Bloomberg Opinion — A recente capitulação de Gianni Infantino parece um caso clássico de excesso de ambição por parte de um líder não acostumado a restrições ao seu poder.
O plano do presidente da FIFA de vender uma participação em um veículo comercial avaliado em US$ 20 bilhões a investidores privados desmoronou em quatro dias, à medida que crescia a reação negativa global e até mesmo colegas próximos se distanciavam do projeto.
Agora, seu próprio cargo está em questão. Quem espera que a troca de liderança ponha fim aos escândalos recorrentes provavelmente ficará desapontado: o que o órgão que rege o futebol mundial precisa, acima de tudo, é de uma mudança estrutural.
“Vamos restaurar a imagem da FIFA e o respeito pela FIFA, e todos no mundo vão nos aplaudir”, disse Infantino em 2016, após conquistar a presidência, prometendo em seguida uma nova era de transparência para a organização.
É uma declaração que não resistiu bem ao tempo. Para muitos adeptos do esporte, o que mais chama a atenção no mandato de Infantino é o quão pouco ele diferiu, em estilo, do de seu antecessor, Sepp Blatter, que renunciou e foi posteriormente banido depois que as autoridades americanas prenderam sete dirigentes da FIFA sob acusações de extorsão, fraude eletrônica e lavagem de dinheiro.
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Não houve escândalos criminais comparáveis sob a liderança de Infantino, mas sua presidência tem sido marcada pela mesma postura imperial e pela persistência de preocupações éticas e de governança.
Assim como Blatter e João Havelange antes dele, Infantino tem se comportado cada vez mais como se fosse a personificação do futebol. O exemplo mais visível disso é a mensagem extraordinária de 15 páginas que ele postou no Instagram após a Copa do Mundo.
O presidente da FIFA se gabou do sucesso do torneio e provocou repetidamente aqueles que chamou de “haters”, aconselhando os detratores que “perderam toda essa alegria e união” a assistirem a uma partida de futebol.
Parece não ter ocorrido a Infantino que as pessoas pudessem assistir e apreciar os jogos ao mesmo tempo em que desaprovavam a ele e à sua organização — nem que, em vez de ódio, os críticos pudessem estar motivados pelo amor ao belo esporte.
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A intolerância com reportagens críticas — mesmo sobre questões de interesse público tão óbvias como a recusa de vistos ou a flexibilização de regras disciplinares para agradar a Donald Trump — é característica marcante de um autocrata, juntamente com a incapacidade de distinguir os interesses próprios dos do país (o país do futebol, neste caso).
Esses sinais de uma mentalidade de bolha explicam como foi possível para Infantino arquitetar um plano clandestino para vender uma participação de US$ 4,2 bilhões nos interesses comerciais da FIFA a investidores liderados por um parente de Trump — com quem ele mantém uma relação próxima — sem prever a onda gigantesca de indignação global que se seguiria.
Infantino nem mesmo envolveu seu assessor mais próximo. Aqueles que vivem em “câmaras de eco” e rejeitam a legitimidade do escrutínio externo não estão em posição de julgar o clima fora de sua zona de conforto imediata.
O que há na FIFA que leva seus principais dirigentes a tenderem para esse estilo de liderança? Chamemos isso de síndrome de “A Fazenda dos Animais”. Assim como na alegoria de George Orwell, uma nova vassoura pode chegar com as melhores intenções, mas as dinâmicas de poder institucionais inevitavelmente pintam o novo regime com a mesma tonalidade de seu antecessor. Essa não foi uma conversão repentina para Infantino.
Em meados de 2017, com apenas um ano de sua nova era de suposta transparência, a FIFA já havia destituído os presidentes de seus comitês de ética e governança; um ano antes, o presidente do comitê de auditoria havia renunciado em protesto contra a decisão da diretoria de conceder ao conselho o poder de nomear e destituir esses órgãos de fiscalização supostamente independentes.
A questão fundamental é uma estrutura política que atribui peso igual a cada uma das 211 federações constituintes da FIFA, sob um sistema de “um membro, um voto”.
Isso pode parecer democrático; de fato, Infantino descreveu sua proposta — segundo a qual os rendimentos da venda das participações seriam distribuídos igualmente entre todas as federações — como a “democratização” do futebol. Do ponto de vista de muitas nações com futebol menos desenvolvido e de menor porte, isso é justo.
Os jogadores africanos na Europa “contribuem significativamente, em termos econômicos e de audiência televisiva, para as ligas europeias, mas quanto da receita gerada chega às respectivas federações para promover o desenvolvimento do esporte?”, questionou Rogers Byamukama, executivo da Federação das Associações de Futebol de Uganda, à rádio da BBC. É uma reclamação razoável: a resposta é quase nada.
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O problema, do ponto de vista da governança, é que essa estrutura incentiva o desenvolvimento e a manutenção de redes de clientelismo. O presidente da FIFA pode consolidar seu apoio direcionando recursos para o grande número de federações pequenas e subdesenvolvidas.
As principais potências do futebol são grandes demais para serem compradas; elas também estão extremamente sub-representadas na FIFA em relação ao seu porte econômico e à sua população. A Alemanha, por exemplo, com uma população de 84 milhões e mais de 2 milhões de jogadores registrados, tem direito a um voto; Montserrat, com uma população de 4.300 habitantes — um voto.
Os incentivos inerentes a esse sistema clientelista têm superado os esforços anteriores de reforma e moldado líderes sucessivos que acabaram agindo como ditadores quase soberanos. É preciso mudar isso. Vários partidos apresentaram propostas sérias para reformular a FIFA ao longo dos anos.
Isso não significa necessariamente abandonar a estrutura de “uma federação, um voto”, embora os direitos de voto ponderados — como os utilizados no rúgbi — mereçam ser considerados.
O que é fundamental é coibir o sistema de clientelismo. Isso pode ser feito por meio de fórmulas de financiamento objetivas e avaliadas de forma independente, e pela inclusão de grupos sub-representados na estrutura de poder da FIFA — como o futebol feminino, os sindicatos de jogadores e os clubes.
Deixar de aproveitar o impulso gerado pela crise atual seria uma oportunidade perdida. Substituir o presidente da FIFA sem mudar o sistema subjacente provavelmente resultará apenas em um clone de Infantino.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Matthew Brooker é colunista da Bloomberg Opinion e cobre negócios e infraestrutura. Foi editor da Bloomberg News e do South China Morning Post.
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