Bloomberg Opinion — Finalmente, aconteceu o que alguns diziam que nunca seria possível: a Meta Platforms (META) foi forçada a fazer mudanças reais para proteger os milhões de jovens que usam seus produtos.
Não se engane: embora o valor que a empresa concordou em pagar para encerrar uma ação movida por vários estados — até US$ 18 bilhões — seja alto, sua importância é ofuscada pelos efeitos positivos de longo prazo que esse chamado “momento Big Tobacco” (em referência ao ponto de virada em que as empresas de tabaco passaram a ser responsabilizadas pelos malefícios dos cigarros nos anos 1990) terá sobre o bem-estar dos adolescentes.
O apelo simultâneo da Meta para que outros aplicativos de mídia social sejam obrigados a seguir seu exemplo pode parecer oportunista, mas também é totalmente justo.
Meu profundo ceticismo em relação ao acordo proposto pela Meta começou a diminuir — embora não completamente — à medida que fui analisando os detalhes das alterações que ela prometeu fazer em seus aplicativos, como o Facebook e o Instagram: limites diários de tempo; nenhuma notificação durante o horário escolar; desativação da reprodução automática; feeds não algorítmicos; bloqueio da meia-noite às 6h da manhã, para citar alguns.
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Ainda melhores são as medidas de restrição por idade para bloquear usuários menores de idade e proteger ainda mais os adolescentes. Outras promessas incluem o fim dos filtros “embelezadores” e esforços para limitar o efeito de dopamina das “curtidas” ao ocultá-las.
Um pensamento que tive ao ler essas mudanças foi simplesmente: será que posso ativá-las em minha conta também?
É claro que a Meta não deve receber muito mérito por isso. Afinal, foi somente após perder processos emblemáticos relacionados ao vício — com vários outros ainda pendentes — que os executivos repentinamente se dispuseram a concordar com configurações para os aplicativos da Meta que, segundo todos os indícios, já deveriam ser padrão há muito tempo.
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Em uma visão mais ampla, o acordo será visto como mais um indício de que a defesa que as empresas de tecnologia vêm usando há muito tempo para se isentar de responsabilidade — que a Seção 230 da lei de Decência nas Comunicações dos Estados Unidos protege da responsabilidade pelo conteúdo publicado pelos usuários — tem seus limites.
Embora uma decisão judicial que estabelecesse um precedente tivesse sido mais impactante, o acordo pelo menos demonstra que a Seção 230, nas palavras do procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, não é um “escudo impenetrável”.
Haverá preocupações de que as medidas não sejam suficientes. É revelador que as mudanças se apliquem apenas a adolescentes dos EUA (embora não nos estados do Novo México e da Flórida, pois esses estados não fizeram parte do acordo multiestadual).
Se a Meta está tão comprometida com seus objetivos de segurança juvenil, por que não adotar essas medidas de bom senso globalmente?
Outros argumentarão que tornar muitas delas opcionais — mesmo como configurações padrão — as torna ainda mais fracas. Segundo a Meta, no entanto, as opções padrão podem ser bloqueadas pelos pais. Muitos podem se sentir pressionados a flexibilizar as restrições, embora certamente seja aí que termina a responsabilidade da Meta e começa a dos pais.
O fato de a Meta usar a expressão “acordo” em vez de “convenção” define sua reformulação cínica, mas típica, desse momento: a empresa apresenta-se como tomadora da iniciativa, em vez de como alvo de uma punição. Esse foi o menor de não apenas dois, mas de vários males.
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Essas mudanças podem ter um grande impacto na receita publicitária da Meta, mas podem ter evitado o desfecho muito mais drástico de uma proibição total do uso de redes sociais por jovens — sem falar no risco de US$ 1,4 trilhão que a empresa enfrentava com essa ação judicial conjunta, conforme calculado pela Bloomberg Intelligence.
Além disso, observou a analista da BI, Suchi Trivedi, a remoção dessa ameaça jurídica existencial também pode facilitar para a empresa a captação de recursos por meio de dívida para financiar seus esforços em inteligência artificial.
