Bloomberg Opinion — Quando as organizações de futebol de todo o mundo se reuniram para encontrar uma solução para o problema de Gianni Infantino, chegaram a uma única resposta: um boicote. Embora essa medida drástica possa ser o trunfo mais forte que têm à disposição, são as mulheres — e não a FIFA — que pagariam o preço imediato.
Lideradas pela UEFA, da Europa, as entidades regionais que regulam o futebol estão indignadas com o plano secreto do presidente da FIFA de desmembrar suas operações comerciais em um negócio de US$ 4,2 bilhões com investidores privados.
Embora Infantino tenha cedido e cancelado o processo, a possibilidade de um boicote em todas as competições da FIFA continua em pauta, já que alguns membros esperam pressioná-lo a deixar o cargo.
Ao considerar o impacto de um possível boicote, a maioria pensará na próxima Copa do Mundo masculina, daqui a quatro anos — um prazo suficiente para substituir Infantino e colocar as coisas de volta nos eixos.
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Alguns também podem estar pensando na próxima Copa do Mundo de Clubes masculina, em 2029. Mas basta dar uma olhada no calendário da FIFA para saber quais competições seriam as primeiras a ser canceladas, e quase todas elas são disputadas por atletas femininas.
A Copa do Mundo Feminina deve acontecer no Brasil em 2027 e representa o maior palco do futebol feminino. Este mês de outubro deve ser repleto de partidas das eliminatórias para as seleções que ainda não se classificaram para o torneio, incluindo vários jogos com a vice-campeã da Copa de 2023, as “Lionesses” da Inglaterra.
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Há também a Copa do Mundo Feminina Sub-20 e a Copa do Mundo Feminina Sub-17 no final deste ano, ambas competições vitais para que as seleções nacionais descubram e desenvolvam jovens talentos promissores.
Para países como os EUA, que não se qualificam para participar de grandes torneios europeus como a Eurocopa ou a Liga dos Campeões (ambos não seriam afetados, pois são organizados pela UEFA), essas partidas costumam ser a única oportunidade de se manterem competitivos.
“Estou extremamente preocupada com o rumo que isso está tomando e com a falta de todas essas experiências para as jogadoras americanas”, disse Emma Hayes, treinadora da seleção feminina dos EUA, à ESPN neste mês.
A perda desses torneios seria devastadora para o crescimento do futebol feminino e para as federações que investiram esforço e dinheiro na tentativa de aproximar suas seleções femininas da paridade com as masculinas. Mas esse fato quase não está recebendo atenção, em grande parte porque o mundo continua a ver o esporte feminino como um caso de caridade.
É verdade que, historicamente, o futebol feminino tem sido um negócio deficitário. Mas isso está começando a mudar: a FIFA atingiu o ponto de equilíbrio pela primeira vez na Copa do Mundo Feminina de 2023, que gerou US$ 570 milhões em receita.
Os gastos da FIFA com a Copa de 2023, que incluíram prêmios em dinheiro e pagamentos às jogadoras, às organizações participantes e aos clubes das jogadoras, subiram para US$ 152 milhões, ante apenas US$ 15 milhões em 2015.
Os bônus individuais das jogadoras em 2023 variaram de US$ 30 mil por chegar à fase de grupos a US$ 270 mil pela vitória — um alívio em um esporte em que muitas jogadoras ainda precisam ter um segundo emprego, incapazes de se sustentar apenas jogando.
A entidade reguladora também havia estabelecido anteriormente a meta de pagar prêmios em dinheiro iguais nas Copas do Mundo masculina e feminina até 2027, o que significaria aumentar o prêmio total feminino para US$ 871 milhões no próximo ano.
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E não são apenas os benefícios financeiros que estão em jogo. Na última Copa do Mundo Feminina, a FIFA organizou um programa de preparação física com o objetivo de aumentar a competitividade de seleções que talvez não tivessem participado do torneio anteriormente.
Para nações estreantes como a República da Irlanda, o torneio também aumentou significativamente a visibilidade do esporte, gerando recordes de público nos estádios e um engajamento duradouro dos torcedores após o término da competição.
Levando tudo isso em conta, há uma ironia no fato de que são as mulheres que estão liderando a campanha por um possível boicote. A vice-presidente da UEFA, Laura McAllister, e a presidente da Federação Norueguesa de Futebol, Lise Klaveness — as únicas duas mulheres entre os 21 membros do comitê executivo da UEFA — foram as que lideraram o plano inicial, segundo o site The Athletic. Lucy Bronze, uma das jogadoras mais prolíficas da Inglaterra, também se manifestou a favor do plano, afirmando que é pelo “bem do esporte”.
“Se isso significar boicotar competições, então isso tem que acontecer”, disse Bronze em uma coletiva de imprensa de pré-temporada do seu clube, o Chelsea. “É pelo futuro do esporte… é por todas as meninas e meninos que virão depois de nós.”
Se os torneios deste ano não acontecerem, a FIFA certamente perderá qualquer retorno do dinheiro que já investiu na melhoria do futebol feminino. Mas a falta de lucratividade dessas competições também significa que um boicote não prejudicará a entidade tanto quanto suas federações-membro gostariam.
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A UEFA, juntamente com a Confederação de Futebol da América do Norte e Central (CONCACAF) e a Confederação Asiática de Futebol, iniciaram discussões sobre a realização de torneios internacionais rivais, informou a Bloomberg News. Não foi esclarecido se isso incluiria substitutos para as competições femininas, mas é improvável que quaisquer substitutos tenham o mesmo apoio financeiro que a FIFA oferece.
No fim das contas, são as mulheres que vão se sacrificar pelo time — ou, neste caso, pelo esporte. É injusto que elas tenham que fazer isso quando já precisam lutar pelos meios para jogar, e ainda mais porque não receberão reconhecimento suficiente por pagar esse preço.
Sem uma saída antecipada de Infantino, um boicote pode ser inevitável. O que vier a seguir deve levar os dirigentes do futebol a considerarem reparações adequadas por esse sacrifício.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Emily Nicolle escreve sobre finanças digitais para a Bloomberg Opinion.
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