enquanto, os mercados de títulos estão, com razão, mais preocupados com a vizinha França, onde a dívida pública e os gastos estão fora de controle e os eleitores estão a caminho de eleger uma candidata de extrema direita, Marine Le Pen, como presidente no ano que vem. As próximas eleições nacionais da Alemanha só estão previstas para 2029.
Não se deve tirar conclusões precipitadas a partir de três disputas regionais que abrangem menos de 10% da população alemã. Os partidos radicais são mais populares no antigo leste comunista, onde os eleitores se sentem deixados para trás e marginalizados.
No nível federal, a AfD conta com o apoio de cerca de 28% do eleitorado, em comparação com 20% do bloco conservador de Merz. A AfD ainda está muito longe de chegar ao poder, ao contrário do Rassemblement National (Reagrupamento Nacional), de Le Pen.
A Alemanha está – tardiamente – tomando medidas para limitar a migração descontrolada. Mas, assim como na França, há uma sensação generalizada de que o país está em crise, mesmo enquanto os eleitores rejeitam as medidas econômicas do governo. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a popular governadora social-democrata em exercício, Manuela Schwesig (cujo partido faz parte de uma coalizão nacional com os conservadores), ajudou a conter o avanço da AfD ao se distanciar de algumas das reformas de Merz.
Os eleitores estão aderindo a partidos que parecem solidários às suas necessidades, ao mesmo tempo em que oferecem soluções aparentemente simples, mas economicamente imprudentes. A AfD quer sair do euro e reduzir o imposto de renda. A solução do partido A Esquerda para os aluguéis inacessíveis em Berlim é expropriar apartamentos de grandes proprietários.
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Merz ofendeu quase todo mundo em algum momento com comentários grosseiros sobre a ética de trabalho do país, os migrantes e assim por diante. No entanto, ele tem uma visão clara sobre as dificuldades econômicas do país.
Sem o gás russo barato, a demanda chinesa por bens industriais e os Estados Unidos como um guardião militar confiável, os alicerces do sucesso industrial e da segurança da Alemanha desmoronaram. As montadoras perderam competitividade, o generoso sistema de previdência social tornou-se insustentável e os custos trabalhistas estão dissuadindo as empresas de criar empregos.
É um ponto de partida nada invejável, o legado do mandato da chanceler Angela Merkel, quando a Alemanha deixou sua infraestrutura se deteriorar e se comprometeu a eliminar gradualmente a energia nuclear.
Merz tomou a decisão certa ao reformular os limites constitucionais de longa data sobre a dívida pública para financiar as forças armadas e reparar a rede ferroviária, que está em péssimo estado. Mas isso lhe custou credibilidade, pois ele havia se oposto a um aumento do endividamento e mudou de ideia após ser eleito.
Suas reformas previdenciárias são ambiciosas e valiosas. Elas alinhariam a idade de aposentadoria ao aumento da expectativa de vida e fortaleceriam o sistema previdenciário, incentivando os alemães a investir mais nos mercados de capitais — mudanças que há muito eram necessárias.
No entanto, tais medidas só darão frutos ao longo dos anos, mesmo que haja sinais de que a economia está começando a se recuperar. Por enquanto, os alemães, que geralmente não possuem imóveis nem ações, temem que suas proteções sociais estejam sob ataque. Merz também quer limitar a aposentadoria antecipada e tornar mais difícil se ausentar por motivo de saúde.
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A última vez que a Alemanha foi chamada de “o homem doente da Europa”, há mais de duas décadas, o então chanceler Gerhard Schröder combateu o desemprego crônico com uma reforma abrangente do mercado de trabalho.
Desde então, seu legado foi manchado por seus laços estreitos com a Rússia. Apesar de gostar de ternos Brioni e charutos cubanos, o social-democrata era filho de uma faxineira e tinha uma imagem de homem do povo. Mas ainda assim foi politicamente corajoso o suficiente para aprovar políticas econômicas que certamente custariam votos ao seu partido, perdendo por uma pequena margem para Merkel em 2005.
Schröder teve a sorte de não ter que lidar com redes sociais tóxicas, nem com um partido de extrema direita que incitasse o ressentimento. Merz precisa manter o rumo na economia para mostrar que os partidos tradicionais ainda são capazes de cumprir suas promessas, mesmo que isso traga sofrimento. Depois, talvez ele deva pensar em abrir caminho para alguém mais hábil em se conectar com os eleitores.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Chris Bryant é colunista da Bloomberg Opinion que cobre empresas industriais na Europa. Anteriormente, trabalhou para o Financial Times.
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