Sejam quais forem as consequências, os investidores agora têm um pouco da clareza tão almejada, e as ações subiam cerca de 1% na quarta-feira (26).
Do ponto de vista financeiro, o valor não é oneroso — aproximadamente o que a Meta registrou como lucro operacional somente no segundo trimestre — e, com os pagamentos distribuídos ao longo de 10 anos, o impacto é mais do que administrável.
Portanto, não exageremos nos elogios. De fato, talvez a característica marcante do acordo seja sua astúcia. Entre suas cláusulas, US$ 5,3 bilhões do pagamento serão retidos se seus maiores concorrentes pela atenção dos adolescentes — YouTube e TikTok — também não chegarem a um acordo em seus processos no valor de US$ 5,3 bilhões cada e não estabelecerem o tipo de limites de uso que agora se aplicarão aos produtos da Meta.
Se esses aplicativos concordarem — nenhum havia se pronunciado até o meio-dia da quarta-feira — a Meta tornará seu limite de uso diário ainda mais rigoroso, reduzindo-o para apenas uma hora (assim como farão esses outros aplicativos).
Claramente, o YouTube e o TikTok terão mais a perder, pois os adolescentes hoje usam esses aplicativos por mais tempo do que o Instagram e o Facebook.
É bem possível que um limite de uma hora no YouTube — um aplicativo que 76% dos adolescentes dos EUA usam pelo menos uma vez por dia, com 17% afirmando que o usam “quase constantemente” — possa ser um impulsionador de crescimento para o Facebook, que está estagnado e que apenas 20% dos adolescentes dos Estados Unidos dizem acessar diariamente, de acordo com dados do Pew Research.
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O Instagram pode passar por um impulso semelhante. De acordo com dados da eMarketer de maio de 2026, usuários de redes sociais dos EUA com idades entre 12 e 17 anos passavam, em média, uma hora e 36 minutos no TikTok por dia, mas apenas 34 minutos no Instagram.
É muito provável que um adolescente que talvez tenha passado a noite inteira no TikTok recorra ao recurso Reels do Instagram em vez de largar o celular.
Portanto, a Meta está tirando proveito da situação, apesar do impacto ainda indeterminado em seu modelo de publicidade. Não sou ingênuo a ponto de achar que a empresa não tenha encontrado várias brechas — ou “inovações”, para ser mais generoso — ao longo do caminho que protegerão esse negócio.
Os observadores do setor devem se lembrar de como a empresa gritou aos quatro ventos contra a decisão da Apple de dar aos usuários mais poder para bloquear o rastreamento de anúncios, chegando ao ponto de publicar anúncios de página inteira em jornais chamando a medida de “devastadora”.
Em poucos meses, a empresa lançou soluções técnicas alternativas que deixaram seu negócio de publicidade mais lucrativo do que nunca. Talvez a Meta consiga convencer os anunciantes a pagar mais para garantir que alcancem os adolescentes antes que seus limites diários — ou o modo noturno — entrem em vigor.
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Esse acordo representa um progresso tangível e é a prova de que um processo bem elaborado pode responsabilizar as empresas de tecnologia. É um progresso que muitos previram que, na melhor das hipóteses, ficaria atolado em recursos intermináveis — um progresso que poderia ter sido frustrado pela oposição de ativistas de privacidade equivocados, cujo papel ultimamente parece ser descartar qualquer tentativa de proteger os jovens, sem quase nunca sugerir alternativas produtivas.
A Meta, apesar de todas as suas falhas e sob pressão óbvia, elaborou uma lista impactante e tecnicamente viável de maneiras de finalmente começar a corrigir a situação. Seus executivos têm todo o direito de incentivar seus concorrentes a fazer o mesmo, mesmo que suas motivações não sejam nem um pouco altruístas.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Dave Lee é colunista da Bloomberg Opinion e cobre a área de tecnologia. Foi correspondente em São Francisco no Financial Times e na BBC News.
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